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Cena do longa metragem Hoje eu Quero Voltar Sozinho. Créditos: divulgação

Por Coletivo Janela Aberta – Cinema e Educação


Pensando na Educação para os Direitos Humanos, o cinema é um instrumento poderoso, porque, se bem utilizado, permite que por alguns instantes (minutos ou horas) possamos experimentar a vida de outra pessoa. É bom lembrar que mais importante que a escolha do filme é a mediação realizada.

Um filme, especialmente no âmbito educacional, raramente emociona ou transforma o espectador com a simples exibição. O contexto em que é exibido, os preâmbulos e os debates realizados é que podem garantir uma experiência cultural significativa. E é fundamental que se garanta um bom tempo para os debates, com livre expressão de todas as pessoas envolvidas. De preferência, sem “lição de casa”.

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A experiência do audiovisual pode prescindir de produção de textos, mostrando que a troca de ideias é o mais importante e que não há consenso a ser buscado. A experiência com a Arte é muito subjetiva e não há uma verdade final como conclusão. Para realizar uma boa mediação, os educadores devem se preparar muito bem antes da exibição do filme, assistindo-o mais de uma vez e pensando em algumas provocações que podem ser feitas para que as crianças ou adolescentes se sintam instigados a debater.

As escolas devem buscar exibir filmes que fujam ao modelo hegemônico de cinema (o hollywoodiano), correndo o risco das crianças e adolescentes estranharem a obra. O estranhamento faz parte da produção do conhecimento, que é o objetivo da escola. Os filmes “divertidos” e que os alunos “gostam” podem ser vistos em casa. É claro que também não é preciso torturar ninguém.

Nesse aspecto, os curtas metragens oferecem a vantagem do tempo que cabe na aula e do tempo menor de estranhamento. Os filmes longa metragem exigem mais tempo dentro do horário da aula, mais planejamento e, quase sempre, um bom trabalho de introdução e provocação, para que haja adesão dos espectadores durante todo o filme. As crianças pequenas não costumam aguentar muito um longa metragem, acabam dispersando no meio do filme.

Dicas de curtas metragens que podem ser exibidos e discutidos com crianças pequenas (de 5 a 10 anos), mas que são também muito interessantes para maiores e toda a comunidade escolar (pais, funcionários e familiares):

1. Fim do recreio (Brasil, 2012, 17 min, direção de Vinícius Mazzon e Nélio Spréa)
O filme trata do direito ao lazer e da importância das brincadeiras na infância. Educação política também se faz com crianças, pois o curta fala do direito à cidadania, a partir de um assunto muito forte para elas: o recreio.

Sinopse:
Felipe assiste no telejornal que um senador desenvolveu um projeto de lei para acabar com o recreio nas escolas, como forma de aumentar a produtividade das crianças durante o tempo escolar. Indignado, comenta com seus colegas. Durante uma brincadeira de esconde-esconde, encontra uma câmera da escola e começa a filmar o recreio: as rodas, a corda, os jogos de mão, e tudo o que para ele faz do recreio um momento importantíssimo; assim como os depoimentos dos colegas sobre o projeto de lei. A inspetora descobre a “infração” de Lucas e o leva para a diretora, em cujas mãos a gravação terá um final inesperado…

2. Dona Cristina perdeu a memória (Brasil, 2002, 13 min, direção de Ana Luíza Azevedo)
O filme trata da enriquecedora relação entre uma criança e uma senhora idosa, que está perdendo a memória.

Sinopse:
Antônio, um menino de 8 anos, descobre que sua vizinha Cristina, de 80, conta histórias sempre diferentes sobre a sua vida, os nomes de seus parentes e os santos do dia. E Dona
Cristina acredita que Antônio pode ajudá-la a recuperar a memória perdida.

