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Esther Solano
Docente da Unifesp, espanhola conviveu com adeptos da prática black bloc.

“Oi tudo bem? Eu sou Esther, professora universitária. Queria acompanhar vocês na manifestação e entender um pouco. Por que vão de preto, com máscara… você me explica?” Essa foi a primeira vez que a espanhola Esther Solano, hoje com 31 anos, conversou com um adepto da prática black bloc.


O diálogo aconteceu enquanto andava em meio a buzinas e carros parados por uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, um dos principais palcos dos enfrentamentos ocorridos ao longo de 2013.

Enquanto a maioria assistia atônita às demonstrações e tantos outros apressavam-se em criar julgamentos sobre as ações dos manifestantes e da Polícia Militar, a pesquisadora e professora do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) resolveu ir a campo com o objetivo de entender quem eram e o que pretendiam os garotos e garotas mascarados, vestidos de preto, capazes de estraçalhar vidros de agências bancárias e atuar na linha de frente da onda de protestos iniciadas pelo aumento da tarifa do transporte público em São Paulo.

Inicialmente visto com descrença pelos colegas, o esforço acadêmico virou livro escrito em parceria com os jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes. Mascarados – A verdadeira história dos adeptos da prática black bloc traz o relato de Esther e também dos repórteres que cobriram as manifestações. Esther conversou com Carta Educação sobre os adeptos do movimento, suas percepções sobre a escola pública e sobre a violência cotidiana.

Carta Educação: Como a senhora começou a estudar o fenômeno black bloc?
Esther Solano: Na verdade, sou doutora em Ciências Sociais, então sempre me interessei pelas dinâmicas sociais. Nas manifestações de 2013, fui como uma cidadã participar das passeatas, para ver os brasileiros se organizando. Comecei a ver esses jovens que estavam de preto, colocavam a máscara, e pensei que a violência no Brasil é muito cotidiana, mas é pouca estudada. É um paradoxo. Um dos grandes problemas do Brasil é pouco entendido. Comecei em agosto de 2013, que foi a primeira manifestação em que eles já estavam organizados em uma identidade própria e o que me chamou a atenção é que tinha muitos jornalistas nos protestos, falavam muito sobre eles, mas não falavam com eles. Um dia depois da manifestação tinha fotos e manchetes sobre eles, chamando-os de vândalos e de baderneiros, mas nenhum jornalista pegava a sua caneta e ia conversar com eles para entender aqueles meninos. A minha motivação foi tentar entender quem estava por trás da máscara. Era tudo muito superficial.

CE: Passado mais de um ano das manifestações, já dá para responder quem estava por trás da máscara?
ES: Sim, já dá para responder. Em primeiro lugar, é um perfil muito heterogêneo. Entrevistei desde garotos de 14 anos, com uma politização muito baixa, que vão mais pela adrenalina, até garotos de 20, 22 anos, com nível já de crítica política e de formação maior. A maioria deles é de trabalhadores, muitos estudantes de universidades particulares, como as Anhangueras ou Unips da vida, esse tipo de faculdade particular. Eu diria que é o típico perfil de jovem que você encontra às 19 horas saindo do trabalho, pegando ônibus e indo para a faculdade estudar. E a maioria deles tem uma vida mais de periferia, são usuários do SUS, da escola pública e têm contato com as mazelas do País. A crítica deles deriva da vivência cotidiana com a falta do Estado.

CE: É possível traçar quando a tática black bloc surgiu no Brasil?
ES: No Brasil, ela não é nova, surgiu naquela onda antiglobalização nos anos 2000, naquela época já existiam movimentos que se autodenominavam black blocs, que já usavam o preto, a máscara e a violência simbólica. Era muito parecido. Na época, o foco era a luta contra a globalização econômica e financeira, a luta contra o capital globalizado e a imprensa, de alguma forma, não prestou tanta atenção. A diferença agora é que foi um fenômeno mais espetacularizado pela imprensa. E aí, sim, pelo momento do Brasil mais protagonista na cena internacional, a Copa do Mundo, foi um fenômeno que ganhou muito mais dimensão, mas que não era novo nas ruas brasileiras. Já tinha estado presente no começo dos anos 2000.

