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Os estudantes que estavam na ocupação do Centro Paula Souza foram para a Escola Técnica Estadual de São Paulo, próximo a Estação Tiradentes,na Luz

A desocupação do Centro Paula Souza, alcançada pela Polícia Militar depois de conseguir derrubar o veto a armas letais e não letais para executar o mandado de reintegração de posse na manhã desta sexta-feira 6, não esvazia o movimento secundarista. A análise é feita pela estudante Nicole Hernandez, 15 anos, esteve na ocupação do centro administrativo das escolas técnicas estaduais de São Paulo desde quinta-feira, 28, quando teve início o recente levante estudantil.


Aluna na Etec Guaracy Silveira, ela explica que os estudantes cansaram de se sentirem “famintos” e darão continuidade a ocupações até conseguirem alimentação com alto valor nutricional. “Queremos merenda, mas não só bolacha e barrinha de cereal, queremos um almoço decente pra quem fica o dia inteiro na escola e uma janta digna pra quem fica a noite”, disse em entrevista ao Carta Educação. “Não ficaremos calados perante a precarização da educação pública

Carta Educação: De que maneira a desocupação do Centro Paula Souza, na manhã desta sexta-feira 6, esvazia o movimento secundarista?

Nicole Hernandez: Quando há reintegração de posse, alguns vão embora por medo, outros por terem pais pedindo, e há quem vá embora por ser maior de idade e temer ser responsabilizado de alguma maneira.

Mas acho que a desocupação no Paula Souza não esvaziou o movimento, até porque quem estava ajudando lá com certeza estará disposto a ocupar outras escolas e expandir o levante. Na quinta-feira 5, à tarde, por exemplo, houve a ocupação da Diretoria de Ensino da Zona Oeste. Então, quem estava na ocupação vai ajudar a luta em outros lugares.

CE: As reivindicações de hoje têm relação com as ocupações do ano passado?

NH: As ocupações do ano passado e deste ano têm pautas diferentes: este ano é a merenda, e no ano passado, as reorganizações. Mas acho que desde o ano passado esse jeito de reivindicar através das ocupações ficou mais conhecido, então muita gente que não conhecia e nunca teria pensado nisso passou a cogitar participar delas. E, apesar de serem pautas diferentes, as ocupações de 2015 e de agora reclamam de condições de escolas estaduais que estão muito precarizadas. Por isso, muitos dos alunos das ocupações de hoje também participaram das do ano passado.

CE: Como você participou das ocupações contra a “reorganização escolar” no ano passado? Sua família apoiou a luta?

NH: No ano passado eu ia todos os dias para ajudar a resistência na Escola Fernão Dias, em Pinheiros. Meus pais apoiavam, mas ficaram preocupados por eu ter dormido uma noite lá. Neste ano, por serem pautas mais ligadas às Etecs, eu me comprometi a dormir na ocupação todos os dias. Então, foi diferente. Minha mãe não está falando comigo, mas meu pai fica como “mediador” de tudo. Acho engraçado a minha mãe apoiar muito a luta nas redes sociais, mas em casa me ignorar.

Secundaristas protestam contra suposto desvio de verbas para a merenda
Secundaristas protestam contra suposto desvio de verbas para a merenda (Foto: Marsílea Gombata)

CE: O que querem os estudantes? É só a merenda?

NH: Os estudantes ainda estão famintos! Queremos merenda, mas não só bolacha e barrinha de cereal. Queremos um almoço decente pra quem fica o dia inteiro na escola e uma janta digna pra quem fica à noite. Também pautamos os cortes absurdos nas escolas técnicas e também nas escolas estaduais. Mostramos que não ficaremos calados perante a precarização da educação pública.

CE: De que maneira os estudantes passaram a se ver depois de 2015 e como o movimento do ano passado os empoderou?

NH: Das ocupações do ano passado surgiram alguns núcleos de estudantes e fazíamos reuniões para falar sobre nossas próximas pautas. Muitas pessoas de escolas diferentes se conheceram e continuaram em contato. As ocupações do ano passado serviram pra que os estudantes se dessem conta da sua força.