COMPARTILHE
Nicky Hockly
"As estratégias governamentais para implementar tecnologia dão pouca atenção ao pedagógico", diz ela.

Professora e consultora pedagógica de ensino de inglês a distância desde 1987, a britânica Nicky Hockly defende a integração de aparatos tecnológicos como tablets e celulares às salas de aula e cursos de língua estrangeira. Proibi-los ou ignorá-los, diz, é “nadar contra a maré”. Em visita a São Paulo, a educadora radicada em Barcelona, Espanha, conversou com Carta Educação sobre como os dispositivos digitais podem auxiliar o ensino de inglês e outros idiomas por valerem-se de uma linguagem mais próxima do jovem e ampliarem as oportunidades de aprendizagem dos alunos. Mas que é preciso cuidado para não encará-los como uma panaceia: “Tendemos a pensar na tecnologia como a solução para a escola. A tecnologia, por si só, não vai resolver nada, ela pode ser bem ou mal usada”, afirma a diretora pedagógica da empresa de consultoria educacional e de treinamento online The Consultants-E.


Carta Educação: Temos uma sociedade e, consequentemente, uma educação cada vez mais digital. Como preparar os professores de línguas estrangeiras para lidar com toda essa tecnologia?
Nicky Hockly: Acho que esta é, provavelmente, a coisa mais importante a se fazer para que os professores possam usar a tecnologia de um jeito significativo com seus alunos. A tecnologia é apontada, entre outras coisas, como uma solução para o ensino de inglês e outros idiomas. De fato, o aluno até pode aprender por conta própria estudando por meio de apps no celular ou plataformas online. Isso tudo lhe será útil, mas no fim do dia, ele precisa ter a oportunidade de usar a língua e a tecnologia não faz isso por ele. Então é preciso garantir que os professores entendam que a resposta não está na substituição, mas em integrá-la às aulas de língua.

CE: E quais são hoje os principais desafios para que isso aconteça?
NH: O desafio depende do tipo de tecnologia que estamos falando. Em relação aos computadores, acho que o principal desafio para os professores é saber como usá-los. É comum eles surtarem, porque acham que não vão conseguir manejá-los etc. E não é que seja difícil, mas é preciso dar um bom treinamento para que isso ocorra, o que nem sempre acontece. Geralmente, as estratégias governamentais para a implementação de tecnologia nas escolas baseiam-se no aspecto da infraestrutura e dão pouca atenção para o aspecto pedagógico. No fim dos anos 90, no Reino Unido, o governo comprou e instalou softwares nas escolas, mas não ensinou, não treinou os docentes para utilizá-los, então houve uma resistência. Primeiro, porque eles não tinham pedido aquilo e, segundo, porque não sabiam como usar. Agora, quando estamos falando de dispositivos móveis, os desafios são outros. A primeira pergunta que eu faria é: todos os alunos possuem um celular para ser usado em sala de aula? Dependendo da resposta pode-se pensar em como manejar a situação. As escolas podem, por exemplo, providenciar os dispositivos ou os alunos podem trabalhar em pares, grupos.

CE: A senhora acha que ainda há resistência por parte dos professores em adotar a tecnologia?
NH: Ainda há resistência, embora seja menor do que anteriormente. Venho trabalhando com o uso de tecnologia em sala faz 20 anos e, antes, via professores em negação, achando que tudo aquilo não vingaria, que não seria importante. Hoje, a grande maioria já tem consciência de que a tecnologia veio para ficar e que, no caso do ensino de línguas, pode oferecer oportunidades de aprendizado muito interessantes. Acho que a resposta para essa resistência está no treinamento, em ajudá-los a superar esse medo. Percebo uma divisão geracional, os mais jovens parecem mais confortáveis em usar tecnologia. Mas aí é preciso destacar uma coisa: só porque estão mais confortáveis, não significa que a usam de forma crítica. E é nisso que os professores têm vantagem. Independentemente de sua idade, eles podem mostrar aos alunos como eles precisam ser críticos em relação ao que encontram na internet. Muitos estudantes tendem a acreditar em tudo que leem online. Um bom exemplo é uma página na web sobre um polvo raro que vive em uma árvore. É uma piada, mas quando mostro para os alunos, eles, de imediato, acreditam. Então os professores precisam ajudar os alunos a desenvolver habilidades críticas em relação ao que acham online, mostrar a eles como precisam questionar todas as coisas.