3. Carnaval dos Deuses (Brasil, 2010, 9 min, direção de Tata Amaral)
O filme mostra uma conversa sobre religião entre crianças de aproximadamente 6 anos, revelando a curiosidade e o respeito que pode haver entre elas pela cultura familiar e religiosa de seus amiguinhos. Exibido em diversos festivais de cinema de direitos humanos, o curta pode fomentar debates sobre a laicidade da escola, diversidade religiosa e intolerância.

Sinopse:
Em uma escola de educação infantil, Ana observa três amigos confeccionarem suas fantasias de Carnaval, mas fica de fora por acreditar que a festa é pecado. Sua não participação provoca no grupo de amigos uma conversa sobre deuses, pecado e crenças.

Dicas de curtas para crianças maiores de 10 anos e adolescentes. Também vale a indicação para exibição para toda a comunidade escolar

4. Crianças Invisíveis (Itália, 2005, 129 min, conjunto de 7 curtas metragens, diversos diretores)
O filme foi patrocinado pelo Unicef para retratar a invisibilidade de algumas crianças no mundo contemporâneo. Em todos os 7 curtas, dirigidos por celebrados cineastas do mundo todo, o tema central é a vida de crianças que vivem dramas e responsabilidades como se fossem adultas.

Os 7 filmes são excelentes, embora alguns sejam mais tristes ou pesados que outros. Embora tenha sido produzido há mais de uma década, continua, infelizmente, atualíssimo. Muitos professores já conhecem esse filme, mas é sempre bom lembrar que muitas crianças ainda não o viram. Os 7 curtas tratam do abandono da infância de forma muito universal. Recomendamos, em especial, o brasileiro.

5. Bilu e João (Brasil, 15 min, dirigido por Kátia Lund)
Bilu e João são duas crianças moradoras de uma favela na zona sul de São Paulo. O filme mostra um dia na vida delas, buscando trocar latas vazias, papelão, placas e pregos retirados do lixo por algum dinheiro. Elas demonstram muita inteligência e solidariedade, aventurando-se pela cidade, sem qualquer relação com escola (embora demonstrem muito conhecimento, por exemplo, de matemática) ou com adultos que cuidem delas. É um dos curtas mais tocantes dessa produção da Unicef, porque embora mostre desigualdades sociais gritantes e o abandono da infância, o filme mostra a força da imaginação das crianças e guarda certa ludicidade.

Os outros curtas de Crianças Invisíveis são: Ciro, de Stefano Veneruso (Itália); Jonathan, de Jordam Scott e Ridley Scott (Inglaterra); Marjan, de Emir Kusturica (Sérvia-Montenegro);
Tanza, de Mehdi Charef (África do Sul); Jesus Criança da América, de Spike Lee (EUA) e Song Song e a Gatinha, de John Woo (China)

6. O dia de Jerusa (BR, 2014, 20 min) de Viviane Ferreira
Mostra a representatividade negra de todo o elenco (protagonistas e coadjuvantes). Fala da importância da memória, da oralidade e da ancestralidade. Permite explorar questões étnico-raciais e dirigir nosso olhar para a mulher negra de antigamente e para a atual.

Sinopse:
Jerusa (Léa Garcia) é uma senhora negra moradora de um bairro do centro de São Paulo. Está retornando a sua casa e no caminho cruza com diversas pessoas. Chega a seu lar e começa a organizar os preparativos para seu aniversário de 77 anos. Até o momento em que tocam a campainha e é Silvia (Débora Marçal), uma jovem negra que está realizando uma rápida pesquisa sobre sabão em pó. Jerusa inicia uma conversa com Silvia e traz à tona memórias resgatando seu passado, sua vida e a de muitos negros. Sílvia que teria apenas 15 minutos para a entrevista, acaba compactuando com as memórias de Jerusa e participando da celebração.

7. O céu no andar de baixo (Brasil, 2010, 15 min) de Leonardo Cata Preta
Um dos aspectos mais interessantes desse curta é a questão do ser diferente, de não se encaixar nos padrões sociais estabelecidos, como é o caso de Francisco e da moça que tentou se suicidar. Percebemos que, apesar de Francisco e a moça serem diferentes, é possível viver, conviver, trabalhar, se apaixonar e a vida seguir seu fluxo usual. Na realidade, as múltiplas possibilidades que temos na vida e o respeito em relação ao outro são temas abordados nessa animação.

