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Escola Nave no Rio

São 9h45 da manhã na Tijuca, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, e a carioca Ana Paula Bessa, diretora do Colégio Estadual José Leite Lopes (Nave), está a mil por hora. Trabalhando desde as 6h30, àquela altura do dia já tinha aberto a escola, recebido os alunos no portão, tomado uma série de decisões administrativas e burocráticas e concedido pelo menos duas entrevistas para emissoras de tevê a respeito da unidade.


O sinal toca alto, anunciando o fim do recreio, e Ana Paula cruza como um raio o pátio de convivência do colégio. No espaço coberto e bem iluminado, repleto de mesas, computadores, televisores e videogames, 416 adolescentes desfrutam de internet livre e gratuita.

“Vamos para a aula, Matheus? Vamos lá, Luana! Vamos, Maria Júlia!”, repete a diretora, incitando alguns de “seus meninos” a voltar às salas de aula ou aos laboratórios da unidade.

“Mas, Ana, espera aí. Estamos baixando um arquivo para o trabalho final do Marcos Tavares (professor de projeto e produção). É uma web série sobre futebol. Já vamos! Já vamos!”, responde a adolescente Maria Júlia Torres, que tem 15 anos e está a ponto de concluir o 2º ano do Ensino Médio. Ana Paula lhes dá mais dois minutos.

Desde que foi aberto ao público, em 2008, o Colégio Estadual José Leite Lopes  é tratado como a menina dos olhos da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro. Fruto de uma parceria público-privada selada entre o governo do estado e o Instituto Oi Futuro, a unidade apareceu, em 2011 e 2012, no primeiro lugar do ranking das escolas estaduais mais bem colocadas no Enem. Sua média no exame foi de 573 pontos, 22 acima da média de todas as escolas fluminenses e 44 acima das paulistas.

Mas o orgulho do secretário Wilson Risolia não para por aí. Em março do ano passado, o colégio foi eleito pela Microsoft como uma das 33 escolas-modelo do mundo. De lá para cá, passou a ser visitado, estudado e admirado por professores, pedagogos e jornalistas de todo o planeta. E não há dúvidas de que seu modelo, que mistura dedicação integral de alunos e professores com uma infraestrutura física e tecnológica de primeira qualidade, precisa ser copiado Brasil afora.

“Nem sei ao certo quantos visitantes já tivemos aqui”, conta a diretora, rindo e dando sequência ao tour pelo prédio. “Mas, só nas duas últimas semanas, recebi uma turma de tailandeses e outra de alemães. Isso sem falar, é claro, da imprensa.”

Para cursar o Ensino Médio no Nave, como é chamado, os adolescentes precisam, contudo, vencer uma prova apertadíssima com questões de Português, Matemática e Redação. E, nos últimos anos, a disputa não foi fácil. Das 160 vagas oferecidas para cada uma das três séries do Ensino Médio, 90% são reservadas para jovens oriundos de escolas públicas.

Cinco por cento sobram para os que vêm de colégios particulares e os outros 5% ficam para deficientes físicos. O número de inscritos ronda os 5 mil, o que faz com que a relação candidato-vaga se assemelhe à dos vestibulares mais concorridos do País, que hoje é de 30 para 1.

Alunos da Nave

Mas as dificuldades não param por aí. Além de vencer o exame, normalmente realizado em outubro, os jovens devem saber que, uma vez aceitos na unidade, terão de se comprometer com seu modelo. Ou seja, precisarão passar dez horas por dia lá dentro. De segunda a sexta-feira, as aulas começam às 7 horas e só terminam às 17.

Quem topa a carga horária puxada – e são muitos, já que a taxa de desistência não passa de 2% dos aprovados – tem um retorno à altura. Além de professores escolhidos a dedo na rede estadual para ministrar as matérias do currículo regular, os estudantes podem optar por um dos três cursos técnicos oferecidos na instituição: o de programação, o de roteiro ou o de multimídia.

Na escola, que não aderiu à greve de professores estaduais que abalou o Rio de Janeiro no segundo semestre de 2013, os jovens também recebem alimentação gratuita e dispõem de quatro tempos de aula toda semana para fazer seus deveres de casa e estudar. O que não podem – de jeito nenhum, diz Ana Paula Bessa – é colocar o nariz para fora das grades.

