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Na foto, crianças se divertem com os livros de Daniel Munduruku

As cadeias montanhosas, além de vegetações típicas dos biomas da Mata Atlântica e Cerrado, são algumas das belas paisagens que os viajantes do Trem de Passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) vislumbram ao longo dos 664 quilômetros da linha fundada em 1904 e uma das poucas brasileiras a manter o transporte de passageiros até hoje.


Nas comunidades beira-linha, porém, os moradores estão empreendendo uma viagem para lugares ainda mais longínquos e fantásticos: aquela proporcionada pela leitura. Por meio da montagem ou melhoria de espaços de leitura, além de projetos de promoção da prática, iniciativas da região vêm ampliando o acesso da população ao livro com o intuito de reverter uma realidade preocupante do País. De acordo com a 4ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em maio de 2016, 44% da população brasileira não possui o hábito de ler.

Na cidade de Divino de São Lourenço, localizada no interior do Espírito Santo e próxima à ferrovia, a trupe Circo Teatro Capixaba, que há anos dedica-se à arte do circo teatro de rua e outras atividades culturais, transformou seus palhaços e artistas em também contadores de histórias. “Algum tempo atrás, percebemos o valor da promoção da leitura como uma forma de combater o analfabetismo funcional e reforçar o aprendizado escolar”, conta Rosa Rasuck, gestora do projeto.

Em 2015, o grupo formatou suas ações de incentivo em um projeto independente e itinerante visando contemplar pessoas de todas as idades que não podiam se deslocar até a sede da vila, situada em uma zona rural.

Assim nascia o Circo de Leituras que viaja por diferentes municípios da região promovendo, ao longo de três dias e em uma pequena tenda colorida, diversas vivências relacionadas ao universo literário, de contações de histórias e confecção de livretos ao compartilhamento de saberes e memórias e disponibilização de livros.

“Nas contações de histórias, os atores usam as técnicas circenses de malabares para ilustrar as ideias, para atrair atenção e ajudar na concentração. Como é um projeto itinerante, nada melhor que registrar isso com a imagem do circo que chega, se apresenta e parte, deixando sementes, boas lembranças e até convites para voltar”, conta Rosa.

Além disso, tal dinâmica dialoga com o próprio cotidiano dos moradores da via férrea, acostumados ao vai e vem dos trens. “Desejamos que as pessoas que levam seus livretos-sementes façam brotar o desejo por mais leituras em suas casas, pois também serão os escritores do próprio livro de suas vidas”, acrescenta Rosa.

Leitura para a cidadania

O Circo de Leituras é um dos 12 projetos finalistas do edital Aprender na Cidade, lançado este ano pela Fundação Vale com a finalidade de promover a cidadania e ampliar as possibilidades de desenvolvimento social nas comunidades de municípios capixabas e mineiros percorridos pelo Trem de Passageiros da EFVM, e que contemplou iniciativas em duas categorias: “montagem ou melhoria de espaços de leitura” e “projetos de leitura”.

Para Isis Pagy, diretora-presidente da Fundação Vale, a experiência leitora é imprescindível para a construção do pensamento crítico e ampliação dos conhecimentos de mundo. “Por isso, acreditamos que projetos de promoção do livro e da leitura são uma contribuição importante para o desenvolvimento das comunidades. Este é o primeiro ano do edital e ficamos muito felizes com o número e a qualidade dos projetos recebidos, foram 118 no total”, conta.

Entre eles, outro grande destaque é o também finalista Remição pela Leitura, realizado na cidade de Governador Valadares, uma das estações de embarque e desembarque no estado de Minas Gerais. Realizado pela Academia Valadarense de Letras e o sistema pedagógico da penitenciária Francisco Floriano de Paula, o programa oferece aos apenados a possibilidade de obter remição de suas penas por meio da leitura. A cada livro lido, o detento reduz em até quatro dias seu enclausuramento.

Desta maneira, ao mesmo tempo em que leva conhecimento e educação aos detentos, a iniciativa promove reflexão e melhora da autoestima entre eles. “Visitamos uma ou duas vezes por mês a penitenciária e levamos livros de nossa biblioteca pública. O apenado escolhe o livro que deseja ler e tem 30 dias para a leitura. Depois, realiza uma avaliação envolvendo algumas perguntas sobre o enredo e personagens da obra para podermos ter certeza que a leu”, explica a presidente da Academia, Maria Cinira dos Santos Netto.

Levar meditações importantes sobre si mesmos e a sociedade e promover impactos positivos na comunidade são alguns dos critérios utilizados para a escolha das obras. “Além de passar informações, a leitura é um processo lúdico e pode transformar as pessoas. Os apenados ficam muito tempo ociosos, o que não é bom. Com o projeto, é dado a eles alguma oportunidade”, diz a professora.

Mais recentemente e a pedido dos diretores das penitenciárias, a Academia vem desenvolvendo também um trabalho ligado à edição online do Enem aplicada nas Unidades Prisionais e Socioeducativas. “Fomos procurados pelos diretores para trabalhar técnicas de redação com os internos de todas as idades. É um trabalho da Academia para a comunidade porque não adianta ter uma instituição como essa só para se reunir para discutir literatura e tomar chá. Precisamos fazer algo pela comunidade”, diz Maria Cinira.

Isis, da Fundação Vale, acrescenta: na sociedade contemporânea, a leitura tem um papel importante no desenvolvimento educacional, cultural e político das comunidades. “O acesso ao mundo letrado é um direito de todos, por isso o contato com a leitura desde cedo, de forma prazerosa e significativa, colabora para a formação de um cidadão crítico e reflexivo. Ler é ampliar sua visão de mundo e da vida, é conhecer outras culturas e histórias. Contribuir para a democratização do acesso à leitura é dar instrumentos que permitam a ampliação da participação cidadã”, coloca.