Sinopse:
Francisco é um jovem que tem uma cabeça parecida a um pingente, ou vê tudo para cima ou para baixo. No seu aniversário de 12 anos ganhara o presente mais significativo de sua vida: uma máquina fotográfica. A partir desse dia, fotografava quase tudo o que estava a seu redor. Foi morar sozinho aos 22 anos e em um dia em que estava fotografando, tirou uma foto de meias voadoras. Achou isso estranho porque já vira muitas coisas incomuns, mas meias voadoras? Um dia, no elevador do prédio onde mora, entra em uma cadeira de rodas uma moça com aquelas meias da fotografia. Francisco se sente atraído por ela e descobre o número do seu apartamento. Ele não ia às reuniões de confraternização do condomínio, mas acaba indo a uma delas onde comentam que uma moça tentara se jogar do apartamento. Sai dessa reunião e logo depois vai rumo ao pé de manga espada onde é diagnosticado de mal de amor. Monta um plano para encontrar essa moça, mas nem tudo sai como o desejado.

8. 15 Filhos (Brasil, 1996, 18 min) de Maria Oliveira e Marta Nehring
Diante de tantos questionamentos sobre a veracidade ou não das torturas e assassinatos durante os 21 anos de ditadura militar no Brasil, entre os anos 1964 e 1985, é muito importante a exibição deste curta que traz o relato de filhas e filhos de presos políticos, que viram seus pais serem torturados, mortos ou simplesmente desaparecerem. A tortura, a prisão ou morte de pessoas que divergem politicamente do regime vigente é inadmissível. Os jovens precisam conhecer a História do Brasil para não permitirem que essa afronta aos direitos humanos se repita.

Sinopse:
Uma visão das consequências humanas da ditadura militar no país a partir do depoimento dos filhos de desaparecidos ou mortos pelo regime. Além dos relatos, gravados em preto-e-branco, o filme traz imagens em cor da queda do presidente chileno Salvador Allende e das dependências de uma delegacia de polícia em São Paulo onde eram mantidas famílias de presos políticos.

Dicas de Longas Metragens
A primeira indicação, O Menino e o Mundo, é indicado para todas as idades. As seguintes são indicadas a partir de 12 anos, mas sempre convém que o (a) professor (a) avalie se a turma está madura para a assistência e discussão do filme. Todos os filmes indicados estão disponíveis em DVD.

9. O Menino e o Mundo (Brasil, 2014, 88 min), de Alê Abreu
Esta premiadíssima animação é indicada para todas as idades, desde crianças bem pequenas até adultos. É claro que o entendimento da obra vai depender do universo de cada espectador, não apenas de sua idade, mas também de sua trajetória e percepção do mundo. Muitos adultos, por captarem a complexidade da obra, acham que não seria indicada para crianças, mas há relatos de inúmeras experiências desse filme com crianças de todas as idades. Elas interagem bastante com a animação de muitos jeitos diferentes.

A questão dos Direitos Humanos é central no filme, que aborda os direitos da infância, questões ambientais, da exploração do trabalho do campo e da cidade, da qualidade de vida, entre outras.

Sinopse:
Um menino vê seu pai partir, em busca de uma vida melhor para sua família. Sofrendo com sua ausência, ele deixa seu mundo colorido e infantil e descobre um mundo complexo, dominado por máquinas e seres estranhos. Nesta inusitada animação, o mundo moderno é mostrado, com todos os seus conflitos e desigualdades, pelo olhar de uma criança.

10. Campo Grande (Brasil, 2015, 108 min) de Sandra Kogut
O filme trata da distância entre pessoas que vivem na mesma cidade, separadas geograficamente por serem de classes sociais distintas. Todas as pessoas têm direito à cidade e a uma vida digna.

