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Professores trilham percurso formativo de 12 horas. Créditos: Arquivo CCVM - Clarissa Vieira

Máscaras, estatuetas, bancos, apoios de nuca…centenas de objetos e a garantia de um passeio pela obra africana. A proposta da exposição “Africana, o diálogo das formas”, em cartaz no Centro Cultural Vale Maranhão, localizado no centro histórico de São Luis, até o dia 15 de dezembro, no entanto, não se encerra aí.


“É uma experiência peculiar”, conta a curadora Juliana Bevilacqua, mestre em História e pesquisadora de História da África e arte africana. “É uma forma de apresentar as referências das quais bebem a nossa cultura local. Os visitantes batem o olho nas peças – cedidas por um colecionador de Recife – e fazem a relação com a arte maranhense”, explica.

Os quase 200 objetos são apresentados em três núcleos: máscaras, estatuetas e aqueles que transitam entre o uso cotidiano e o cerimonial.

“A mostra é fundamental para descolonizar o olhar, indo além da ideia de que a arte de verdade está na Europa. A partir de competências técnica e estética reconhece o que por muitos séculos foi negado aos africanos”, afirma a especialista.

A construção do significado acerca da exposição é orientada por processos formativos, direcionados aos educadores do centro que recebem os visitantes – por dia, pelo menos 400 estudantes circulam pelo local – e aos professores das redes municipal e estadual, como uma forma de propiciar que o tema seja abordado posteriormente em sala de aula.

Material educativo orienta a como desdobrar o tema em sala de aula

Os docentes trilham um processo formativo de 12 horas, divididas em quatro dias. Ao término, eles recebem um catálogo de todas as peças expostas, com informações sobre cada uma, e uma prancha com orientações pedagógicas de como desdobrar os temas com seus estudantes.

O professor Kleybson Câmara, que atua na rede particular e pública reconhece a importância da formação. “Temos uma ideia muito vaga da arte africana, esse olhar, de maneira geral, é muito recente, a escravidão ainda pauta o conhecimento que temos sobre a África. O curso vai propiciar que eu aborde o tema com meus estudantes e que faça as relações com as manifestações maranhenses, não só na cultura, mas com as religiões de matriz africana”, afirma.

O trabalho acerca da exposição faz parte de um esforço do centro de se alinhar à Lei 10.369, que prevê a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” nos currículos das redes de ensino. “Uma das dificuldades em seu cumprimento é justamente o acesso a materiais e conteúdos qualificados, que tragam outra perspectiva sobre o continente africano”, reconhece a diretora e curadora do Centro Cultural Vale Maranhão, Paula Porta.

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Nessa perspectiva, alinhado às demandas e ciente das dificuldades para garantir a discussão da história e cultura africanas nas escolas, o Centro Cultural Vale Maranhão direcionou toda a sua programação de 2018 para exaltar a presença e a contribuição dos povos negros no País. O selo Beleza Pura foi criado para reforçar o mote, e também fazer alusão aos 130 anos da Abolição da Escravidão, completos este ano.

O lançamento do selo foi marcado por inúmeras atividades, quatro exposições, 16 shows, três rodas de conversa, 11 oficinas, 8 espetáculos de teatro e dança, 10 projeções de cinema, um curso e uma série em vídeo. No entanto, de março a novembro, foram 54 ações, que impactou cerca de 90 mil pessoas. A diretriz será trabalhada até fevereiro do ano que vem.

“Grande parte do patrimônio vivenciado hoje no estado do Maranhão foi construído por negros e são, ainda hoje, os maiores preservadores da cultura popular, do patrimônio imaterial, fora a presença marcante em todos os campos da cultura”, coloca Paula Porta, curadora do centro cultural.

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A medida também dialoga com uma das metas do Plano Nacional de Educação – meta 28 – que prevê o aumento de 60% no número de pessoas que frequentam museus, centros culturais, cinemas e espetáculos de teatro, circo, dança e música.

O Centro Cultural Vale Maranhão fica na Avenida Henrique Leal, 149, Praia Grande – São Luís do Maranhão, telefone: (98) 3232 6363. O espaço fica aberto para visitação de terça a sábado, das 10h às 19h. Entrada gratuita.