CE: A senhora falou nessa violência simbólica, na violência como forma de espetáculo. Como traduzir para o público em geral esse gesto?
ES: Para eles, a violência é uma forma de comunicação, é como um instrumento para se comunicar. Eles inclusive falam isso, que se comunicam por meio da violência. O que eles falam é o seguinte: o protesto pacífico, a passeata, não adiantam de nada porque o governo não escuta e não presta atenção, não é pauta na imprensa, a sociedade não se importa. Eles utilizam a violência para chamar a atenção das pessoas. A violência é uma forma de provocação às pessoas. E outro assunto que eles falam é que é uma violência simbólica contra os símbolos do sistema, do governo, do capitalismo. Então, quando eu jogo uma pedra contra uma vidraça de um banco, a ideia é simbolizar que o vândalo é o banco, que tem juros altíssimos e não eu que jogo a pedra. Quando eu pixo o prédio da Assembleia Legislativa de São Paulo, eu não sou vândalo, quem é vândalo são os políticos que são corruptos. A ideia é provocar com a violência e fazer com que a população debata um pouco o que a violência significa. Eles falam também que quando nós utilizamos a violência nas manifestações, nós provocamos a reação da polícia e as pessoas conseguiram enxergar como a polícia se comporta de forma violenta, diante das câmeras, então todo mundo poderia ver como eles se comportam. É um pouco isso, é uma violência provocativa, que provoca a reação dos outros.

CE: Entre os jovens que você teve oportunidade de conversar, quais as principais motivações que os levavam a “morfar”, ou seja, colocar a máscara e ir para cima?
ES: A primeira é que o Brasil tem muitos problemas e a manifestação pacífica não adianta de nada. Então, temos de partir para outra forma de manifestação para o País prestar atenção na pauta da saúde, da educação, contra a corrupção, tudo isso. Outra coisa que os motiva muito é a questão da polícia, muita raiva contra ela, a maioria já sofreu algum episódio de violência policial na periferia, há uma raiva contida contra a polícia. Eles dizem: é como se a gente conseguisse, de alguma forma, nos vingar da violência policial que vivemos todos os dias na favela, na periferia.

CE: O livro também entrevistou o coronel Reynaldo Rossi, atacado pelos adeptos da tática black bloc em 25 de outubro de 2013. Qual é a importância de se ouvir o lado da polícia e qual a avaliação a senhora faz da atuação deles durante os protestos?
ES: Resolvemos entrevistar o coronel Reynaldo, justamente para dar voz ao outro lado. Para mostrar que queríamos ouvir todo mundo. Explicamos no livro que um pouco do problema da polícia era de que ela nunca havia se deparado com esse tipo de manifestação. A polícia estava acostumada à manifestação com liderança, roteiro marcado, ninguém com máscara. Nunca tinha encontrado de repente, com um bando de caras mascarados, anônimos. Acho que a polícia não soube lidar com isso muito bem. Mas o principal problema foi a instrumentalização política da polícia. Talvez o problema maior é que o governo do estado e, de alguma forma até mesmo o federal, fugiu dessa responsabilidade de fazer uma mediação política e jogou a polícia na rua. O problema não era policial, na verdade, eram manifestações. A ação política piorou muito a situação. Os políticos saíram da rua e deixaram a polícia jogada. Nas manifestações da Copa, em que a polícia foi muito dura, ela fez isso porque respondeu a um comando político de que nada aconteceria durante a Copa, a proteção dos estádios, tudo isso. O comando final é político.

CE: Os protestos contra a realização da Copa do Mundo foram, comparativamente, mais esvaziados do que os vistos em 2013. Isso se deve à ação da polícia, que atuou para desmobilizar, inclusive com prisões antes dos protestos? Por que isso aconteceu, na visão da senhora?
ES: Acho que temos aí duas coisas. Primeiro, efetivamente, as pessoas já tinham sido fichadas pela polícia ou presas. Por outro lado, já havia críticas dentro do próprio movimento, as pessoas já estavam um pouco cansadas da rua. Acho que houve um desgaste natural do movimento que estava há um ano nas ruas. Eram poucos garotos, que não acreditavam em liderança ou hierarquia, iam para a rua sem saber quem ia aparecer e apareciam pessoas que não tinham propósito crítico. Isso acabou desgastando. As duas coisas: a questão da polícia e o desgaste interno.

CE: Existe previsão para acontecer um aumento da passagem no próximo ano em São Paulo. A senhora acredita que os movimentos de junho de 2013 vão ressurgir? Os black blocs também poderiam ressurgir?
ES: Acho que movimentos tão grandes quanto junho será difícil de acontecer. Foi uma situação histórica. Levar tanta gente para a rua, provavelmente, não. Se nós tivermos manifestações, é o cenário perfeito para a tática aparecer de novo. É uma coisa que está latente. Eles aproveitam quando há grandes manifestações e aí vão junto, para atuar. E vai depender um pouco se teremos mais manifestações.

