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Inédito no Brasil, o livro Who’s Afraid of the Big Bad Dragon (Quem Tem Medo do Grande e Malvado Dragão) tem um subtítulo intrigante: “Por que a China tem o melhor e o pior sistema educacional do mundo”. Ao longo de 272 páginas, o autor Yong Zhao dedica-se a explicar esse paradoxo e a desconstruir a ideia de que o modelo chinês de educação – centralizador, baseado na ênfase em testes padronizados, altamente competitivo e sempre no topo do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) – é um exemplo a ser seguido pelos demais países.


“Os piores aspectos (do modelo chinês) estão na ênfase exagerada em avaliação, que torna todas as demais atividades de estudantes, professores, pais e escolas em uma preparação para os testes. Consequentemente, a experiência educacional dos alunos, dentro e fora da escola, está focada em poucos assuntos. O bem-estar social, emocional e físico fica em segundo plano”, critica Zhao, que conheceu o sistema educacional chinês como aluno e professor.

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No epicentro 
de dois impérios

Nascido na província de Sichuan, Yong Zhao estudou em uma pequena escola rural durante a Revolução Cultural (1966-1976), quando o exame de admissão do Ensino Superior (Gaokao) foi abolido. O mesmo não aconteceu no curso equivalente ao nosso Ensino Médio, período em que sentiu na pele a enorme pressão para atingir uma boa nota e passar no exame, restaurado em 1977.

Após se formar em Língua Inglesa e lecionar por seis anos na China, Zhao aceitou uma oferta para trabalhar como professor-visitante no Linfield College e se mudou para os Estados Unidos, em 1992. Atualmente, o autor ocupa o cargo de professor na Universidade do Oregon e é presidente do Institute for Global and Online Education, na mesma instituição.

Por e-mail, Zhao conversou com Carta Educação sobre o sistema educacional chinês, os perigos de uma educação baseada em testes e a admiração nutrida por muitos países ocidentais pela educação tradicional chinesa.

Carta Educação: Por que a China tem, ao mesmo tempo, o melhor e o pior sistema educacional do mundo? Como isso é possível?
Yong Zhao: Porque existem diferentes definições e objetivos na educação. Se você acredita que educação significa ter todos os seus estudantes dominando o mesmo conteúdo prescrito e demonstrando esse domínio por meio de testes focalizados, a China já demonstrou ser a melhor, ao menos de acordo com o Pisa. Mas, se você pensa que educação significa ajudar a melhorar e desenvolver habilidades individuais, produzir a diversidade, cultivar a criatividade e prover uma experiência balanceada para o desenvolvimento da criança como um todo, talvez a China seja a pior. Aliás, não se trata do único país a ter um sistema educacional com essas características. Na verdade, todo sistema educacional que coloca muita ênfase em testes e que impõe aos seus estudantes um conjunto limitado de habilidades e conhecimentos pode ter essas consequências.

CE: Quais são os piores aspectos da educação chinesa, em sua opinião?
YZ:
Na prática, os piores aspectos estão na ênfase exagerada nos testes, que torna todas as demais atividades de estudantes, professores, pais e escolas em uma preparação para os testes. Consequentemente, a experiência educacional dos alunos, dentro e fora da escola, está focada em poucos assuntos. O bem-estar social, emocional e físico ficam em segundo plano. Mas a ênfase exagerada nos testes é resultado das chamadas high-stake tests, nas quais o sucesso na vida de uma pessoa (e tem sido assim há muito tempo) é definido pela sua capacidade de chegar ao Ensino Superior, única forma de conseguir os melhores empregos.

CE: No último Pisa, Xangai (e a China) ocupou o primeiro lugar do ranking. No entanto, o senhor aponta o fato de que, desde 1949, o país não ganhou nenhum Prêmio Nobel. Esse modelo de educação está prejudicando a criatividade e outras capacidades dos estudantes? 
YZ: Ao menos em parte, sim. Há muitos fatores envolvidos, é claro, mas um sistema educacional que premia os estudantes pelo bom desempenho em testes padronizados certamente prejudica aspectos presentes em indivíduos mais criativos.

