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A contextualização das manifestações artísticas é essencial para um ensino mais qualificado

Figuras magérrimas que trazem o sofrimento da miséria estampado em suas expressões. Os Retirantes, tela de 1944 do pintor Cândido Portinari é uma das obras mais emblemáticas do movimento modernista brasileiro. Traz não só influências de movimentos vanguardistas europeus como o cubismo como também faz referência aos muralistas expressionistas mexicanos. Seus atributos, porém, vão muito além da questão plástica: o quadro é um retrato da condição de milhares de brasileiros relegados à pobreza extrema, fome e opressão, que se veem forçados a deixar suas terras.


Não é raro, portanto, ser utilizado por tantos livros didáticos para ilustrar o tema das migrações no País. É a arte sendo utilizada para expressar, compreender e refletir o mundo, um dos muitos aspectos abarcados pelo que se chama hoje de arte-educação.

No âmbito escolar, a disciplina foi instaurada com o intuito de oferecer aos alunos subsídios para que assimilem, na interação com as manifestações culturais, suas expressões e significados, permitindo assim uma inserção social mais ampla. Apesar de sua reconhecida importância, a disciplina amarga há tempos a condição de patinho feio da grade curricular e teve sua obrigatoriedade quase extinta após a reforma do Ensino Médio. O motivo? A ideia equivocada de que a arte serve apenas para a fruição estética do indivíduo – noção que os especialistas da área tentam alargar.

“A arte não é algo isolado do mundo, feito apenas para a contemplação. Pelo contrário, ela integra todas as áreas do conhecimento e está intrinsecamente ligada ao que acontece em determinada época. As manifestações artísticas, por meio de uma outra linguagem, leem e devolvem para o público aquilo que está acontecendo na sociedade”, explica Renata Sant’anna, educadora do MAC-USP e autora de livros de arte para professores.

Ruth Guedes, coordenadora do Programa de Arte-Educação do Museu Vale, concorda. “Mais que o desenvolvimento da expressão, apreciação, decodificação e avaliação das obras de arte, por meio da arte-educação aprendemos sobre períodos e movimentos históricos que nos fazem crescer individual e coletivamente. Através da educação, da arte, nos tornamos capazes de avaliarmos de forma mais flexível os diversos padrões do que não conhecemos”.

Neste sentido, a arte-educação ganha também a função de realizar a mediação entre a arte e o público, levando-o para dentro dos museus e espaços culturais – tarefa que no Brasil permanece um desafio. Um levantamento de 2014 realizado pelo Sesc em parceria com a Fundação Perseu Abramo sobre os hábitos culturais dos brasileiros mostrou que 71% dos entrevistados nunca haviam ido a uma exposição de arte sediada em um museu.

Os dados preocupam e mostram a importância de uma educação que valorize o tema. “Os espaços culturais são de extrema importância para acessibilidade do trabalho artístico. Os museus são lugares onde aprendemos sobre nossa história, nossa cultura, e isso pertence a todos. Devemos trabalhar para que todos se sintam acolhidos como parte dos museus e que este não seja um lugar destinado a uma elite intelectual ou classe econômica privilegiada”, aponta Ruth.

Para Renata, uma estratégia fundamental para reverter esse quadro é aproximar as escolas dessas instituições. “Mais do que trazer as crianças para as visitas, é essencial criar uma aproximação com o corpo docente. O professor, muitas vezes, quer favorecer esse contato do aluno com a arte, mas não sabe como porque ele próprio não o teve. Então, hoje, algo que muitas instituições culturais fazem é oferecer uma formação docente ou criar um material que apoia as atividades em sala de aula”.

Foi justamente essa a estratégia adotada pelo Museu Vale, localizado em Vila Velha (ES). Além de encontros frequentes com professores da rede pública, a instituição passou a organizar oficinas que ensinam aos jovens técnicas artísticas e os convidam a fazerem suas próprias obras de arte. O projeto começou em 2005, após uma reforma, quando foi construída uma sala de arte-educação para os encontros que acontecem a cada mostra temporária de arte contemporânea.

Inicialmente, os professores das escolas das redes públicas da região são convidados para um primeiro encontro a fim de vivenciarem uma experiência dentro da exposição e uma atividade com o artista ou arte-educadores. Após essa ação, os mesmos retornam com suas turmas em horários e dias previamente agendados. Na visita, os alunos passam por um processo de imersão, percorrendo a exposição e instigados pelos mediadores no desenvolvimento pessoal do entendimento das obras de arte. Depois disso, vão para um espaço preparado para as atividades e trabalham o tema da exposição com materiais didáticos específicos e de acordo com cada faixa etária.

Além das atividades mão na massa, os workshops apresentam também novas abordagens educativas com temas pertinentes ao universo das obras expostas. “Esses conceitos se apresentam de forma dinâmica, envolvendo teoria, inovação e prática a fim de deixar os participantes – professores, alunos, estagiários e monitores – bastante à vontade para uma interação enriquecedora”, conta Ruth. O resultado do que produzido nos encontros é apresentado no formato de uma exposição na Sala Multimeios.

Essa contextualização das manifestações artísticas é essencial para um ensino mais qualificado, defende Renata. “Nas escolas, admira-se Picasso, Miró, mas a conjuntura do que era ser artista naquele momento é deixada, muitas vezes, de lado. As aulas não podem ficar só no fazer prático, em dar argila e massinha para os alunos, pois esse fazer requer uma reflexão sobre o lugar, o momento, as relações sociais, políticas. E isso precisa ser levado para as escolas”, finaliza.