“Sei que estou abrindo mão da socialização com o mundo lá fora. Já não vejo muitos dos meus antigos amigos e familiares, mas tudo bem. Aqui a gente aprende coisas que só aprenderia na faculdade”, pondera Maria Júlia (ainda esperando para baixar o arquivo da web série na internet). “Na PUC-Rio, por exemplo, quem faz Jornalismo só tem aula de Telejornalismo lá pelo quarto período. Nós, aqui, já tivemos”, ela completa.

“Acho que, no Nave, a gente perde um pouco da independência. Eu, por exemplo, trabalhava como freelancer, fazendo design de folders e sites e agora não tenho mais tempo para isso”, conta Matheus Silva, 16 anos, colega de turma de Maria Júlia. Em sua visão, quando sair da escola, esse esforço será um diferencial: “Terei uma rede de contatos enorme. Não só com meus colegas de roteiro, mas também com os professores, que já estão aí, empregados, trabalhando no ramo”.

Hamilton Lima, carioca de 44 anos, ensina Programação no Nave há dois anos. Isso quer dizer que passa três dias por semana dentro dos muros da instituição. Para o professor, o que torna a escola um modelo a ser propagado é exatamente o fato de o corpo docente ser composto de quem está no mercado e, assim, sabe da importância de mostrar aos alunos a aplicabilidade daquilo que eles aprendem em sala de aula. Lima também elogia o esforço dos professores em apostar e realmente colocar em prática a chamada interdisciplinaridade.

“Fizemos dois trabalhos muito interessantes neste ano. No primeiro, pedi aos alunos que criassem um brinquedinho para rodar nos celulares Android fornecidos pela escola. Um fez a tela piscar. Outro fez ela mudar de cor”, lembra. A experiência, ele diz, não ficou só nisso. “Mandei a turma criar um questionário de opinião e, no recreio, colher informações sobre seus produtos. Uma verdadeira aula de Marketing. No outro trabalho, fizemos um jogo de computador com batalhas da Segunda Guerra Mundial. Os personagens foram estudados a fundo – seus nomes, uniformes, bandeiras. Tinha de parecer real, e a integração com a equipe de História foi plena. Não tem como os alunos não gostarem disso”, completa.

Retenção e tutoria

No colégio não se fala em repetência, mas em “retenção”. No frigir dos ovos, o significado é o mesmo, mas, segundo a diretora, a semântica alivia o drama de perder um ano.

No Nave, as turmas – quatro em cada série do Ensino Médio, cada qual com 40 alunos – são divididas em “times” de cinco jovens, e cada time adota um professor como tutor para aquele ano. É com esse profissional que os adolescentes mais se comunicam.

“Como essas crianças passam a maior parte do dia aqui, é aqui mesmo que tudo explode: os problemas familiares, as dificuldades acadêmicas e até a sexualidade”, relata a diretora Ana Paula. “Então eu costumo dizer que, quando eles entram aqui, são meus.”

Por isso é que, desde que assumiu o cargo, a ex-professora de inglês faz questão de disponibilizar aos recém-chegados à escola aquilo que chama de “disciplina básica”.

“É óbvio que o nível daqueles que entram é bem heterogêneo, refletindo a qualidade do ensino público municipal em geral. Tem gente que não sabe converter quilômetros em metros, não sabe transformar horas em segundos ou dividir frações. Mas aqui somos uma família. Não vamos colocá-los contra a parede, mas ajudá-los no processo de formação acadêmica”, ela explica.

Quem passeia pelos quatro andares do Nave e está acostumado com um colégio tradicional se surpreende, no entanto, com um ponto: a escola não dispõe de uma quadra para prática de esportes. Então como são feitas as aulas de Educação Física?

“Arrastamos as cadeiras do auditório para fazer pequenas atividades que precisam de espaço, como meditação, ou usamos o X-box e o Kinect”, ela revela, ciente de que esse é o ponto fraco do colégio. “Mas, em nossa opinião, os meninos já passam aqui muito tempo estudando, navegando, criando. Eles também precisam aprender a descansar. Então investimos muito no relaxamento. Acreditamos no conhecimento do próprio corpo”, completa.

Segundo Paola Scampini, diretora de Educação do Oi Futuro, o modelo bem-sucedido aplicado no Colégio Estadual José Leite Lopes é idêntico ao que foi estabelecido no Recife, em 2006, e que agora está sendo levado para Rondônia, que procurou o instituto e firmou um termo de cooperação técnica com ele para usar seu know-how. Paola adianta que o estado amazônico tem planos de implantar outras duas escolas nos mesmos moldes. Uma em Porto Velho e outra em Ariquemes. Pode ser um caminho para inspirar inovações País afora.

*Publicado originalmente em Carta na Escola