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Nas escolas da cidade, meninos e meninas são protagonistas do seu aprendizado

Localizado no coração da Toscana, região da Itália central, o município de San Miniato tem apenas 102 km² e cerca de 26 mil habitantes, mas agiganta-se quando o tema é Educação Infantil.


Nos últimos trinta anos, a cidade tornou-se referência internacional pela qualidade de seu serviço público voltado ao atendimento de crianças de 0 a 3 anos – posto que costuma dividir com sua vizinha mais ao norte, Reggio Emilia.

No cerne de ambas experiências exitosas estão as ideias do professor Loris Malaguzzi (1920-1994), que, posteriormente, viriam a sustentar a chamada Pedagogia da Escuta.

Em sintonia com esta visão da infância, nas escolas e creches de San Miniato, meninos e meninas são tomados como protagonistas de seu processo educativo. Além, é claro, de contar com uma participação ativa das famílias, educadores e administração local. Tudo feito pela e em pró da comunidade.

Presidente do Centro de Pesquisa de Documentação sobre a Infância, La Bottega di Geppetto, da prefeitura de San Miniato e professor da Universidade de Florença, Aldo Fortunati esteve no Brasil em fevereiro. Na Unicamp, em Campinas, ele falou sobre a experiência italiana.

Aldo Fortunati
O presidente do Centro de Pesquisa de Documentação sobre a Infância, La Bottega di Geppetto, da prefeitura de San Miniato e professor da Universidade de Florença, Aldo Fortunati

Carta Fundamental: Em San Miniato, chama a atenção a ausência de regras e moldes pré-estabelecidos, possibilitando uma maior liberdade aos educadores e crianças. Qual a importância desta flexibilidade?

Aldo Fortunati: O jeito certo de falar de San Miniato é de uma abordagem à educação e não de um modelo. Abordagem significa que existem alguns elementos que devem ser considerados para construir a qualidade, mas não há um modelo fechado que garanta isto. Entre estes elementos estão o planejamento do espaço físico, a participação ativa das famílias, o trabalho compartilhado entre os educadores, o investimento na memória e atividades com programação flexível. Todos estes aspectos podem ser tomados como um guia norteador, mas devem ser também interpretados de acordo com cada contexto.

CF: Outro ponto de destaque é a participação da comunidade. Como o entorno está inserido no serviço de Educação Infantil?

AF: Há vinte anos, pesquisadores americanos vieram para estudar a experiência de San Miniato e começaram a fazer a seguinte pergunta: os jardins de infância são para as crianças ou para as famílias? Ao final, concluíram que, em San Miniato, os jardins de infância não são nem para crianças nem para as famílias, mas para a comunidade. Com isto queriam indicar que a Educação Infantil no município representa um recurso construído por uma participação ativa da comunidade, que escolheu levar a responsabilidade da educação para suas crianças. Não foi sempre assim, muito menos aconteceu de forma automática. Mas à certa altura, as demandas das famílias pelo serviço tornaram-se fortes e, consequentemente, ocorreu o seu desenvolvimento. Hoje, todas as famílias consideram natural e importante a presença deste serviço [creche].

CF: Como se dá, efetivamente, a participação das famílias? Elas têm voz para opinar, sugerir mudanças?

AF: Sim, porque também no caso das famílias se aplica o cuidado de se oferecer oportunidades e não modelos. Tentamos dar espaço e tempo para acomodar as famílias, para fazê-las conhecer mais de perto os nossos serviços e, assim, ajudá-las a escolher aquele mais adequado às suas necessidades e a de seus filhos. Acredito que devemos conversar com os pais sempre que possível sobre o que as crianças realizam juntas dentro do jardim de infância para que entendam e compartilhem o valor e o conteúdo destas experiências. Claro, não há uma maneira fácil de se fazer isso, mas é preciso oferecer oportunidades para que isso ocorra.

CF: O senhor afirma que é importante construir oportunidades para que os adultos possam aprender com as crianças. O que seria isso?

AF: Não são apenas as crianças que aprendem nestes espaços. Podemos falar da aprendizagem dos educadores, por exemplo, que aprendem diariamente sobre as muitas maneiras em que as crianças constroem seu conhecimento, como cada criança vive sua aprendizagem, seu crescimento. Além disso, é de extrema importância a forma como os educadores falam sobre as atividades desenvolvidas com as crianças para os pais, famílias, de modo que também eles possam conhecer melhor a capacidade de aprender e despertar novas experiências em seus filhos.

CF: Em San Miniato, o espaço físico não é externo à experiência educativa. Qual a importância de pensar o espaço escolar?

AF: Crianças aprendem e conhecem o mundo explorando-o. A ideia de que o único estímulo interessante para elas deve ser a voz de um adulto é estúpida. A criança move-se pelo ambiente, toca em objetos, colocá-los na boca e, por isso, devemos organizar um contexto físico adequado para isto, para que possam explorar e aprender em segurança e com curiosidade. O espaço físico é um ingrediente a mais para promover os relacionamentos, tanto no encontro com outras crianças ou com os adultos.

CF: O senhor afirma que cada criança aprende de uma maneira, mas o sistema educacional tende a igualá-los. Quais os prejuízos desta ação?

AF: A intenção dessa igualização é compreensível, pois se houver uma discrepância muito expressiva entre as crianças no momento de aprender a ler e escrever, por exemplo, isto dificulta todo o processo. Mas, neste caso, estamos falando de crianças pequenas e ainda não é a hora de ter essa preocupação. Ela só deve ser considerada quando as crianças saem do jardim de infância e vão para a escola primária. Antes desta idade, a necessidade de fazer com que todas as crianças sejam iguais é um objetivo equivocado. Nesta etapa do desenvolvimento, devemos cultivar e promover as diferenças.

Saiba mais
Livro: “A Educação Infantil como Projeto da Comunidade”, de Aldo Fortunati (Ed. Artmed, 2009)