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Carlos Lisboa Travassos

No dia 26 de junho, um pequeno grupo de indígenas até então desconhecidos por nossa sociedade atravessou o Rio Envira, no Acre, e fez contato com a aldeia Simpatia, lar de outro povo já contatado pelo homem branco. Eram sete jovens, entre 12 e 21 anos, de porte físico robusto e saudável. Os primeiros diálogos foram realizados por intérpretes indígenas, familiarizados com as palavras proferidas pelos desconhecidos, pertencentes ao tronco linguístico pano.


O encontro na aldeia Simpatia foi a primeira ponte construída entre aqueles conhecidos como “povo do xinane” e o órgão brasileiro de proteção ao índio. “É uma população que vive da agricultura e da caça, e se manteve resistente a estabelecer o contato”, conta Carlos Lisboa Travassos, coordenador-geral de Índios Isolados e Recém-Contatados da Fundação Nacional do Índio (Funai), presente nos encontros subsequentes com a população, que ocupa uma região fronteiriça entre o Norte do Brasil e o Peru.

“A impressão que eles tinham sobre os não índios era a de pessoas violentas, malvadas, encaradas como inimigos”, explica. Por telefone, o geógrafo de 34 anos conversou sobre a política governamental de proteção a esses povos, os diálogos estabelecidos e a possibilidade iminente de novos encontros com populações, até então, desconhecidas por nós.

Carta Fundamental: O que se sabe sobre o povo isolado, conhecido como xinane, que fez contato na região de fronteira do Acre com o Peru?

Carlos Lisboa Travassos: A Funai já monitorava esse grupo que vive próximo à fronteira do Brasil com o Peru, na bacia do Rio Envira. Sabemos que eles são do tronco linguístico pano, que a língua deles é inteligível para o povo de jaminaua, que já possui contato estabelecido há mais de 60 anos. É uma população que vive da agricultura e da caça, e se manteve resistente a estabelecer contato desde o período que houve exploração de seringais na região. Eles conhecem os não indígenas e, durante todo esse tempo, mantiveram a postura de não estabelecer contato com outras sociedades.

CF: Qual é o protocolo seguido pela Funai, quando descobre indícios de povos isolados ou não contatados?

CLT: Existe, desde 1992, um sistema de proteção aos índios isolados no Brasil. Esse trabalho é desenvolvido por meio de atividades de localização, ou seja, qualquer informação que a Funai tenha sobre grupos de índios isolados em determinada região, ela passa a investigar, localizar esse grupo e a produzir relatórios que comprovem a sua existência. Esse é o primeiro passo.

O segundo passo é, a partir da confirmação da presença deles, definir uma estratégia de proteção territorial. Porque entendemos que, quando há um ambiente ou território preservado, esses grupos conseguem garantir sua reprodução física e cultural e, ao mesmo tempo, nós conseguimos respeitar a postura deles de não estabelecer o contato. O terceiro passo seria o contato, o que nunca é iniciativa nossa. Em geral, acontece por vontade do próprio povo ou, de forma não oficial, ou por outros atores da sociedade, como índios que já mantêm contato ou ribeirinhos, por exemplo.

CF: É possível identificar os principais motivos para o contato feito por esse grupo recentemente?
CLT:  Conseguimos identificar alguns motivos. Esse grupo buscou obter objetos industrializados, mas também fazer uma aliança por conta de conflitos na região onde moravam, principalmente com não índios, provavelmente do lado peruano.

CF: Como fica a relação diplomática com o Peru? É possível intervir ali? 
CLT:  Existem alguns protocolos internacionais seguidos pela Funai e um termo de cooperação bilateral entre o governo brasileiro e o peruano para que se aplique toda a legislação vigente em ambos os países. Assim como o Brasil, o Peru também protege os povos indígenas isolados. Esse acordo visa verificar as ameaças que afetam os povos transfronteiriços para que ambos os 
países, cada um em seu território, tomem as medidas necessárias. O Brasil comunicou ao Peru os fatos e as informações obtidas com esse grupo, e o governo peruano tem enviado para a região uma equipe de especialistas para averiguar as possíveis ameaças junto aos órgãos de segurança do país.