CE: Um dos aspectos mais conhecidos da população chinesa no Ocidente é a valorização da educação como chave para o sucesso. O senhor afirma, porém, que essa valorização é uma “estratégia de sobrevivência”. Poderia explicar melhor?
YZ: A educação, ou melhor, passar em testes, tem sido o único caminho para a mobilidade social na China – e os testes são controlados pelas autoridades. As pessoas precisam valorizar essa “educação”. Como eu explico no livro, as pessoas não valorizam necessariamente a educação, mas sim a preparação necessária para passar nos exames. Assim, o que observamos é a valorização da educação essencialmente como uma estratégia de sobrevivência para lidar com um sistema feito para selecionar com base em resultados de testes.

CE: Que lembranças o senhor tem do período em que estudou na China?
YZ: Eu fui para a escola e completei minha graduação na China. Também fui professor e dei aulas no meu país. Era estudante durante a Revolução Cultural em uma vila rural. Durante esse período, a China suspendeu o Gaokao, o exame de admissão no Ensino Superior, dessa forma meus primeiros anos de ensino não foram afetados pelos testes padronizados. Além do que, minha escola era tão remota e com tão poucos recursos que os meus professores não colocavam muita pressão sobre mim, então, não tenho memórias negativas. Mas no Ensino Médio houve uma pressão enorme para a preparação para o exame de admissão no Ensino Superior, restaurado em 1977.

CE: De que maneira o sistema educacional chinês contribuiu para a implementação autoritária de hábitos culturais e políticos?
YZ: Acredito que quase todos os sistemas educacionais do mundo têm um espírito autoritário, manifestado em diferentes graus. Eles usam high-stakes testing, testes que têm um impacto em alunos e professores, ao impor a todas as crianças um conjunto de conteúdos, valores e habilidades predeterminado por alguma autoridade. A China tem um sistema autoritário, mas eficaz.

CE: Os educadores chineses estão tentando mudar o sistema? Há alguma chance de sucesso? 
YZ: Espero que sim, mas não sou muito otimista.

CE: O senhor escreveu que seu livro inédito no Brasil Who’s Afraid of the Big Bad Dragon: Why China has the best (and worst) educational system in the world (Quem Tem Medo do Grande e Malvado Dragão Vermelho: Porque a China tem o melhor (e o pior) sistema educacional do mundo, em tradução livre) tem como objetivo alertar os países ocidentais sobre as perigosas consequências de uma educação autoritária. No Brasil, muitos acreditam que nós devemos olhar para o exemplo chinês na educação. Nossa leitura do sistema educacional chinês está errada?  
YZ: Sim, acredito que sim. Bom desempenho nos testes do Pisa não significa, necessariamente, uma educação de qualidade. Mas, claro, devemos ser cuidadosos para não achar que uma colocação baixa no ranking do Pisa signifique uma educação de qualidade.

CE: No Brasil, existe muita pressão para que os nossos estudantes consigam boas colocações no Pisa. Perseguir o topo dos rankings é uma boa maneira de um país melhorar a qualidade da educação?  

YZ: Desculpe, mas eu terei de dizer não. O que importa na educação é liberar talentos individuais e melhorar seus pontos fortes, de modo que o aluno possa viver uma bem-sucedida vida de empreendedor criativo. Isso se torna ainda mais importante no século XXI. O Pisa não mede as características que serão mais importantes para a nossa vida no futuro.

CE: A americana Diane Ravitch, ex-apoiadora de políticas públicas como No Child Left Behind, centrada em avaliações e resultados, recentemente escreveu um livro sobre como esse tipo de política é, na verdade, nocivo para os estudantes. O senhor acredita que os Estados Unidos (e a China) estão dispostos a mudar o sistema educacional? Ou enquanto a China continuar a atingir bons resultados no Pisa não haverá esse movimento? 
YZ: Acho que todos, inclusive Estados Unidos e China, estão trabalhando para construir um melhor sistema educacional, ainda que a definição do que significa um bom sistema possa variar. Portanto, tenho esperança de que ambos os países mudarão e já estão mudando. No entanto, o Pisa ainda afeta as decisões dos formuladores das políticas públicas. Enquanto o Pisa for utilizado para medir a qualidade da educação, a tendência é de que os países hesitem em fazer qualquer mudança capaz de afetar sua posição no ranking da avaliação internacional.