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Ondjaki
"Sonho com essa coisa subjetiva que é continuar a ser escritor”

Vencedor do Jabuti na categoria Juvenil, em 2010, com Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, e terceiro colocado em 2014 com Uma escuridão bonita, Ondjaki é apontado como um dos mais promissores escritores africanos de língua portuguesa. Em entrevista a Carta Educação, o autor falou sobre o processo de escrever para crianças, seus tempos de escola e as relações entre Brasil e Angola.


Carta Educação: Como é o processo de escrever para o público infanto-juvenil?
Ondjaki: Acho que são as estórias que ditam o rumo e os objetivos de cada livro. Nunca sei bem, na altura de começar, a quem me dirijo. Nem sei se isso é importante. Se um livro servir a todos os públicos e a várias idades, então fico muito satisfeito. Nem sempre é possível. Para mim, por vezes, quando escrevo para crianças muito pequenas, tento adaptar um pouco a linguagem às crianças, mas nem sei se isso é boa ideia. Ainda estou a aprender a escrever para os mais novos. Escuto-os, falo com eles, gosto muito de ouvir as crianças. Portanto também escrevo alguns livros infantis para poder estar com as crianças ou mais perto delas. Faz sempre bem aos adultos estarem perto de crianças. É com elas que bebemos doses mais puras de futuro.

CE: De onde vem essa imagem protagonista da criança?
O: Vem da necessidade literária de contar uma estória. Descobri esse “jovem narrador” pela primeira vez no livro “Bom dia camaradas”, e de vez em quando sou visitado por ele. Não é um narrador totalmente isento, pois traz na sua voz algumas convicções, alguma pureza, alguma inocência mas também um olhar atento e certeiro. É um olhar magnífico que serve para contar estórias de um modo que só aquela idade permite. Será, talvez, um falso olhar, como todo e qualquer olhar puramente ficcional.

CE: Como foi seu tempo de escola?
O: Lembro-me, como qualquer criança, dos tempos felizes de escola. Das brincadeiras, das coisas políticas de uma Luanda dos anos 80, de todas as minhas queridíssimas professoras de Língua Portuguesa. Lembro-me sempre com muito carinho dos camaradas professores cubanos que nos ensinavam sobre a escola e sobre a vida com um carinho muito aberto e uma visão que, sendo política, era também poética e arejada. Não sei se gostava da escola, mas gostava das pessoas que lá estavam, os professores e os colegas.

CE: O senhor sente que há um estreitamento entre as relações literárias Brasil-África?
O: Eventualmente, sim, e também devido ao esforço feito pelos recentes governos brasileiros de incluir conteúdos e temáticas africanas no ensino público brasileiro. Essa forma de divulgar a origem histórica do Brasil e também de inserir conteúdos africanos na formação das crianças brasileiras poderá dar frutos muito interessantes num futuro próximo. Esses frutos é que serão importantes. Não pela divulgação da nossa História ou literatura, mas pela tomada de consciência da juventude brasileiras de que as suas origens vão além das “fronteiras habituais” que antes conheciam ou estudavam.

CE: Em entrevista a União dos Escritores Angolanos, o senhor disse querer que as pessoas não se afirmem como escritores africanos mas como escritores simplesmente. O que quis dizer com isto?
O: Vivemos um mundo repleto de rótulos. Cada escritor reúne em si um mundo, uma ideia, um fluxo, uma espécie de rio já sem margem e cheio de correntezas que correm ao contrário do que se espera. Então a literatura de cada escritor começa dentro de si, não começa na sua geografia nem na sua nacionalidade.

CE: Está trabalhando em algum novo livro?
O: Estou a sonhar com livros que ainda não escrevi. E com cidades que ainda não conheci. Trabalho um pouco na poesia já escrita e reescrita. Trabalho em projetos infanto-juvenis. Sonho com essa coisa subjetiva que é continuar a ser escritor.