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Meninas brincam de boneca, meninos com carrinhos. Elas usam rosa, eles azul. Você já parou para pensar quem estipulou essas regras e de onde elas vêm? Na verdade, esse lugar determinado do que é ser menina e do que é ser menino não é algo natural, mas fruto de uma construção social que acaba por limitar o desenvolvimento de crianças e adolescentes.


Meninos e meninas têm de lidar desde muito cedo com as expectativas que se depositam sobre cada experiência. Eles, provavelmente, serão cobrados para serem valentes e fortes. “Meninos não choram”, dizem. Elas, por sua vez, terão de ser delicadas e se comportarem como tal: “Senta direito, isso não é jeito de menina”.

Essa norma não é prejudicial apenas na infância e na adolescência, mas também na vida adulta. A conformação do lugar de homem e do lugar de mulher sofre ainda o peso do patriarcado histórico, que reconhece as figuras masculinas como dominantes. Isso explica o fato de mulheres terem salários mais baixos do que os homens e ainda enfrentarem dificuldades para chegar a cargos de liderança.

Por isso, a importância de se discutir gênero numa perspectiva de igualdade. É importante que crianças e adolescentes tenham acesso a outros discursos que não os dominantes, a outros repertórios e possam construir suas identidades com base na diversidade e no respeito ao próximo. Para apoiar o debate, confira uma lista de livros infanto-juvenis que pautam as questões de gênero.

1. Coisa de menina (Companhia das Letrinhas)
É na infância que as crianças acabam sendo condicionadas à ideia de que existem “coisas para meninas” e “coisas para meninos”. A autora e ilustradora Pri Ferrari quer justamente romper com essa lógica com a obra “Coisa de Menina”, lançada pela Companhia das Letrinhas. O livro incentiva que as crianças tenham liberdade na hora de escolher os seus brinquedos e não restrinjam suas escolhas aos determinismos que apontam, por exemplo, que meninas brincam de boneca e meninos de carrinho.

2. 50 Brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer (Galera Record)

Você sabia que a primeira mulher eleita deputada federal do Brasil, em 1934, se chamava Carlota Pereira de Queiroz? Ou ainda que a primeira pessoa no Brasil a ter uma licença de paraquedista foi uma mulher? Ada Rogato conseguiu o título em 1950 e também foi a primeira a pilotar um planador e a tirar o brevê de pilota. Essas e outras 48 histórias são narradas no livro 50 Brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer, de autoria da jornalista e cientista política Débora Thomé. A obra procura romper com a ideia dos heróis masculinos e conta a história real de heroínas que ajudaram a mudar o campo das artes, política, ciências e da sociedade. O livro reúne nomes como Cora Coralina, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Chica da Silva, Princesa Isabel, Clementina de Jesus, Nise da Silveira, Pagu, Lygia Clark e Maria da Penha.

3. Histórias de ninar para garotas rebeldes (V&R)
Lançado no Brasil em fevereiro de 2017, a obra aposta em uma narrativa “antiprincesas” e traz histórias que começam com “era uma vez” e terminam ressaltando a grande mulher que cada uma das personagens se tornou. São ao menos cem histórias, em forma de fábula, de mulheres que marcaram a história, como Frida Kahlo, Nina Simone, Cora Coralina e outros nomes de representatividade como Evita Peron, Michelle Obama e Hillary Clinton. A obra foi escrita pelas italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo e conta com a contribuição de 60 mulheres artistas do mundo todo nas ilustrações.

4. Do jeito que a gente é (Ática)
O livro da autora Márcia Leite cruza a história de dois adolescentes. Beá é uma menina de 14 anos que não lida bem com a sua aparência, por se achar muito magra e alta. Além disso, vive uma crise com a mãe que quer torná-la mais vaidosa. Chico, por sua vez, tem 17 anos e passa por um momento delicado: o melhor amigo reagiu mal quando ele disse ser gay. A vida dos dois adolescentes se cruzam quando seus pais resolvem se casar.

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5. Tal pai, tal filho? (Scipione)
O livro, da autora Georgina Martins, narra a história de um garoto que sonha em ser bailarino. A questão é que, pra buscar o seu desejo, ele terá que enfrentar o preconceito do próprio pai. Muito severo, o homem vive a contar ao menino histórias de homens valentes, “cabras-machos”, caracterizando o seu entendimento sobre a masculinidade dominante.

6. A história de Júlia e sua sombra de menino (Scipione)
De tanto ouvir seus pais dizerem que tinha jeito de menino e que se comportava como tal, Julia um dia percebe que sua sombra se transformara, ficando com o formato de um menino. Sem entender o porquê dos julgamentos, Julia passa a ser uma garota triste, que não se reconhece em si mesma e busca entender o que precisa mudar para ser aceita por todos. A obra, do autor Christian Bruel, traz uma reflexão sobre a importância do respeito e da valorização das identidades.

7. Amor entre meninas (Panda Books)
Direcionada para a educação sexual de adolescentes, a obra da autora Shirley Souza aborda o amor entre iguais, a possibilidade de experimentação e autoconhecimento e também os conflitos relacionados às descobertas e desejos comuns à adolescência.

8. Meu crespo é de rainha (Boitempo Editorial)
Publicado originalmente em 1999 em forma de poema rimado e ilustrado, esta delicada obra apresenta às meninas brasileiras diferentes penteados e cortes de cabelo de forma positiva, alegre e elogiosa. Um livro para ser lido em voz alta, indicado para crianças a partir de três anos de idade – e também mães, irmãs, tias e avós – se orgulharem de quem são e de seu cabelo “macio como algodão” e “gostoso de brincar”.

Hoje em dia, é sabido que incontáveis mulheres, incluindo meninas muito novas, sofrem tentando se encaixar em padrões inalcançáveis de beleza, de problemas que podem incluir desde questões de insegurança e baixa autoestima até distúrbios mais sérios, como anorexia, depressão e mesmo tentativas de mutilação ou suicídio. Para as garotas negras, o peso pode ser ainda maior pela falta de representatividade na mídia e na cultura popular e pelo excesso de referências eurocêntricas, de pele clara e cabelos lisos. Nesse sentido, Meu crespo é de rainha é um livro que enaltece a beleza dos fenótipos negros, exaltando penteados e texturas afro, serve de referência à garota que se vê ali representada e admirada.