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Artur Avila recebendo Medalha Fields
O matemático Artur Avila recebendo a medalha Fields, em 2014

A situação paradoxal do Brasil em Matemática lembra um problema escolar, daqueles complicados em que nem todos os elementos estão no enunciado.


Aos 35 anos, o carioca Artur Avila ganhou uma medalha Fields, prêmio equivalente ao Nobel, e colocou em evidência uma pesquisa de ponta na área que destaca o País mundialmente.

Ao mesmo tempo, os piores indicadores da educação brasileira são relativos à disciplina tanto em nível internacional quanto nas provas locais. Como é possível?

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Erra quem aposta que Avila é um caso isolado. O próprio Congresso Internacional de Matemática em que houve a premiação prova o contrário. Além dele, outros três brasileiros tiveram seus trabalhos reconhecidos pelos organizadores e selecionados para apresentações no evento.

Entre eles, o alagoano Fernando Codá, de 34 anos, que também chegou a ser cotado para a medalha concedida pela União Internacional dos Matemáticos (IMU, na sigla em inglês). Desde 1918, apenas 52 pessoas receberam a honraria dada a cada quadriênio aos quatro profissionais abaixo de 40 anos que fizeram os principais avanços na área.

A IMU divide os 71 países membros da instituição em cinco categorias. O Brasil entrou em 1954 e fez parte do Grupo 1, de iniciantes, até os anos 1960. Depois, ficou no Grupo 2 até 1978, quando passou ao Grupo 3, intermediário. Em 2005, começou a fazer parte do já seleto Grupo 4, ao lado de mais nove países como Suíça, Suécia e Espanha. No ritmo atual, a comunidade matemática prevê para os próximos anos a chegada ao nível máximo, em que estão as dez nações mais avançadas.

“Artur é um pesquisador extraordinário, e é merecidíssimo o reconhecimento entre os melhores do mundo, mas a medalha é também um resultado coerente com a maturidade já adquirida pela matemática brasileira”, afirma César Camacho, diretor do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), esta, sim, uma instituição isolada, cujo papel para entender a situação do País na área é elementar.

No pé da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, junto a uma ladeira a um quarteirão do ponto final da única linha de ônibus que serve à região, o instituto mantém apenas 150 alunos de pós-graduação.

Apesar do tamanho, aparece no currículo dos principais matemáticos brasileiros e atrai estrangeiros do mundo todo. Artur começou sua pesquisa ali, logo após ganhar uma medalha de prata na Olimpíada Brasileira de Matemática, também organizada pelo Impa. “Foi decisivo, eu percebi que realmente tinha inclinação muito forte”, lembra. Ele tinha 13 anos.

Aí aparece um dos diferenciais marcantes da instituição: descoberta e investimento em talentos desde muito jovens. Por ser um instituto e não uma universidade, a organização não precisa exigir a graduação para a matrícula no mestrado e doutorado.

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Avila tornou-se doutor com 22 anos e há quem o tenha feito ainda mais cedo. Entre os discentes sempre há cerca de dez adolescentes, muitos dos quais ainda nem sequer entraram na graduação, que precisa ser feita em outra instituição.

É o caso de Daniel Rocha, hoje com 17 anos, cursando o doutorado. Estudante de escola pública, ele chegou à instituição aos 12 anos acompanhado do pai, professor de Matemática que fazia ali um curso de aperfeiçoamento.

“Vim mais porque ele não tinha com quem me deixar, mas eu já resolvia problemas avançados para a minha idade e gostava muito. Um professor percebeu e acabei ganhando uma bolsa”, conta.

Atualmente, frequenta a instituição três vezes por semana e conta que chegou a ir todos os dias úteis. Oficialmente, chega às 7 horas e vai embora às 18, “mas é normal ficar um pouco mais”.

Com isso, vai pouco à escola em que ainda faz o ensino médio, porém diz que não tem dificuldades. “Falto bastante, mas tiro boas notas nas provas. Quando vou, prefiro gastar meu tempo dando aulas e treinamento para as olimpíadas de matemática”, afirma.

O diretor do Impa sabe da desconfiança que o início tão precoce desperta. “As mulheres, principalmente, reagem com instinto maternal. Mas vá perguntar a eles se querem qualquer outra coisa?”, diz. Daniel assegura que não. “É onde mais gosto de estar.”

No comando há dez anos e no quadro de pesquisadores há quatro décadas, Camacho conta que dois elementos na história do instituto foram cruciais para chegar ao quadro atual. O primeiro foi a criação da instituição pelo governo, em 1952, com três matemáticos com larga produção científica, Leopoldo Nachbin, Maurício Peixoto e Lelio Gama. “Isso é o primeiro aspecto singular. Eram o melhor do melhor, reconhecidos inclusive no exterior”, explica. Prova disso é que a área do primeiro, os Sistemas Dinâmicos, avançou de pesquisador para pesquisador e tornou-se a que levou Avila à Fields.

Outro momento histórico considerado essencial foi a decisão estratégica da direção de tornar o Impa uma organização social em 2000. A instituição recebe 30 milhões de reais anuais do governo federal e tem contrato de gestão que inclui uma série de metas, mas está liberada da burocracia de órgãos públicos. Para Camacho, é o que explica a medalha Fields ter sido conquistada no Brasil antes de um indicado para o Nobel.

“Podemos concentrar nossos pesquisadores na pós, enquanto as universidades precisam ter graduação. Além disso, conseguimos fazer contratações nos momentos mais oportunos”, explica, citando que, com a crise internacional desde 2008, especialistas estrangeiros passaram a se interessar muito por suas vagas.

