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Silvana de Oliveira Augusto
Desenhos e rabiscos revelam exploração de cores e formas

São muitas as possibilidades criativas que as crianças experimentam durante a primeira infância. Se o professor é capaz de notar esse percurso por meio dos desenhos e rabiscos infantis, terá um instrumento a mais para elaborar atividades pedagógicas que favoreçam essa evolução gráfica. No livro Ver Depois de Olhar: A formação do olhar dos professores para os desenhos de crianças, Silvana de Oliveira Augusto apresenta instrumentos teóricos e metodológicos que podem ser úteis neste contexto. Em entrevista a Carta Educação, a pesquisadora falou sobre a necessidade de fomentar o olhar sensível e do exercício de ver de forma mais profunda os desenhos feitos pelas crianças.


Carta Educação: Por que é preciso que o educador tenha um olhar interessado e sensível para os desenhos infantis?
Silvana de Oliveira Augusto: Conhecer a trajetória criativa da criança, que elementos da linguagem ela está usando e de que maneira, é uma fonte de informação preciosa para o professor poder pensar melhor suas atividades. Se o docente não conhece a trajetória da criança, perde a oportunidade de fazer intervenções fundamentais que a faria avançar em seu processo criativo. Por exemplo, há uma fase em que as crianças produzem rabiscos, que chamamos de garatuja. São emaranhados que não formam figuras, mas têm ali uma exploração do espaço, das cores, dos padrões. Rabisco não é tudo a mesma coisa, cada rabisco tem uma particularidade. Quando olhamos os rabiscos da criança ao longo do tempo, podemos notar o que ela está trabalhando graficamente, se está aprendendo a usar as cores, controlar seus movimentos, entre outros aspectos.

CE: Quais as principais influências que atuam na formação do olhar do professor? Como desconstruir os estereótipos visuais consolidados nos adultos?
SOA: O propósito deste livro é justamente esse: construir outra possibilidade de olhar. Como essa abordagem não é muito trabalhada na formação inicial dos professores, o olhar deles acaba sendo moldado pelo que é valorizado na nossa cultura. Por isso, a figuração, sobretudo a mais realista, ainda é um valor fortíssimo para muitas pessoas e, principalmente, para os professores. Eles tendem a achar mais bonito os desenhos que representam alguma coisa, onde é possível reconhecer ou nomear o que está ali. São esses padrões estéticos que acabam formando o olhar do professor e a expectativa em relação aos desenhos das crianças.

CE: E qual o prejuízo que esse olhar traz?
SOA: Enquanto os professores ficam buscando esses padrões, eles não conseguem notar o mais importante, que é o trabalho que a criança tem para construir com a linguagem do desenho seus próprios padrões, ou seja, padrões autorais. Cada criança tem um percurso criativo diferente, um modo de construir o seu espaço de desenho, preenchimento, seu critério para o uso de cores. Nada disso é espontâneo, é tudo fruto de muita pesquisa gráfica que elas fazem e que a gente percebe quando observa a série de desenhos de uma mesma criança durante um espaço de tempo.

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Jornalista formada pela PUC-SP e bacharel em Letras pela USP. Já trabalhou no site da revista Crescer e escreve sobre educação desde 2013.