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O primeiro dia na creche ou na pré-escola costuma proporcionar uma cena clássica: enquanto os pais ou responsáveis seguram as lágrimas, educadores tentam conquistar a confiança das crianças. A partir daí, cada um segue para o seu lado, e um portão marca a divisão entre família e escola. Essa separação é comum, mas o envolvimento entre ambos os lados é fundamental para garantir o desenvolvimento pleno das crianças na educação infantil.


Diversas pesquisas já demonstraram que as experiências vivenciadas nos primeiros anos de vida têm um impacto significativo na formação das crianças. Nesse contexto, a educação em casa e na escola assumem papéis complementares, que também implicam compartilhar responsabilidades. “Quando a relação escola e família acontece, ganhamos grandes avanços na aprendizagem e convivência de crianças e jovens, que também passam a valorizar mais a escola e seus aprendizados”, aponta Beatriz Ferraz, gerente de Educação Infantil da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

Uma relação de confiança entre a família e a escola, conforme menciona Beatriz, contribui para que a criança tenha mais segurança ao explorar o mundo e descobrir a sua própria identidade. De acordo com ela, quando os pais confiam na escola e participam da educação dos filhos, eles valorizam a suas descobertas e podem dar continuidade às experiências realizadas pelas crianças no período escolar. Da mesma forma, a escola também contribui para potencializar a relação familiar e envolver aprendizagens próximas ao seu contexto.

“É preciso que escola crie espaços para a troca com a família, tanto no dia a dia, como em momentos específicos como nas entrevistas iniciais, reuniões e eventos. Nessa parceria há informações importantes que a família precisa contar às professoras, entre elas aquelas que são relevantes para o dia da criança na escola. O mesmo vale para a escola, já que há fatos relevantes que precisam ser compartilhados com a família no final de um dia na instituição”, exemplifica.

Embora não seja possível definir uma fórmula para aproximar famílias e escolas, algumas experiências nacionais e internacionais podem apontar alguns caminhos. Esse é o caso do programa internacional FAST (Famílias e Escolas Juntas, em livre tradução), que mesmo não sendo voltado apenas para a educação infantil, apresenta bons resultados neste ciclo.

Criado em 1988 pela norte-americana Lynn McDonald, psicóloga e assistente social, o programa funciona como uma estratégia de intervenção precoce, que busca empoderar os pais, construir conexões entre o ambiente escolar e familiar e criar uma comunidade envolvida na promoção do desenvolvimento e bem-estar das crianças. A partir de evidências da neurociência, estudos e princípios modernos da terapia familiar, o FAST trabalha com uma metodologia que convida a família para passar momentos divertidos na escola.

Foto: Marina Lopes / Porvir
Foto: Marina Lopes / Porvir

Em oito encontros com duração de 2 horas e 30 minutos, as famílias vão para a escola para participarem de atividades junto com as crianças. Ao invés de transmitirem ensinamentos sobre como educar ou acompanhar a rotina escolar dos filhos, as dinâmicas são direcionadas para fortalecer os vínculos entre a própria família, incluindo músicas, desenhos, charadas, brincadeiras e até uma refeição preparada por uma das famílias participantes.

Conhecido por ter resultados comprovados em países como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, o FAST começou a ser implementado no Brasil em 2014, por meio de um projeto piloto da rede municipal de educação de Tremembé, no interior de São Paulo. A ideia surgiu quando a psicóloga e professora universitária Cristiana Mercadante Esper Berthoud assumiu a secretaria municipal de educação em 2013.

Após já ter participado de uma certificação internacional do programa e visitado escolas participantes do Reino Unido, ela decidiu trazer a metodologia para o país. “A escola brasileira nunca abraçou a família. A família está acostumada a ir na escola apenas para reclamar de alguma coisa ou ouvir reclamações”, avalia a secretaria, que enxergou no programa uma maneira de reduzir esse distanciamento. De acordo com ela, o grande diferencial do programa é não convidar os pais para falar de escolaridade do filho, mas chamar a família para viver em comunidade dentro da escola. “O objetivo do FAST é fortalecer internamente a família e o grupo das famílias para que elas interajam e discutam juntas os problemas da sua comunidade”, explica Cristiana.

Para dar início ao processo de implementação no país, além da tradução dos materiais e adaptação para a realidade local, os professores Tumaki Aruanã Cassiano e Fernanda Moraes participaram da certificação internacional do FAST na cidade de Madison, nos Estados Unidos. Junto com a secretária, hoje eles fazem o treinamento das equipes de apoio do programa.

“Nesse treinamento, a equipe vai entender a ação científica por trás de cada atividade do FAST”, explica Tumaki. Ao invés de formar apenas professores ou coordenadores para acompanharem o programa, ele conta que a equipe FAST deve ser representativa, composta por famílias de alunos, pessoas da escola e parceiros da comunidade.

Mãe de quatro meninos, Eliana Andreia Ribeiro foi uma das convidadas para participar da equipe FAST da Escola Municipal de Educação Infantil Anna Monteiro Pereira. “Foi um desenvolvimento para mim como mãe e como parceira da escola. A gente mora no bairro, mas conhece as pessoas só de vista. No FAST nós conversamos com as famílias”, conta ela, que já teve a oportunidade de participar de encontros do programa como mãe e, agora, como voluntária.

Nos encontros do FAST na escola Anna Monteiro Pereira, Eliana e outros voluntários auxiliam as famílias durante as atividades. Com uma espécie de orientação individualizada, os comandos são passados em voz baixa para os integrantes da família, sem que as crianças percebam. A ideia é que elas tenham a sensação que os pais estão conduzindo as atividades na sua mesa.