CF: Após o primeiro contato, alguns índios ficaram doentes. Como enfrentar a desconfiança e o medo desses povos no que diz respeito à saúde e às vacinas?
CLT: É uma pergunta interessante, porque as doenças, que para nós são de fácil solução, para eles podem se tornar um grande risco de morte. Esse contato foi feito principalmente por meio de intérpretes que conseguiam se comunicar com os índios. Quando a comunicação é plena, conseguimos explicar o que é uma doença e como a nossa sociedade a cura. Felizmente, nessa situação de contato com o povo do xinane foi possível convencê-los de que, para se curar, era necessário tomar medicação e cuidar para que a doença não fosse transmitida para o resto do grupo. Felizmente, essa comunicação foi muito boa, eles compreenderam e a gente pôde superar essa relação real de desconfiança.

Índios isolados

CF: O senhor declarou que pode haver uma aproximação massiva desse grupo indígena. O que isso representa para a Funai e quais ações estão sendo feitas para se preparar? 

CLT:  O primeiro contato deu-se com sete indivíduos. Eles contraíram gripe, foram tratados, curados e retornaram para sua habitação permanente – malocas onde há roças e tudo mais. Depois, o restante do grupo estabeleceu o contato novamente, já na base da Funai no Rio Envira. Esse contato, desde então, tornou-se permanente. Hoje, 24 indígenas estão em diálogo permanente conosco. É necessária uma estrutura para esse diálogo intercultural, para explicar a nossa sociedade e entender melhor a deles, e também para manter uma equipe de saúde permanentemente no local, para monitorar e fazer o controle epidemiológico dos próprios atores que somos nós, os servidores da Funai. É preciso fazer um controle rígido de entrada e saída dessas pessoas da base, porque justamente nós somos vetores de doenças.

CF: Quais foram as impressões que os índios isolados tiveram dos não índios, o senhor consegue descrevê-las? 

CLT:  O que mais ficou evidente é que todos os contatos que eles tiveram, contatos mais fortes com não índios, foram muito negativos. A impressão que eles tinham sobre os não índios era uma visão de inimigos, de pessoas violentas e malvadas. Eles ficaram surpresos, quando chegamos com os intérpretes, que pudessem existir não índios que trabalhavam para a proteção deles. De todas as coisas que eu poderia citar, de todos os momentos e impressões, acho que essa foi a mais forte, a que mais nos ressaltou essa visão que eles tinham de que o homem branco, o não indígena, seria uma população extremamente violenta e má.

CF: Essa impressão foi revertida?

CLT: É um processo, estamos estabelecendo confiança. Eles estão começando a compreender que existem muitos não índios, que são populações muito grandes, e também que existem grandes concentrações urbanas. Acredito que nesse processo, sim, eles estão entendendo que existem diferentes tipos de comportamentos dentro da nossa sociedade.

CF: Existem 104 registros da presença de índios isolados na Amazônia brasileira, 26 deles monitorados pela Funai. Qual é a probabilidade de uma situação similar à que houve este ano acontecer novamente? 

CLT:  A probabilidade é altíssima. Temos enfatizado isso em todas as nossas comunicações. Hoje existem 26 grupos confirmados e quatro áreas consideradas de vulnerabilidade altíssima: a região do Vale do Javari, onde há 16 grupos de índios isolados que compartilham a terra indígena com seis grupos de etnias já contatadas, com problemas severos de saúde, como hepatite e malária. Então, o contato pode ocorrer a qualquer momento, em uma situação de logística complicada.

No Maranhão, a extração ilegal de madeira põe em risco as populações isoladas tanto da terra indígena Arariboia quanto a do Caru. Na terra Ianomâmi é igualmente preocupante por causa da grande presença de garimpos ilegais naquela terra indígena. Em Mato Grosso, o grupo cauaiua do Rio Pardo sofre uma pressão fundiária muito grande de atividades madeireiras, posseiros e fazendeiros da região. Consideramos essas quatro regiões críticas, nas quais o contato pode ocorrer a qualquer momento.

CF: A visão do índio aprendida na escola ainda é carregada de estereótipos e preconceitos. De que forma esse tipo de experiência e de contato com povos indígenas ainda desconhecidos pode ajudar a modificar de alguma maneira essa visão?

CLT: Ainda carece, nas redes de ensino, de informações mais qualificadas sobre as populações indígenas brasileiras, desde a colonização até os dias atuais. Acho que essas informações, sobre índios isolados, surpreendem e chamam atenção do público, mas seria muito importante que o contexto histórico da formação do nosso país pudesse ser contado também com os processos de genocídio, de exploração dos territórios indígenas, e da formação de organizações indígenas como meio de reorganizar e revalorizar essa cultura.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental