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José Pacheco

É atrás de um imenso circo que aguarda a dupla de amigos Igor de Lima e Lohan Apezato, ambos com 10 anos, ansiosos para apresentar tudo o que tem na escola deles. “Aposta quanto que não é como as outras que você conhece?”, provoca Igor. Os meninos estudam na Escola Walter Steurer, em Cotia, que surgiu dentro do Projeto Âncora. A Organização Não Governamental foi criada em 1995 por Walter Steurer e, até 2011, atendia crianças, adolescentes e adultos com renda familiar de até três salários mínimos. Oficinas de arte, música e circo eram algumas das opções ofertadas no contraturno.


“Acontece que o Walter sempre sonhou em criar aqui uma escola, mas, para ele, se fôssemos ter uma escola, ela teria de ser a melhor”, conta Fernando Furuiti, diretor do Projeto Âncora.

Foi assim que começou uma conversa com José Pacheco, criador da hoje referencial Escola da Ponte, em Portugal, para instaurar um projeto seguindo os mesmos preceitos aqui – a qual abriu as portas em janeiro do ano passado. Passou-se, explica Furuiti, que a escola absorveu as crianças que já faziam parte dos projetos do Âncora. “Foi um processo natural. No começo, tínhamos uma lista de espera com novos candidatos, mas logo tivemos de abrir mão dela quando chegou perto da casa dos 500, não fazia mais sentido.” Hoje, da educação infantil ao final do Ensino Fundamental 2, são 250 alunos, atendidos por 30 educadores e 30 voluntários. Com o diferencial de que, aqui, todos são considerados educadores, “do porteiro ao coordenador de oficinas”.

Dessa forma, não há salas de aulas convencionais ou séries. Há os “ciclos” de Iniciação 1 e 2, Desenvolvimento e Aprofundamento. “Na Iniciação 1 e 2, as crianças estão em fase de alfabetização em Português e Matemática, e também aprendendo as atitudes que fazem parte do projeto. Para passar para o Desenvolvimento, elas têm de saber escrever, ler e ter atitudes necessárias, como saber se organizar, fazer planejamento do seu dia, respeitar horários, se inscrever nas oficinas nas quais têm interesse, respeitar os combinados, participar das assembleias argumentando e contra-argumentando, e respeitando o que foi ali decidido. Na fase de Aprofundamento, o nível de autonomia é maior. Pressupõe-se que ela sabe fazer seu planejamento do dia, e ela começa a produzir seus projetos de maneira mais autônoma, sempre com supervisão de todos os tutores, mas com nível de intervenção cada vez menor”, explica a coordenadora pedagógica Edilene Cristina Morikawa.

Cada criança escolhe o projeto de pesquisa em que quer se aprofundar. Há um, por exemplo, com o tema “Acabar com o lixo do mundo começando pela minha casa, minha rua e minha escola”. Os alunos já estão trabalhando com coleta seletiva, passando vídeos para outros grupos, ensinando a separar o lixo, fazendo entrevistas com vizinhos de suas casas para propor mutirões para limpar a rua e, assim, mobilizar a comunidade. Essa é uma forma de despertar seu interesse para construir conhecimentos que os estimulem de fato – algo que o entusiasmo de crianças como Igor e Lohan comprova rápido.

Lohan se orgulha especialmente de um quadro chamado “Preciso de Ajuda/Posso Ajudar”. Nele, os alunos escrevem o nome e o tema com o qual estão tendo dificuldades, e um colega que o domine se predispõe a auxiliá-los num horário determinado. “Eu sempre tento organizar meus horários para ajudar alguém com os temas de pesquisa”, explica Lohan, mostrando seu nome na lista. “Eu sei como é quando eu fico empacado em algum tema. Você não vai para a frente sem os seus amigos.”

 

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Enquanto mostram à equipe a quadra, um aluno aparece querendo saber o que se passa. Os próprios meninos entram num acordo e o mandam de volta à atividade na qual ele deveria estar: “A gente não pode matar aula aqui e ficar passeando, precisa ser responsável”, comenta Igor.

José Pacheco explica como se chega a esse nível de maturidade: “Nós juntamos desde a primeira hora – e imagina o quadro do meu desespero, porque foi tal a destruição aqui. Nós juntamos no acolhimento a essas crianças, a firmeza e o carinho. Longe de nós a ideia do autoritarismo, da regra imposta, e também longe de nós a permissividade”.

