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apresentação do tiqueque
Performance é feita com sons e objetos curiosos

Duas moças deitam no palco, colocam as pernas sobre um caixote e quatro pés calçados com meias coloridas emergem dos buracos abertos na madeira. Como se fossem marionetes, o “quarteto” canta Nem Tudo, de Arnaldo Antunes: “Nem tudo que se tem se usa, nem tudo que se usa se tem. Não tenho nem um parafuso. Não tenho, não quero e não uso.” O quadro é um exemplo do trabalho do grupo Tiquequê, que usa cantigas tradicionais e músicas já conhecidas do público adulto em performances criativas que fascinam os pequenos.


Cada pé da cena descrita acima é dublado por um dos integrantes da banda. As meninas são as primas Diana e Bel Tatit, cuja carreira começou ainda na infância com participações no grupo Palavra Cantada, do tio, Paulo Tatit, que é claramente uma inspiração. Elas e o músico Angelo Mundy fundaram o conjunto em 2000, quando estudavam juntos no Ensino Médio e perceberam que compartilhavam o interesse pela infância.

Passada uma década, dois deles tornaram-se educadores formados pela Universidade de São Paulo (USP). A formação, porém, não mudou o trabalho intuitivo com brincadeiras musicais. O que aumentou foi o desafio das crianças que tentam imitar as coreografias com percussão corporal e as letras com jogos de palavras.

O quarto elemento do grupo, Wem, formado em música, entrou em 2006, pouco antes do primeiro disco Toc Patoc, cujo lançamento foi impulsionado por financiamento coletivo. O título deste álbum e o nome do grupo derivam de onomatopeias do mesmo batuque, que compunha o show montado com três banquinhos e um cesto de adereços.

“Traduz o que somos, um grupo fazendo experimentos sonoros com o ideal de se comunicar com as crianças pela arte”, diz Angelo. Em 2009, vieram outros elementos cênicos para o espetáculo Canta Outra, em um teatro em São Paulo e, em 2012, a montagem Tu Toca o Quê?, que virou CD e DVD, com músicas de domínio público, trava-línguas, adaptações de outros artistas, interpretações de fábulas e composições próprias.

O cenário continua simples com variações de caixas, que ora são degraus, ora uma casinha, ora banquinhos e mais alguns talheres, caixinhas de CD e imagens refletidas no telão. Os sons são produzidos nos instrumentos de corda e no próprio corpo para percussão. Já as coreografias e as letras musicais são bem elaboradas.

Longe dos movimentos fáceis e repetitivos dos espetáculos infantis mais comerciais, os membros do grupo incluem influências que vão do samba ao tango como no caso da versão ampliada de O Cravo e a Rosa. “Achamos que as crianças têm capacidade de apreciar coisas complexas desde que as atraiam”, afirma Mundy, não apenas como artista, mas como educador.

Paralelamente ao Tiquequê, o músico formado em Letras pela USP chegou a experimentar a sala de aula e pesquisar formas de “educação livre”, à parte da escolarização formal. “Descobri que não tenho vocação para professor, para ensinar, mas para educador, que trabalha junto. O Tiquequê tem muito isso de trocar com as crianças.”

Ele não é o único com formação docente. Diana fez a mesma faculdade e prosseguiu na área acadêmica de educadora. Conta que, quando se inscreveu em Letras foi pelo gosto por literatura e italiano, mas acabou encontrando o que realmente queria fazer durante o estágio. Hoje, divide seu tempo entre o palco e a sala de aula. “Vi que a minha paixão era pelo contato e o desenvolvimento com as crianças. Eu já trabalhava com infância e arte, mas resolvi seguir também pelos caminhos infância e escola”, diz.

A artista acabou atuando em salas do Ensino Fundamental, Médio e Infantil. Fez mestrado em Psicologia na Faculdade de Educação da mesma USP e hoje dá aulas de formação de professores e supervisiona estágios em uma instituição particular. Em teoria, a dissertação não está ligada à prática como música. “Minha pesquisa foi sobre alunos considerados difíceis por questões comportamentais. O assunto é outro, mas foi o Tiquequê que me deu outro jeito de me comunicar com a criança, sem pressupostos educativos. A arte proporciona um caminho alternativo”, diz.

Nas composições é visível a opção por temas descolados do pedagogicamente correto. Uma das músicas trabalhadas, por exemplo, é Prato Fundo de Noel Rosa (“Se como tanto, aprendi com a minha vó. Na minha casa só se come em prato fundo e o dó”). Em uma composição de Diana, a mãe insiste (sem sucesso) que o filho coma verduras e legumes. “Não acho que as crianças vão ou não comer por causa de uma música. Da mesma maneira, quando escolho um livro de literatura não precisa estar pautado por mensagem, não tem de estar em função disso. Tem de ser um bom livro. A arte é livre. Não pode entrar no mérito da minha opinião moralista só porque é para crianças.”

Para ela, a percepção serve também ao cotidiano dos professores. Diana defende que a inclusão de músicas e brincadeiras no currículo não deve ser apenas como conteúdos, mas como perspectivas e estratégias úteis em diversos outros temas. “A arte e o brincar dão outra luz. Você com uma brincadeira coletiva consegue, por exemplo, trabalhar conflitos entre grupos.”

Mundy vai ainda mais longe e diz que muitas das coreografias são inspiradas em brincadeiras observadas. “A criança tem uma capacidade de se reencantar. Ela está conectada com o momento, pronta para o improviso, de uma maneira que nós deveríamos aprender.”