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Bobo e Ellen Kaplan
Bob e Ellen Kaplan falam sobre a proposta do Círculo da Matemática durante encontro com professores

Anos atrás, quando os professores americanos Robert e Ellen Kaplan conversavam sobre suas rotinas em sala de aula, eles constataram algo. Bob, professor de uma das mais conceituadas instituições de ensino do mundo, a Universidade de Harvard, e Ellen, que então lecionava em uma escola regular (hoje ela é também professora de Harvard), perceberam que um ponto unia seus alunos: todos eles odiavam Matemática.


Com surpresa, o casal constatou que as raízes da rejeição da disciplina estava, basicamente, no fato de que muitos professores tinham medo da Matemática e se mostravam muito bons em ensinar o seu medo. “É um mito de nossa cultura e do nosso tempo que a matemática é somente para poucos escolhidos, que ela é super humana, para super-homens somente. A matemática é a nossa linguagem nativa perdida, que se redescobre explorando-a e praticando-a”, diz Bob.

É essa descrença na capacidade de resolver problemas matemáticos que alimenta a aversão pela área, apesar de provar-se infundada. Ellen explica: “A matemática é mais fácil de dominar do que as irregularidades surpreendentes e as regras estranhas da linguagem, falada ou escrita. A mente tem uma afinidade com a matemática assim como o corpo tem com a dança”.

Para que os alunos melhorassem seu rendimento na disciplina, portanto, seria preciso que crianças e professores perdessem seu medo e gostassem de Matemática. Mas como fazer isso?

Bob Kaplan

Para os professores, ficou claro que, primeiro, era preciso mostrar que a Matemática não é um bicho de sete cabeças, mas algo próximo de nossa realidade, presente em diversas situações do nosso a dia a dia. Segundo, era preciso deixar de lado o ensino passivo e investir em uma abordagem lúdica da disciplina por meio da qual fosse possível despertar a curiosidade dos alunos.

Assim nascia o The Math Circle (Círculo da Matemática, em livre tradução), metodologia de ensino que dispensa as aulas expositivas e coloca o aluno como protagonista da aprendizagem. Nenhuma informação é passada de antemão, os alunos precisam raciocinar e questionar para descobrirem as respostas por sua conta.

Sob o bordão “Diga-me e eu esquecerei, pergunte-me e eu descobrirei”, o método vale-se de conversas informais para estimular as descobertas e a imaginação. “Platão escreveu que, porque somos os brinquedos dos deuses, nós devemos jogar os jogos mais nobres. A Matemática é o mais nobre dos jogos. Explorar a sua paisagem escabrosa, inventar nosso caminho através dela é uma das coisas mais empolgantes que os humanos podem fazer”, lembra Bob.

Nunca dizer de primeira as respostas aos estudantes, usar o erro pedagogicamente para organizar o pensamento dos estudantes, não incentivar a cópia do quadro e não ser um escravo dos conteúdos são algumas das orientações do casal Kaplan. “Chegar às questões corretas não é o objetivo de tudo. O segredo está na construção do processo. Brinque com o resultado. Não termine o problema com a questão certa, extrapole, invente, aplique o resultado. Pergunte se existem outras formas de se chegar ao mesmo resultado. Tente terminar em uma nota alta com uma questão aberta: ‘Vamos imaginar o que pode ser feito com esse resultado na próxima aula'”, explica o site do projeto.

A abordagem se aplica a todas as idades, de crianças a adultos, porque consiste fundamentalmente no compartilhamento e desenvolvimento de ideias dentro de uma conversa amigável. “É a maneira com que pessoas de todas as idades falam umas com as outras sobre as coisas que importam: com seriedade e bom humor, com consideração e vívida imaginação”, conta Ellen.

O método chegou ao Brasil em 2013 por meio do Instituto TIM, que o adaptou à realidade nacional dando origem ao O Círculo da Matemática do Brasil. Atualmente, a adoção da abordagem pelas escolas pode funcionar de duas maneiras diferentes.

O primeiro modelo, iniciado em 2013, oferece aulas de Círculo da Matemática como atividades extras da disciplina e conta com educadores contratados pelo projeto somente para esse fim. “Assim, uma vez por semana, o aluno tem suas atividades do Círculo, além das aulas regulares”, explica Flavio Comim, coordenador do projeto O Círculo da Matemática do Brasil.

No ano passado, com o intuito de ampliar ainda mais o alcance do projeto, passou-se a oferecer um modelo adicional com formação para professores da rede pública de ensino, para eles usarem os elementos da abordagem que desejem em suas aulas regulares de matemática.

A previsão é que ainda em 2016 o Círculo da Matemática esteja em 18 cidades do País. Hoje, 12 municípios – como Duque de Caxias (RJ), Porto Alegre, Novo Hamburgo (RS), Marabá (PA), Aracaju e Brasília – estão adotando o formato de formação de professores das redes públicas na abordagem do Círculo da Matemática por educadores multiplicadores. A expectativa é capacitar 1,8 mil professores nesses locais. O projeto deve atingir até o fim deste ano 80 mil alunos do Ensino Fundamental da rede pública brasileira.

“A preocupação com a inclusão, com a superação de estigmas e empoderamento das crianças e com a melhora da autoestima delas em relação à matemática é estruturante das atividades no Brasil”, conta Comim.