Num primeiro momento, relata, quando tentaram fazer a primeira reunião no espaço do circo, o local foi tomado pelas crianças. “Tu não imaginas o que era a barulheira desses jovens aqui. Eles gritavam, batiam uns nos outros, agarravam, destruíam coisas…”, prossegue o português, contando que o combinado era agir como equipe e, até obter silêncio, levantar a mão – jamais fazer “shiu”. “Demoramos 54 minutos até que houve silêncio. E aí começou a conversa. Quinze dias depois, fizemos a reunião de  pais. Vieram os pais, vieram os filhos, uma zoeira. Um professor levantou o braço, todas as crianças levantaram o braço, os pais levantaram o braço: silêncio. Ninguém falou nenhuma palavra. Começamos o trabalho sem microfone, dá pra entender?” De fato, é sensível a diferença para o visitante: o barulho e a correria são visivelmente menores do que em outras escolas. E são os próprios alunos que advertem: “Aqui, temos de falar baixo para não atrapalhar os outros. Não precisa sair gritando”, explica Lohan.

Adotar esse modelo de escola, é claro, impõe uma profunda alteração no modo de atuar dos educadores. Edilene, por exemplo, passou dez anos ensinando em uma escola brasileira no Japão antes de vir para o Âncora, há quatro anos, e diz que agora encontrou uma alternativa para o que considera um modelo falido. “Lá no Japão, seguíamos o sistema de ensino brasileiro. Mesmo que princípios como autonomia, solidariedade e respeito já estivessem embutidos no meu trabalho, era algo longe de ser o que é hoje, pois ainda funcionava no esquema de série, turma. Sentia uma grande insatisfação por saber que aquilo não era o melhor.” 
Conforme a ideia da escola amadurecia, Edilene conta que sentia uma certa inquietação a respeito de quem seriam os agentes dessa transformação. “Achávamos que teríamos de contratar novas pessoas, que não conseguiríamos trabalhar com a equipe que tínhamos, acostumada com uma certa hierarquia. Mas aí veio o José Pacheco e disse que não, que as pessoas que tínhamos eram as com que iríamos trabalhar. Então, entendemos que essa desconstrução para a reconstrução foi primordial para nós, famílias e crianças, entendermos como seria o projeto”.

Para a educadora, o perfil dos alunos não foi um empecilho para a implantação do projeto. Ao contrário, foi um motivador. “Temos, sim, uma clientela com perfil crítico, mas toda escola pública pelas quais passeis ou que conheço, e mesmo particulares, têm isso. Por sermos uma ONG, temos um certo perfil socioeconômico, crianças que sofreram ou sofrem vários tipos de agressão, também no sentido ético, moral. Alguns são filhos de presidiários, órfãos, moram em locais carentes, em resumo, estão de alguma forma em situação de vulnerabilidade. Mas o problema não diz respeito à classe social, é moral, é algo mais profundo. Queremos, sim, atender todo tipo de aluno, para que a escola seja um retrato da sociedade e para que possamos ampliar esse tipo de mudança que temos posto em prática e visto se realizar nas próprias famílias, que estão hoje deixando para trás a ideia de lousa cheia e ressignificando o que é a escola.”

José Pacheco identifica, por conta disso, um certo paralelismo entre a implantação dessa escola e a da Escola da Ponte – localizada num bairro operário, mais vulnerável. “Os jovens que entraram aqui eram violentados, tinham uma história de vida terrível e hoje estão irreconhecíveis, embora haja aqui e ali alguns que ainda vão aprontar. Então, começamos exatamente com aquilo que ninguém queria”, relata o educador. “A violência a que essas crianças foram sujeitas, e que as faz ser como elas são, não se resolve com castigos, não se resolve com colocar para fora da sala, não se resolve com câmeras de vigilância. Não se resolve com isso. Resolve-se com uma negociação e com exemplo.”

As mudanças no comportamento, resume, se dão pelo fato de que, agora, essas crianças passam a ter voz. “Essa reação dos jovens em outras escolas é uma reação ao poder simbólico, à injustiça, a essa forma de poder terrível que é o poder simbólico, que esmaga a pessoa. Os alunos não têm qualquer espaço de intervenção, de participação, não têm…  Quem decide o que vai ser aprendido, o lugar, o modo, o tempo é o professor. Essa escola não serve.”

O sucesso do empreendimento até agora parece ter conquistado todos os que falam sobre o projeto. Mesmo o diretor, Fernando Furuiti, assume que, a princípio, não entendia totalmente como a mudança se daria: “Hoje, quase dois anos depois do primeiro contato com esse modelo, eu lamento o processo conteudista que existe nas outras escolas, e fico triste por saber que mando meus filhos para uma delas. Como diretor, não posso colocá-los aqui, passando na frente dos outros, mas gostaria muito de que tivessem a chance de viver uma educação como a que oferecemos aqui”

*Publicado originalmente em Carta Fundamental