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Janice Thiel

Ainda pouco conhecida e muitas vezes 
tratada como menor, a Literatura Indígena, isto é, a produzida por povos indígenas brasileiros, está em ascensão.


É o que afirma Janice Thiél, professora titular de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e autora de Pele Silenciosa, Pele Sonora: A literatura indígena em destaque, publicado pela Autêntica. Embora a temática esteja presente desde a colonização, os autores indígenas brasileiros começaram a escrever e contar suas narrativas com a sua própria voz somente a partir dos anos 1990.

A visibilidade recente de alguns deles, como Daniel Munduruku, vem ajudando a romper estereótipos e a perceber os povos nativos como capazes de produzir textos com valor estético e literário, segundo Janice.

Paradoxalmente, ela começou a desvendar a literatura indígena brasileira depois de entrar em contato com um autor norte-americano, o escritor e poeta Sherman Alexie. Na mesma época, durante o doutorado, tomou conhecimento do brasileiro Kaká Werá Jecupé. “Foi quando percebi que precisava olhar para o Brasil”, contou a Carta Educação.

Carta Educação: A senhora começa o livro contando do espanto de seus colegas ao descobrirem que estava estudando literatura indígena. Essa reação é comum? O que é, exatamente, literatura indígena?
Janice Thiél: A literatura indígena é extremamente complexa, como toda literatura. Para nós, que temos formação leitora dentro da tradição europeia, ainda que essa literatura faça parte da cultura brasileira, ela é desconhecida. Muitas vezes a literatura indígena é vista como primitiva ou não muito desenvolvida, uma literatura em que os autores ainda estão se adaptando ao universo da mídia e da publicação, quando, na verdade, essa literatura é milenar. A temática indígena está presente desde a colonização, mas os autores indígenas brasileiros começaram a escrever e a contar suas narrativas com a sua própria voz somente a partir dos anos 1990.

CE: Esse marco dos anos 1990 tem algum motivo específico?
JT: No século XX, por volta de 1960, principalmente nos EUA, começa um movimento pela voz e pela presença dos povos minoritários, dentro da luta pelos direitos civis e humanos. No Brasil, isso acontece nos anos 1970. Não sou antropóloga, mas percebo que levou certo tempo, talvez, para que essa voz de resistência política também ganhasse a sua dimensão literária. E até mesmo para que recebesse aceitação para publicação e divulgação pela mídia e pelos meios acadêmicos. Esse desconhecimento da literatura indígena permanece. Sou chamada para falar sobre isso às vezes, e as pessoas se espantam quando digo que há autores indígenas escrevendo no Brasil hoje.

CE: O que caracteriza a literatura produzida por indígenas?
JT: Os autores escrevem muitas vezes em sua língua nativa ou na língua hegemônica, no nosso caso, em português. Quando eles escrevem em língua nativa, o público-alvo é muito reduzido: em geral, é a própria comunidade. Quando escrevem em língua portuguesa, o alcance é maior, mas escrevem para o não índio. Há também a questão do gênero literário. Quando você vai à livraria comprar um romance, já há certa expectativa do que encontrar. Já quando se compra um livro da literatura indígena, essa expectativa de gênero nem sempre corresponde à ideia inicial.

CE: Como assim? 
JT: Se eu comprar, por exemplo, A Terra dos Mil Povos, do Kaká Werá Jecupé. Trata-se de uma autobiografia, mas traz mitos e lendas. É um texto documental, com elementos visuais que não são somente ilustrações. O texto indígena tem uma sofisticação expressiva que não conhecemos na escola. Por exemplo, desenhos geométricos, muitas vezes vistos por nós como ilustração, na literatura indígena podem sinalizar que o texto vem da ancestralidade ou podem ser marcações de autoria. Os textos indígenas têm sua criação individual, mas também a ancestral. São histórias que vêm da tradição oral e de contação de histórias. Isso aparece no texto. A questão do gênero, da autoria, de que os textos dialogam e transitam entre a história e a tradição literária ancestral, também transita em nossa tradição ocidental e europeia, porque os autores transitam do espaço das suas comunidades para o espaço urbano.