No último processo seletivo, aberto no ano passado para duas posições, havia 12 candidatos dos Estados Unidos, 10 da Rússia, 8 da França e 8 da Alemanha, entre outros. Os vencedores foram um francês e um alemão.

Explicado o motivo de o Brasil ter pesquisa matemática de ponta, a resposta para o problema proposto no início desta reportagem pode parecer a falta de relação entre o Impa e a escola pública. Outro palpite que não resiste diante da verificação dos fatores envolvidos.

O Impa é sede da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e responsável pela Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Essa última, criada em 2005, movimenta cerca de 19 milhões de estudantes por ano. Por causa dela, quando Avila ganhou a Fields na Coreia do Sul, o professor Antonio Cardoso do Amaral, de Cocal dos Alves, município de 5 mil habitantes no Piauí, comemorou.

Um dos educadores com alunos premiado em todas as edições, Amaral usou o feito para aumentar ainda mais o incentivo aos estudos. Disse que Avila “é colega” dos professores da Universidade Federal do Piauí que representam a Obmep no estado e costumam visitar a cidade.

Também explicou que a bolsa para estudar no Rio de Janeiro do ex-aluno da escola, Sandoel de Brito Oliveira, um dos primeiros medalhistas da cidade, é no Impa. “Eles ficaram surpresos e animados. Foi muito bom, eles se sentem parte de algo muito importante”, conta.

O coordenador acadêmico da OBM, Edmilson Motta, afirma que Artur faz parte da “montanha de base muito larga de alunos que participaram das olimpíadas”. Para ele, ainda que a maioria não ganhe prêmios ou mesmo vá fazer pesquisa, muitos adquirem confiança e incentivo para os estudos. “Vão ter carreiras mais bonitas, como financistas ou em outras áreas ligadas às ciências exatas”, diz.

Segundo Motta, em cada escola em que há um ganhador o clima de estudos melhora, novos materiais são considerados, os alunos ficam motivados e os professores renovam suas expectativas. “Os resultados existem”, garante. Ele reconhece, no entanto, que o impacto é insuficiente para aparecer nos índices nacionais ou internacionais de qualidade de ensino. “É algo ainda mais difícil que a medalha”, afirma.

Impacto na escola
A outra ponta do problema é mais conhecida, seja pela vivência, seja pelas manchetes dos jornais. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), realizado com alunos de 15 anos, o Brasil ocupa o 58º lugar entre 65 países.

Por quê?

Camacho tem uma resposta direta: “Matemática é mais difícil mesmo”. Mas explica que a dificuldade está em aprender sem estrutura e não no conteúdo em si. “Todo o programa para a Educação Básica é o mínimo que se deve saber e não tem nada de complicado. Qualquer aluno pode entender. A questão é que matemática é sequencial. Se você der azar de não aprender em um ano Frações, não tem como entender Regra de Três no outro.”

O diretor diz que, por acompanhar a Obmep desde a sua criação com visitas a escolas, tem hoje visão muito clara da raiz do problema e das chances de esse azar ocorrer.

“Tem escola que não tem sequer professor, outras em que o educador não conhece a matéria, ele próprio já se formou mal. O professor pode ser antipático. O entorno pode ser desfavorável para que o aluno preste atenção. É muito complexo.”

Outros investimentos surgiram recentemente em busca do impacto da excelência dos pesquisadores matemáticos na Educação Básica.

Em 2011, foi criado o Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional, coordenado pelo presidente da SBM, Marcelo Viana, e realizado em 67 instituições conveniadas de todo o País.

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Anualmente, 1,5 mil vagas são oferecidas com cota de 80% para profissionais da rede pública. A primeira turma formou-se em 2013 com 70% de êxito. “Todas as dissertações precisam ser sobre conteúdos relevantes para o professor e já temos indícios de impacto na prática docente”, afirma Viana.

Ele acredita que essa iniciativa será bastante significativa, mas outras precisam ser tomadas em favor do professor. “Há aspectos que fogem do alcance da academia e são responsabilidade da classe política, como retenção dos talentos na educação, o que passa pela valorização da carreira e não apenas financeiramente”, diz.

Viana é membro do Instituto Internacional de Matemáticos e apontado como o principal encarregado de tornar a medalha Fields um impulsionador do gosto pela área no País. A maior oportunidade de sensibilização ocorrerá em 2018, quando o Brasil sediará o Congresso Internacional. Até um mascote será escolhido para o evento, como forma de atrair a atenção das crianças.

O efeito multiplicador da premiação também deve aparecer. Parte dos adolescentes descobertos pela Obmep, e que tiveram acesso a uma educação superior de alta qualidade, faz planos de retribuir. Um exemplo é Tábata de Pontes, 20 anos, aluna de Ciências Políticas e Astrofísica na Universidade Harvard.

“Estudei em escolas públicas na cidade de São Paulo até a 7ª série, quando ganhei uma bolsa por ter tido um bom desempenho na Obmep. Isso me permitiu ter oportunidades cada vez mais incríveis”, conta.

Tábata representou o Brasil em olimpíadas internacionais e, em 2012, foi aceita em seis universidades americanas com bolsa integral. Agora lançou com colegas brasileiros o projeto Mapa do Buraco, um manifesto que aponta os problemas da educação brasileira.

“Atualmente, o meu maior sonho é contribuir para uma educação pública de qualidade no Brasil. Tenho consciência de que fui muito abençoada por tantas oportunidades, como também tenho certeza de que isso não é verdade para todas as crianças e jovens brasileiros.” Agora, é aguardar os resultados.