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Livro explora o imaginário lúdico que rege o elemento terra

Não é preciso de muito para começar uma brincadeira. Para divertir-se com sombras, por exemplo, basta uma vela e as mãos e, para brincar de comidinha, os ingredientes vão de água e grãos emprestados da cozinha até folhas e outras plantas achadas no quintal. Sob o olhar imaginativo da criança, o sabugo de milho vira boneca, pétalas de flores assumem a forma de unhas postiças e restos de madeira, latas ou borracha se transformam em um carro de lata.


São esses brinquedos construídos não por artesãos ou designers, mas pelas mãos das próprias crianças, o foco do trabalho do pesquisador e artista Gandhy Piorski. No recém-lançado Brinquedos do chão: a natureza, o imaginário e o brincar (Ed. Peirópolis com apoio do Instituto Alana), o autor explora o imaginário lúdico que rege o elemento terra. A obra é a primeira de uma série de quatro volumes que relacionam o brincar aos elementos da natureza. Os livros seguintes abordarão a ludicidade relacionada à água, ao fogo e ao ar.

“A terra é a base da vida material e a relação da criança com esse universo cria um senso de identidade com seu corpo, que tem tanto o atrito, a dureza da pedra como o aconchego, o acolhimento das areias e do barro”, explica. Entre os brinquedos que representam o universo do chão, estão bonecas de ossos e pedras, boizinhos de barro, miniaturas e brincadeiras de casinha, que caracterizam, na produção material, gestual e narrativa da infância, a investigação da matéria e as operações da imaginação no forjar a elaboração e o enraizamento dos papéis sociais na casa, na família e no mundo.

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O artista e pesquisador Gandhy Piorski. Foto: Adriana Elias

O repertório expõe também a anatomia do brincar. Segundo o pesquisador, as crianças demonstram desde muito cedo o interesse em investigar o dentro das coisas, o oculto da natureza. “Então elas vão nas ossadas para construir brinquedos, nas seivas das árvores para fazer bolas e bonecos ou, até mesmo, quebram os brinquedos para ver o que tem dentro. A própria imaginação da criança a conduz a investigar a estrutura da vida, sua externalidade e substância”.

O objetivo dos livros, diz Piorski, não é necessariamente resgatar as brincadeiras e brinquedos tradicionais, mas encontrar na imaginação a matéria-prima que alimenta a vida da criança. Nessa busca, a cidade também tem espaço. “Em Fortaleza, observei como a imaginação infantil se comporta como matérias-primas industriais”, conta.

Durante 40 dias, mais de 1.200 crianças foram convidadas para produzirem livremente com sucata. O material produzido revelou uma capacidade surpreendente do ponto de vista narrativo e estético. “O engraçado é que elas perguntavam ‘pode fazer o que quiser mesmo?’, pois estão muito acostumados a serem direcionadas. Foi um afloramento de consciências, mostrando que a capacidade imaginária das crianças quando provocada da maneira devida é riquíssima”.

Piorski alerta que é preciso ter cuidado com o discurso de que a criança não brinca mais, tão instituído nos dias atuais, pois este impossibilita que vejamos as vontades e linguagens da criança que se manifestam todos os dias e de formas diversas. “É claro que a quantidade de estímulos externos de algum modo soterra os estímulos internos. Se, para brincar, a criança precisa ter sempre o jogo novo, o celular de última geração e deixa de viver seu próprio processo criativo, ela entra em um processo aliciante do consumo e isso, de fato, drena sua capacidade de se expressar”.

No entanto, isso não significa demonizar as tecnologias. É possível sim, diz o pesquisador, equilibrar os dois lados, criando um diálogo entre brinquedos tecnológicos e natureza. “Desde que lhe seja oferecida o uso de objetos, a manualidade, a expressão plástica, não há o menor problema”, conclui.