CE: Por que os brasileiros sabem pouco sobre a literatura indígena?
JT: Ainda há muito estereótipo do que seria a narrativa ou a literatura indígena. Muitas vezes as próprias livrarias têm dificuldade de classificar o livro e o colocam como literatura infantojuvenil pelas ilustrações ou pelo título. Acho que o desconhecimento passa por aí. A Academia poderia trabalhar mais com essa literatura. Quando falo literatura indígena, estou falando de muitas culturas indígenas produzindo. Existem literaturas indígenas produzidas por várias comunidades e povos, cada uma com sua característica. Existem pontos de contato, mas há a necessidade de se entender um pouco a cultura que produz e também questões de autoria e de gênero. Isso exige uma formação que não recebemos na escola.

Iracema

CE: A maioria das escolas só aborda a questão indígena de maneira estereotipada?
JT: Isso hoje está mudando, mas talvez a escola não insira a literatura indígena ou a dos afrodescendentes com a mesma visibilidade que a literatura canônica recebe. Há ainda um bom caminho a se trilhar, mas autores como Daniel Munduruku estão aparecendo na mídia. Com a intensificação dessa presença e com os professores de literatura quebrando alguns paradigmas e trabalhando com esse gênero também na Academia e no Ensino Médio e Fundamental, isso pode difundir um pouco mais essa literatura, que vai ganhando seu valor.

CE: Quais são os principais entraves que impedem a literatura e a cultura indígena chegarem até as escolas? 
JT: Acho que há um desconhecimento de que é uma literatura a ser trabalhada na escola. É uma literatura não apenas para crianças ou apenas de lendas e mitos. Talvez o principal elemento que impeça o maior estudo dessa literatura seja um certo preconceito com relação ao que significa literário. Muitas vezes, discutimos o que caracteriza o texto literário, e os elementos do literário correspondem à literatura de origem europeia. E a construção indígena, com sua complexidade e hibridismo de gênero, acaba trazendo questões para as quais as pessoas não estão preparadas.

CE: Quais?
JT: Em primeiro lugar, a palavra índio é um estereótipo: o índio é associado ao passado, não ao presente, e também não é associado a um criador artístico com o mesmo valor de outras etnias e outras contribuições na cultura brasileira. Há uma série de estereótipos que impedem que essa literatura ganhe mais visibilidade. Mas essa literatura está em ascensão, ganhando evidência. Há muitos blogs e acessos pela internet a entrevistas e textos de autores indígenas. Acho que a tendência é de que as pessoas percam esses estereótipos e comecem a ver outras etnias e culturas brasileiras como etnias que produzem textos com valor estético e literário.

CE: Quais são os principais expoentes da literatura indígena hoje? Quais autores a senhora recomendaria a um professor? 
JT: Indicaria o Daniel Munduruku, pela sua presença e produção relevante e premiada. Ele trabalha com gêneros variados e sua obra já aparece em antologias de textos canônicos. O Kaká Werá Jecupé também, por ser um dos primeiros, ao lado de Munduruku. O Terra dos Mil Povos, por exemplo, traz uma história paralela àquela que conhecemos da chegada dos colonizadores europeus no Brasil. Há uma autora, Eliane Potiguara, que tem textos e ensaios de resistência, com uma visão mais politizada da questão indígena, além de poemas. E a Graça Graúna. Acho que o importante é, ao encontrar um texto escrito por um autor indígena, não classificá-lo como uma literatura que não tem o mesmo valor da que estamos acostumados a ler. É importante reconhecer o valor singular dentro da tradição que produziu essa literatura.

CE: A senhora fala um pouco de autores que não são brasileiros. Na América do Norte a literatura indígena é mais valorizada?
JT: Ela tem muito mais presença, visibilidade e reconhecimento, até porque tem mais tempo de divulgação. O início da literatura indígena nos EUA foi aproximadamente no século XVIII. Ela também começa a ganhar mais exposição no século XX, mas com uma relação de autores construídos como indígenas e manifestando a sua voz por um tempo muito maior. Há também autores de diversas etnias com presença na Academia americana, isso é muito importante. Nós já temos no Brasil o Munduruku e a Graça Graúna, mas nos EUA essa presença é muito mais marcante, com indígenas não apenas sendo professores universitários, mas participando da vida acadêmica.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental