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Professores da rede municipal de Canaã dos Carajás ganham formação para trabalhar na EJA

Quando a cabeleireira Sergiane Cardoso da Costa voltou a frequentar as salas de aula como aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA) aprendeu algo tão importante quanto os conhecimentos de Matemática, Língua Portuguesa, Ciências e outras disciplinas.


Acostumada a trabalhar de casa atendendo vizinhas e amigas, a moradora do município de Canaã dos Carajás, no interior do Pará, percebeu que tinha capacidade para montar seu próprio salão. “No Curso básico de atendimento ao cliente e atitude empreendedora eu pude ver que não é impossível administrar um salão como eu pensava. Estou colocando em prática alguns dos ensinamentos do curso e em breve espero ter um instituto de beleza com muitas clientes”, conta.

A história de Sergiane mostra como um currículo integrado à qualificação profissional na EJA pode agregar sentido e transformar a vida dos alunos da modalidade, incentivando-os a voltar e permanecer na escola. Segundo o Censo 2010, 65 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não haviam concluído o Ensino Fundamental e 22 milhões com 18 anos ou mais haviam abandonado o Ensino Médio. Deste montante, no entanto, apenas 3 milhões estavam matriculados na EJA.

Baixo investimento por parte de estados e municípios, ausência de flexibilidade de horários, falta de material e professores especializados, além do engessamento do modelo escolar que pouco dialoga com a realidade dos alunos, são alguns dos fatores que ajudam a explicar a falta de atratividade da modalidade. Desde 2007, o número de alunos inscritos na EJA caiu 37,7% no Brasil.

Além de todo esse cenário, a modalidade ainda conta com um alto índice de evasão. “Esse jovem ou adulto retorna para uma escola que não está preparada para recebê-lo e evade porque sente sua falta de conhecimento formal exposta. É preciso ter estratégias para mostrar para essas pessoas que, embora não tenham concluído a Educação Básica na idade adequada, elas retornam para a escola com outros saberes que devem ser valorizados”, explica AndreiaPrestes, especialista de Educação da Fundação Vale.

Uma cozinheira, por exemplo, pode não se dar conta, mas todos os dias emprega em seu cotidiano conhecimentos de Química, assim como uma costureira ou um pedreiro empregam Matemática. “Cabe ao professor valorizar esse conhecimento e mostrar essa percepção”.

Atualmente, a Fundação Vale mantém dois projetos voltados para a EJA com o intuito de apoiar as secretarias de Educação na estruturação de um curso de qualidade e, assim, ampliar o número de matrículas e reduzir a evasão escolar na modalidade.

O primeiro deles é a EJA com qualificação profissional, ofertado nos municípios de Canaã dos Carajás (PA) e São Luís (MA), em parcerias com as secretarias de Educação dessas cidades e com as empresas Grupo Hidrau Torque e Hewlett Packard Enterprise (HPE). O outro é a Roda de Conversa da EJA, de promoção da leitura, ofertado em Canaã dos Carajás, São Luís e Açailândia (MA) junto às secretarias.

“Muitos alunos já estão inseridos no mercado de trabalho e têm seu próprio negócio. Então quando o EJA trabalha o empreendedorismo, a organização do orçamento, entre outros pontos, é muito interessante o retorno que esses estudantes têm, pois é uma educação que apoia seu desenvolvimento profissional”, conta Andreia.

Além disso, a integração do currículo formal à qualificação profissional traz para dentro da escola temas que são do interesse dos alunos – um diferencial que reduz a evasão escolar e oferta novas possibilidades de trabalho. “Os projetos de atendimento ao cliente e de atitude empreendeda são de suma importância, pois proporcionam a nós, alunos da EJA, ter nossas próprias ideias e investir em nosso próprio negócio, pois sabemos que nem sempre estaremos trabalhando em uma empresa”, conta Demirene Pereira da Silva, aluna do Projeto de EJA com qualificação profissional de Canaã dos Carajás.

Outros eixos importantes desenvolvidos no projeto EJA com qualificação profissional são a mobilização social e a formação de professores. “Para a EJA ter êxito, é preciso haver uma mobilização na cidade para que esse aluno frequente a escola. O empregador precisa entender que seu funcionário tem que sair na hora certa, o marido tem que ser um incentivador da esposa e vice-versa”, conta Andreia. “Por isso, em 2017, vamos lançar o selo Amigos da EJA para instituições, empresas e pessoas que de alguma forma apoiam a modalidade”.

Na formação de professores, um trabalhado de capacitação é realizado de forma a abarcar as especificidades de dar aula para a modalidade, mostrando, por exemplo, que esse aluno não pode ser infantilizado e que seus saberes precisam ser valorizados.

No projeto de promoção de leitura Roda de Conversa da EJA, por sua vez, um pequeno acervo de livros é entregue por sala de aula e os professores recebem uma formação para lidar com a especificidade da leitura na EJA. “É bem interessante porque são alunos chamados de neoleitores, isto é, que se alfabetizaram tardiamente e que, muitas vezes, não têm acesso a livros literários na escola porque a biblioteca fica fechada durante a noite”, conta Andreia.

Nesse sentido, o projeto traz uma abordagem de aproximação entre os alunos e os livros, desmistificação alguns conceitos que estes estudantes possuem engendrados como a associação entre leitura e castigo. “Sabemos que para alguns alunos ler em voz alta pode ser constrangedor. Então a ideia é que o professor vá contando as histórias dessas obras até que os alunos comecem a pegar esse livro e leva-lo para casa”, explica Andreia.

Na opinião de Maika dos Santos Pereira, professora de Língua Portuguesa na Escola Municipal Benedita Torres, em Canaã dos Carajás, o projeto enriqueceu muito o cotidiano escolar, pois os livros trazem um linguajar diferenciado, “Não é uma coisa infantil, mas voltada para o mundo real, para a idade que eles estão. Eles se identificaram com as histórias, com o linguajar, com as palavras”, conta.

Para Marisa Marcondes, coordenadora pedagógica da Secretaria de Educação de Açailândia (MA), o projeto de leitura ampliou o olhar de gestores e professores para a importância da leitura de forma interativa e lúdica, propiciando aprendizagens em todas as situações e em todos os componentes curriculares. “Essa é uma proposta extraordinária que não pode morrer porque ler é viajar em mundos desconhecidos e os nossos estudantes estão aprendendo sobre isso.”