CE: Qual foi a maior dificuldade enfrentada pela senhora ao longo da apuração? Como você foi recebida pelos garotos durante a pesquisa?
ES: A abordagem foi muito simples. As pessoas se surpreendem com isso, mas foi muito simples. Eles não queriam falar com a imprensa, mas a minha diferença é que fui falar com eles sem querer julgá-los. Eu não queria expressar a minha opinião, só queria entendê-los. E eles perceberam isso. Desde o primeiro dia tive uma boa acolhida, não tive nenhum problema e falei com muitos deles. Não queria julgá-los, não queria colocar rótulos de baderneiros ou criminosos, só queria entender o que eles estavam fazendo ali. A maior dificuldade é que muitos jornalistas e professores acharam que eu estava apoiando a causa black bloc. E não era isso. Expliquei milhões de vezes, e também no livro, que pessoalmente sou contra. Mas o que eu queria era entender um fenômeno sociológico importante. As pessoas não sabiam diferenciar isso. Eu queria expor um fenômeno sociológico, não apoiar. Não houve dificuldade em falar com eles.

CE: Qual é a importância de, como pesquisadora, sair do gabinete e ir às ruas para entender esse fenômeno?
ES: É fundamental. Porque para um pesquisador social como eu é impossível entender os fenômenos sociais e momentos conturbados como manifestações se você não está lá acompanhando, observando, falando com as pessoas. Muitas vezes cometemos o equívoco de querer entender a sociedade sem sair de uma sala refrigerada. Isso não é possível, porque você não fala com as pessoas. Como pesquisador social e professor, você precisa estar nas ruas, conversar com as pessoas, olhar nos olhos delas, é a única forma de entender o que está acontecendo. Houve essa desconexão de pesquisadores e da academia, que ficaram avaliando o que estava acontecendo de suas salas, mas não foram para lá. Não se pode entender o que está acontecendo sem conversar cara a cara com as pessoas.

CE: A senhora acredita que os black blocs foram mal compreendidos? Essa incompreensão é natural?
ES: Acho que sim, inclusive eles têm essa própria crítica à sua atuação. Acho que é uma coisa natural. O movimento black bloc existe na Europa, nos países árabes, nos EUA, e o índice de rejeição é altíssimo. Ninguém gosta dos black blocs, ninguém gosta da violência. Eles têm essa autocrítica, de que não souberam, tampouco, levar essa mensagem para as pessoas, explicar o por que da violência. Então é aquela coisa, as pessoas ficam com uma imagem de um cara depredando um banco, a polícia jogando bomba, que é algo que provoca medo e uma rejeição enorme. Realmente, é uma coisa mal-entendida por isso, porque as pessoas ficam no medo inicial e não querem pesquisar mais, inclusive a Academia e os próprios jornalistas. Nisso, a imprensa teve um papel negativo. A mídia conservadora ficou no estigma de baderneiros e a imprensa alternativa falava da polícia. Falta essa tentativa de tentar entender, de ir além dos rótulos e estereótipos.

CE: A trajetória escolar de muitos adeptos da tática black bloc citados no livro passa pela escola pública. Qual é o peso dessa vivência escolar para eles? Que lembranças eles têm da escola?
ES: A maioria reconhece que não aprendeu tudo o que poderia ter aprendido na escola, eles são muito críticos quanto a isso. Eles mesmos reconhecem que faltava uma visão crítica da sociedade, que deveria ter sido dada pela escola. Eles lembravam de alguns bons professores, mas, como estrutura, a escola não deu para eles uma visão crítica. Eles reconhecem que falta essa formação crítica de cidadania.

CE: Eles se ressentiam dessa visão crítica da própria escola?
ES: A maioria confessa que não estava acostumado a ler jornal ou a fazer reflexões críticas na escola. Nas manifestações de junho, começaram a pesquisar sobre isso, mas de forma autodidata, na internet, redes sociais. Lamentavelmente, acho que houve pouco peso do sistema educacional na formação desses garotos.

CE: Nesse sentido a internet teve um grande papel.
ES: A internet acabou sendo uma ferramenta didática para eles. E, de alguma forma, eles se formaram por meio da rede social: como não tinham conhecimento prévio, buscaram na internet a bagagem política.

CE: A senhora acredita que esse movimento vá amadurecer com o tempo ou mudar? Qual é a sua aposta?
ES: É difícil, mas acho que a maioria desses garotos que saíram para a rua como black blocs está amadurecendo sim. Foi uma experiência para eles. Muitos não praticam mais a tática, mas continuam engajados como movimento social, em outras causas. Vários continuaram politicamente engajados. Mas o que vai acontecer no futuro é um pouco difícil. Essa geração é complicada, por causa da polícia, porque muitos já têm processo aberto, a polícia está atrás. Não sei como eles vão se reorganizar, mas a maioria continuou nos movimentos sociais. Eu diria que, para muitos deles, o black bloc foi uma porta de entrada para outros tipos de movimentos.