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Na escola municipal Maria de Lourdes Rocha Rodrigues, em Canaã dos Carajás, no Pará, a leitura não fica restrita aos 30m² da biblioteca. A escola mantem um leque de ações para desburocratizar o encontro com os livros, como explica a diretora da unidade Elenjusse Martins da Silva Soares.


“Não queremos que os estudantes tenham que preencher formulários para terem acesso a eles”, conta. A ideia é promover e fortalecer uma cultura leitora entre os alunos, motivo pelo qual a leitura se faz presente em diversos ambientes escolares e também os extrapola.

Todos os dias, antes de começarem suas aulas, os professores reservam os momentos iniciais a uma leitura escolhida para as turmas – a escola atende 751 estudantes no Ensino Fundamental I e II. Após este momento, todos são convidados a comentarem o que ouviram.

Professores promovem momento de leitura antes das aulas. Créditos: divulgação

Semanalmente, os estudantes também levam livros para casa. A proposta é que eles possam fazer uma leitura conjunta com a família e compartilhar esse momento na escola, em uma atividade dirigida que busca descobrir como foi o momento da leitura, com quem da família ele foi partilhado e o que rendeu de conversas e reflexões.

Além disso, o acervo chega a outros espaços em malas que funcionam como uma biblioteca itinerante. Assim, é possível ter contato com os livros nas áreas de convivência e não só na sala de aula.

“Queremos romper com a ideia do ler para fazer prova, ler para estudar. Ler deve ser prazer, coloca Elenjusse, afirmando que as ações acabam também por assegurar a presença dos estudantes na biblioteca física.

Biblioteca Viva

Vinte escolas de Canaã dos Carajás participaram de uma formação promovida pela Fundação Vale, em parceria com a secretaria municipal de educação. A iniciativa levou 36 bibliotecários para a sala de aula, num total de 18 horas aula, com o intuito de fazê-los repensar a biblioteca como um espaço formador e transformador e apoiá-los na integração do espaço ao projeto político pedagógico das unidades.

A ideia, como explicam a especialista em educação, Andreia Prestes Massena e a analista de responsabilidade social Carla Vimercate, é refletir sobre a organização do espaço e o seu papel. “As bibliotecas precisam se configurar como espaços vivos, dinâmicos e capazes de acolher as crianças nos momentos de leitura”, avaliam.

Em Canaã dos Carajás, a Fundação também mantem o espaço Casa do Aprender, composto por uma biblioteca, brinquedoteca e espaço de informática. Há outras três unidades em Minas Gerais. A ideia, nesse caso, é contribuir com a democratização da literatura, sobretudo em localidades que não têm oferta de acervo literário via equipamento público ou rede de livrarias.
O trabalho, no caso, é direcionado ao equipamento desses espaços, cedidos pelos municípios, e à gestão do acervo presente. “No caso, fazemos uma seleção do acervo literário, que leva em consideração a comunidade local e busca garantir uma diversidade de autores, editoras e temas, contribuindo com a formação do que entendemos ser uma rede leitora”, assegura Carla.

A contação de histórias é estratégia da escola Maria de Lourdes Rocha Rodrigues 

O cuidado com o acervo literário é um ponto de atenção para a integrante do conselho do Movimento Brasil Literário e coordenadora da campanha Eu Quero Minha Biblioteca, Christine Castilho Fontelles. “A literatura precisa garantir fruição, indagação, estranheza, por isso não pode ser oferecida como produto de prateleira. É necessário atentar para a procedência do livro, o tipo de história e o repertório que trará para a criança, jovem ou adulto”, relata.

A especialista reforça que essas narrativas compõem, aos poucos, as percepções do sujeito, contribuindo com o seu desenvolvimento integral.

Literatura, um direito inalienável

Christine entende a literatura como um alimento emocional que deve ser ofertado desde a primeira infância e continuamente ao longo da vida. Em sua visão, o repertório literário contribui para a criatividade, fantasia e fruição, aspectos constituintes do ser humano.

No entanto, entende que, no Brasil, esse percurso não é trilhado sem esforço, a começar pela falta de oferta de bibliotecas públicas, comunitárias e escolares capazes de garantir a democratização do acervo.

Dados do Censo Escolar 2016, disponibilizados pela plataforma QEdu, mostram que, do total de 183.376 escolas, 67.088 possuem biblioteca, o que equivale a 37%. Outras 43.218 unidades (24%) alegam possuir sala para leitura.

A especialista chama a atenção para a necessidade de uma rede de apoio que possa conduzir a criança na jornada leitora. Isso implica no envolvimento da família nessa cultura, mas também no apoio por parte dos equipamentos públicos. “Essa ausência revela que não temos uma jornada definida de construção de comportamento leitor. Os próprios professores não contam com isso na universidade e chegam à sala de aula sem intimidade com o tema”, avalia.

Para Christine, é necessário um movimento intersetorial articulado que tenha como objetivo central a responsabilização do poder público pela viabilização de equipamentos, pela formação de professores e ativistas comunitários para constituir ou fortalecer o repertório literário no país. Ela reconhece boas iniciativas da sociedade nesse sentido, com apoio de recursos da iniciativa privada, mas reforça: “essa demanda tem de ser incorporada no orçamento dos municípios, só assim poderemos alcançar a qualidade e a sustentabilidade necessárias”, finaliza.