CE: Este seria um dos novos papéis do professor?
NH: Acho que os currículos escolares ao redor do mundo estão passando por reformulações e apresentam algo em comum que é esta necessidade de tornar o aluno crítico, de fomentar suas habilidades de comunicação. E há um entendimento de que o letramento digital é fundamental para isso e os professores precisam ajudar seus alunos nesse processo. É importante frisar que letramento digital não quer dizer somente saber clicar aqui ou ali ou saber como embedar uma imagem ou vídeo na página da web, mas, principalmente, ter noção do espaço de socialização que a tecnologia promove. É fácil aprender como publicar uma foto no Facebook, mas a questão é: eu deveria publicar esta foto no Facebook sem a permissão de todas as pessoas envolvidas? E essas coisas ainda não são ensinadas nas escolas, mas deveriam.

CE: A senhora acha que é possível aprender Inglês por meio da educação a distância?
NH: Absolutamente. Nós já fazemos o treinamento de professores de língua 100% online, mas não ensino de língua. Veja, são duas coisas diferentes. Em termos de treinamento docente, pode ser muito eficiente. Mas também pode ser malfeito, tudo depende do design da plataforma, do conteúdo, de como as tarefas são programas, entre outras coisas. Já vi boa aprendizagem online e já vi péssima aprendizagem. No ensino online de línguas, o grande desafio é a fala. Como você pratica sua fala em um ambiente online? Hoje, com a popularização das videoconferências esse tipo de problema tornou-se mais solucionável. No Peru, por exemplo, tem uma universidade onde o curso de inglês já é totalmente online. E para driblar a questão da fala, os alunos têm semanalmente 1h30 de sessões de videoconferência.

CE: A senhora é a favor do uso de celulares em sala de aula? Em sua opinião, celulares podem ser usados como ferramentas educativas para o ensino de línguas?
NH: Sou absolutamente a favor. Até porque eles já estão dentro da sala de aula, queiram ou não. Os jovens já levam esses dispositivos para a escola e proibi-los é nadar contra a maré. Os professores gastarão energia lutando contra uma coisa que, na verdade, poderia ser usada na aprendizagem, a favor deles. Eles só precisam ser treinados para saber usá-los de forma proveitosa. Tem uma atividade bastante simples que eu faço usando o celular dos alunos que é uma atividade de conversação. Em pares ou em grupo de três, eles têm de escolher algumas fotos de seus celulares, como foto com amigos, familiares, em uma viagem, comemoração, e compartilhar com os outros integrantes. E isso gera uma conversação sobre a foto. Ou seja, o foco não é o dispositivo tecnológico, mas a língua. O celular é usado apenas como uma maneira de tornar a atividade mais interessante, próxima dos estudantes.

CE: Com todas essas possibilidades, por que a tecnologia ainda não mudou a educação? Refiro-me desde à configuração das salas até a dinâmica das aulas.
NH: Eu não sei se a tecnologia deveria mudar a dinâmica da educação. Talvez nós estejamos fazendo a pergunta errada aqui. Para mim, a tecnologia não é o agente, o condutor, é um elemento secundário, uma ferramenta. Os professores e alunos que são os agentes e se você quer reconfigurar o espaço da escola, da educação, tem de fazê-lo a partir desses dois elementos, não da tecnologia. Nós tendemos a pensar na tecnologia como a solução para a escola e não é. A tecnologia, por si só, não vai resolver nada, ela pode ser bem ou mal usada. Tem uma frase que eu gosto muito que é “um tolo com uma ferramenta é ainda um tolo”. E é isso, a tecnologia tem um potencial incrível, mas requer um contexto. Reconfigurar o espaço de ensino pode ser um modo de fazê-lo, mas que seria mais eficaz se houvesse uma mudança na atitude educacional. Hoje, temos um professor que fica na frente da sala e passa a informação para o aluno e estamos fazendo exatamente a mesma coisa só que com tecnologia.

CE: Como a senhora avalia o ensino de inglês ao redor do mundo? Há um país que apontaria como referência?
NH: É muito difícil comparar. A Escandinávia é famosa pelo fato de seus habitantes falarem perfeitamente o inglês. E a Holanda, por exemplo, não tem escolas particulares de língua: o nível de inglês deles é tão alto quando saem da escola que não há clientes para isso. Mas o contexto desses países é tão completamente diferente que fica impossível compará-los, por exemplo, ao Brasil ou à Espanha. Mas, acho que uma coisa que podemos afirmar é que, em países onde a carreira de professor é uma ocupação de prestígio, o nível educacional tende a ser melhor, inclusive em inglês. Porque a profissão atrai os melhores alunos, os mais brilhantes. Especificamente no caso da Finlândia, por exemplo, onde a docência é considerada uma profissão de muito status, é muito bem paga, e isso se traduz na proficiência em inglês dos finlandeses.