Sinopse:
Duas crianças são deixadas misteriosamente na frente de um prédio de um bairro rico do Rio de Janeiro, com o nome e o número do apartamento de uma das moradoras: Dona Regina. Ela não sabe quem são essas crianças e nem porquê foram deixadas ali. A única coisa que elas sabem responder é que elas moram em Campo Grande, região periférica da cidade, onde Dona Regina nunca foi e nem tem intenção de ir. A “casa grande” e a “senzala” se encontram nesse microcosmo.

11. Uma História de Amor e Fúria (Brasil, 2013, 80 min), de Luiz Bolognesi
Trata-se de uma animação longa metragem em quatro episódios, que podem ser usados individualmente. Aborda a violência contra a população indígena, negra, aos oponentes da ditadura militar e, como prospecção, o problema ambiental, especificamente, a falta de água potável.

Sinopse:
A história trata do amor entre um herói imortal e Janaína, a mulher por quem é apaixonado há 600 anos. O herói assume vários personagens, mas seu espírito de luta permanece o mesmo, especialmente porque seu amor o alimenta. O filme conta quatro episódios de momentos diferentes da História do Brasil, a partir do ponto de vista dos vencidos: a guerra entre Tupiniquins e Tupinambás, no início da colonização portuguesa, em 1565; a revolta ocorrida no Maranhão, conhecida como Balaiada, em 1825 e a guerrilha urbana, no período da ditadura militar, em 1968.

O quarto episódio é uma projeção do futuro, em 2096. Com base na mitologia indígena, o herói foi escolhido para ser imortal e lutar eternamente contra Anhangá – o signo da morte e da destruição. Janaína morre e renasce em cada episódio. O filme mostra a violência que se tornou intrínseca na sociedade brasileira, mas também o amor que mantém acesa a chama da luta política e o desejo de transformação.

12. Hoje eu quero voltar sozinho (Brasil, 2014, 96 min), de Daniel Ribeiro
O filme traz o debate sobre homofobia e os direitos, garantidos em nossa Constituição, de liberdade de orientação sexual; e também a exclusão de pessoas portadoras de deficiências; O curta metragem “Eu não quero voltar sozinho”, do mesmo diretor e com o mesmo elenco, também é uma boa opção para se trabalhar os temas indicados na escola.

Sinopse:
Leonardo é um adolescente cego que, como qualquer pessoa da sua idade, está em busca do seu lugar. Desejando ser mais independente, precisa lidar com suas limitações e a superproteção de sua mãe. Para decepção de sua melhor amiga, Giovana, ele cogita fazer um intercâmbio, como símbolo de conquista pela autonomia. Mas tudo muda na vida deles com a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, que desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo. O primeiro amor e o início da sexualidade são tratados com muita delicadeza neste filme, que é uma ótima opção para o debate sobre o respeito às diferenças e a luta contra a homofobia.

13. Era o Hotel Cambridge (Brasil, 2016, 99 min) de Eliane Caffé
O filme discute o direito à moradia e a uma vida digna, além de trazer o drama de refugiados de várias nacionalidades vivendo em São Paulo.

Sinopse:
O filme une as linguagens documental e ficcional para retratar o dia a dia de um grupo de sem-tetos e refugiados estrangeiros que ocupam o prédio do antigo Hotel Cambridge, que pertence à Prefeitura de São Paulo e está sem uso desde 2011. Ao retratar o cotidiano, as agruras, as alegrias, a força e os medos desse grupo de pessoas, o filme traz à tona muitas questões prementes no Brasil de hoje, tais como direito à moradia, a organização e ocupação dos espaços urbanos, os interesses público e coletivo, a luta por melhores condições de vida, o nosso fosso socioeconômico e os preconceitos da sociedade brasileira.

Artigo produzido pelos cine-educadores Marcos Eça, João Moris e Cláudia Mogadouro do coletivo Janela Aberta – Cinema e Educação