Ao acompanhar uma sessão do FAST na escola, em uma mesa no fundo da sala estava a cabeleireira Marlene Nunes de Jesus e suas duas netas, Maria Luiza Coutinho de Jesus, 4, e Maria Eduarda Coutinho de Jesus, 6. Como os pais das meninas tinham dificuldade de comparecer devido aos horários de trabalho, a avó foi representar a família no encontro. “Para mim, está sendo muito interessante. São momentos que somos obrigados a sentar, sair da rotina e dar mais atenção para as crianças” conta ela, que diz compartilhar tudo com o filho e a nora.

Das atividades desenvolvidas nos encontros, Maria Eduarda diz que a da charada é a sua favorita. Nesta dinâmica, cada membro da família escolhe um carta e precisa fazer uma espécie de mímica para que os outros integrantes possam adivinhar qual é o sentimento. Já a sua irmã, Maria Luiza, não tem dúvidas ao contar que a brincadeira especial é a sua favorita. Durante 15 minutos, a criança recebe uma caixa com materiais recicláveis e deve conduzir um integrante da família na sua brincadeira. A ideia é que os pais ou responsáveis possam entender a importância de ter um tempo de qualidade e atenção direcionada para a criança.

Em outra escola, no Centro Educacional Antônio de Mattos Barros, a mãe Maria Aparecida Silva Santos também participa do FAST com a sua filha de cinco anos. Ela conta que a brincadeira especial também é a preferida da menina e diz que também aprendeu durante esse período. “Ela me ensinou na brincadeira especial que eu falo muito gritando, enquanto ela sempre conduzia a brincadeira no mesmo tom de voz” conta.

Foto: Divulgação /Odemir Furlan
Foto: Divulgação /Odemir Furlan

Ao término do oitavo encontro do FAST, todas as famílias que concluem o programa participam de uma espécie de formatura. Desde a implementação, já foram 225 famílias graduadas em 15 escolas de educação infantil e ensino fundamental. Além deste programa, as escolas municipais de Tremembé também aderiram ao projeto Comunidade de Aprendizagem, implementado no país com o apoio do Instituto Natura. A inciativa, citada pelo Porvir na última matéria da série sobre engajamento familiar na educação, está baseada em um conjunto de ações que ajudam a integrar a escola ao seu entorno.

A quase 190 km dali, em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, o Comunidade de Aprendizagem também foi implementado em escolas de educação infantil há dois anos. “Era uma demanda que as unidades traziam, mas a gente queria que as escolas aderissem ao programa. Não era nada obrigatório”, conta a consultora educacional Cleuza Repulho, que na época era secretaria municipal de educação. “Entender que a família é parte fundamental no processo de construção do conhecimento era o grande desafio”, lembra.

Na Escola Municipal de Educação Básica Odemir Furlan, o convite para transformar o espaço escolar em uma comunidade de aprendizagem foi aceito como uma tentativa de aproximar mais os pais da escola.“Há anos a gente vem trabalhando na questão da participação familiar, seja em reuniões com pais, reuniões pedagógicas ou nas atividades que a gente faz durante o ano. Mas a gente sempre percebia que em alguns anos tínhamos uma participação maior das famílias, mas depois ela diminuía. A gente sentia falta de um trabalho conjunto”, conta a diretora Sueli Bento Rocha. “Quando decidimos participar, a gente pensou: estamos reclamando enquanto escola que os pais não participam. Agora temos uma oportunidade para envolver a comunidade”, complementa a coordenadora pedagógica Elenice Stocco.

Em uma reunião, as famílias e a equipe escolar colocaram no papel os sonhos para a escola, que passavam por questões estruturais e pedagógicas. Para dar conta dessas mudanças, a Odemir Furlan escolheu começar a trabalhar com duas “Atuações Educativas de Êxito”, as Tertúlias Literárias e os Grupos Interativos.

Nas Tertúlias, as crianças levam trechos de histórias para casa para fazer a leitura com a ajuda da família. Depois elas participam de discussões sobre os livros em sala de aula. Já no Grupos Interativos, os pais são chamados para acompanhar atividades dentro da sala de aula e auxiliarem o professor em desafios com as crianças.

Após ganhar um convite para acompanhar um grupo interativo, a berçarista Fabiana Bispo dos Santos passou quase 1 hora e meia na sala da filha, que está na pré-escola. “Eu achei bem legal porque eles aprendem brincando. Eles já reconhecem alguns números e letras” conta a mãe, que disse ter compreendido um pouco melhor o trabalho desenvolvido pelo professor em sala de aula. “Foi legal ver o que meu bebê está fazendo, ficar mais próxima e observar como é o jeito dela na turma.”

O convite nominal recebido pela mãe Fabiana foi uma das estratégias que a escola adotou para contar com uma presença maior dos pais. “Quando escolhemos as datas, sempre mandamos um convite com um modelinho bacana e atrativo para os pais. Convidamos aqueles que nós sabemos que conseguem ter uma disponibilidade maior de tempo. Nós sabemos que alguns trabalham, sempre tentamos entender o lado deles também”, explica o professor Rafael de Souza Lima Silva.

Segundo o professor, o envolvimento da família faz toda a diferença nesse período. Por mais que os pais não saibam ajudar nos conteúdos, ele conta que o simples fato de apoiarem as crianças e darem atenção para elas já faz toda a diferença. “O simples fato de demonstrar interesse no que a criança faz já é um grande avanço e contribui muito para o aprendizado”, afirma.