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Busuu
Na China, a brasileira Alice Schuch estuda mandarim e alemão pela web

Aulas customizadas, apostilas interativas, horários flexíveis e colegas de todas as partes do mundo. Esses são alguns dos atrativos oferecidos por cursos online de idiomas e que estão fazendo com que aprendizes de inglês, espanhol, mandarim ou russo troquem os tradicionais cursos presenciais pela tela do computador ou tablet.
 
Além da possibilidade de aprender no conforto de casa ou qualquer lugar que o aluno deseje, os sites e aplicativos contornam o problema da falta de tempo, do custo (a maioria disponibiliza boa parte do conteúdo gratuitamente) e através de jogos, vídeos e áudio prometem deixar o aprendizado mais divertido.
 
Foi com essa proposta de revolucionar “o método tradicional para aprender um novo idioma” que os europeus Adrian Hilti e Bernhard Niesner fundaram em 2008 a Busuu, rede social interativa de aprendizagem de idiomas batizada com o nome de uma língua camaronesa que, de acordo com um estudo etnológico, apenas oito pessoas no mundo são capazes de falar.


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O site, que já conta com mais de 25 milhões de usuários e também está disponível em versão app, exige que o internauta crie um perfil na rede para acessar os cursos que vão do italiano ao árabe. Além das atividades individuais que incluem exercícios de sintaxe, vocabulário e ortografia, é possível adicionar amigos, criar grupos e aprimorar as habilidades de conversação conectando-se com outros usuários de diferentes nacionalidades por meio de videoconferências. A ideia é que cada usuário não seja apenas aluno de uma língua estrangeira, mas também um tutor de sua língua materna.
 
Adepta do estudo online de idiomas desde 2010, Alice Schuch procurou a rede para aprimorar seu italiano, espanhol e inglês. A experiência foi tão positiva que quando se mudou para a China, onde vive atualmente, resolveu adicionar mais duas línguas aos seus estudos, mandarim e alemão. “Moro em uma cidade pequena em que quase ninguém fala inglês e a possibilidade de estudar línguas estrangeiras é quase nula. A alternativa foi manter meus estudos através dos sites”, conta.
 
O segredo para bons resultados? Muita disciplina, segundo Alice, que tem 33 anos e trabalha com desenvolvimento de produtos de moda. “O estudante deve ser criterioso ao estabelecer suas metas e dedicar seu tempo como se fosse a uma aula presencial. No meu caso, para cada idioma tenho um cronograma de aulas na parede do meu escritório e o sigo rigorosamente. Se por ventura perco algum horário, me esforço em dobro para recuperar a aula perdida.”
Experiências autênticas

Para Airton Pretini, mestre em Linguística Aplicada pela PUC-SP e coordenador de Língua Estrangeira da Escola Castanheiras (SP), não estamos exatamente diante de uma nova proposta de aprendizagem, como algumas dessas plataformas costumam propagar. “Não é uma nova metodologia de ensino, pois o que o Busuu e outras plataformas similares fazem é reproduzir em ambiente virtual as interações que acontecem em uma sala de aula, entre estudantes, professores e colegas.”
 
Entretanto, o linguista acredita que a tecnologia pode ser uma grande aliada no processo de aprendizagem de um novo idioma na medida em que amplia o repertório do aprendiz e o coloca em situações reais de interação. “O processo de aquisição de uma nova língua vem de sua prática social. Essas ferramentas reúnem conteúdos diversos e possibilitam a interação entre falantes em um contexto menos formal do que o apresentado pelos materiais didáticos”, explica.
 
Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva, doutora em Linguística e Filologia e professora da Faculdade de Letras da UFMG, também acredita que o grande diferencial dos cursos online é colocar o aprendiz em contato com a língua efetivamente falada, incluindo as gírias, expressões e sotaques apenas perceptíveis no contexto da oralidade.
 
“No Brasil, nem sempre as pessoas têm a oportunidade de conviver com estrangeiros e a web traz essa possibilidade. O aluno pode se conectar com falantes nativos de uma língua como também pode treinar seu alemão com um francês e, neste caso, os dois terão de negociar sentidos, o que traz benefícios reais ao processo de aquisição.”
 
Outro ponto positivo, segundo Vera Lúcia, é o intercâmbio cultural que acontece durante esses momentos de interação. “Aprender fica mais interessante porque existe uma curiosidade real em saber da vida do outro, na troca de experiências: como é seu país de origem, como vive, o que come, o que faz no seu tempo livre.”
 
Entre as ferramentas online utilizadas pela professora em sala de aula está o English Central – portal que reúne diversos vídeos em inglês como discursos políticos, desenhos animados, entrevistas e trechos de filmes. Os vídeos são organizados por tópicos como inglês de negócios, inglês da mídia e inglês para viagem e atendem a três níveis – iniciante, intermediário e avançado.
 
Primeiro, o aluno assiste ao vídeo completo e, em seguida, treina sua compreensão e pronúncia do idioma por meio de exercícios de audição, ortografia e fala. Na atividade de enunciação, algumas falas são recortadas do vídeo para que o aluno as repita em voz alta. O computador dá notas conforme a qualidade do desempenho e se este não for satisfatório, é possível clicar em um botão e comparar sua fala à do falante do vídeo e tentar novamente.
 
O professor possui uma área especial onde pode criar sua videoteca e estabelecer metas para os alunos. “De novo, o interessante é que são recortes reais do uso do idioma. A fluência em uma língua vem de seu uso, que pode ser de maneira receptiva ou ativa, e a internet permite que os falantes tenham experiências diárias com o idioma e práticas sociais de linguagem significativas, autênticas”, explica.
 
Entretanto, alguns especialistas ainda desconfiam dessas ferramentas enquanto métodos para aprendizagem de língua estrangeira. A ausência de profissionais formados no acompanhamento do processo e os prejuízos que isso pode trazer para a formação de alunos são algumas das preocupações de Ana Paula Cortez, professora de inglês e português para estrangeiros na Associação Escola Graduada de São Paulo (Graded School).
 
Segundo a professora, tais tecnologias funcionam bem como exercício de apoio, mas não são confiáveis como métodos de aprendizagem autônomos. “São ferramentas muito simpáticas à primeira vista, mas depois vemos que são também bastante limitadas, pois utilizam um mesmo modelo de aula e exercícios para ensinar todos os idiomas, não respeitando as particularidades de cada língua.”
 
Para Ana Paula, a interação face a face na aprendizagem é essencial, assim como a figura do professor para orientar este processo de perto. “Mas acho interessante utilizá-las como atividades de suporte: o professor pode selecionar exercícios e pedir para que os alunos façam em casa para reforçar aquilo que foi visto em sala de aula.”

*Publicada originalmente em Carta na Escola