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Mapas do corpo
André Trindade, autor do livro "Mapas do corpo: educação postural de crianças e adolescentes"

No contexto da sala de aula, não raro gestos e outras manifestações corporais são interpretados como um desrespeito. Basta pensar na reação de um professor ao se deparar com um aluno abrindo os braços e se espreguiçando vagarosamente.


Se na Educação Infantil a consciência do corpo e a descoberta dos movimentos são incentivadas, tais dimensões praticamente desaparecem com a chegada do Ensino Fundamental. “É como se ninguém mais lembrasse que o corpo existe, que precisa ser reconhecido, habitado, vivido”, aponta o psicomotrista e psicólogo André Trindade, autor do livro Mapas do corpo: educação postural de crianças e adolescentes (Summus Editorial), que será lançado ainda este mês.

Com mais de 25 anos de experiência na área, Trindade fala sobre a necessidade de alinhar as experiências e linguagens vivenciadas por meio do corpo, do movimento e da postura ao cotidiano das crianças e jovens.

Carta Educação: Como o senhor começou a se dedicar ao estudo da educação postural de crianças e adolescentes, resumido no seu livro Mapas do Corpo?

André Trindade: O livro é fruto de um trabalho que eu comecei em 1997 a convite de uma escola particular de Educação Infantil de São Paulo. Já naquela época a escola enfrentava três questões importantes. A primeira delas era a própria desorganização postural das crianças e uma agitação física. O segundo ponto era a falta de concentração que elas demonstravam e, por último, a questão da violência. Essa escola, apesar de bastante tradicional, buscava no movimento uma solução para esses problemas. Neste momento, iniciei um trabalho que levou muitos anos dentro dessa instituição e, depois, se estendeu para outras escolas. Um trabalho experimental a partir do qual construí uma metodologia.

CE: O que é a educação postural e qual sua importância?

AT: A educação postural é fundamental. Por exemplo, não é óbvia a associação entre atenção e organização corporal porque imaginamos a primeira como algo de natureza exclusivamente neurológica, separada do corpo. Mas isso não é verdade: o estado de concentração da pessoa depende diretamente de uma atitude física, de uma postura do corpo. Se eu tenho uma coceira ou um mal-estar, bem como se há barulhos externos e outras distrações, meu foco e meu interesse se dissipam. Logo, toda essa interferência precisa ser filtrada e a nossa atitude corporal funciona como esse filtro. O controle do meu corpo influencia o controle do meu foco. É como nos esportes. Antes de uma partida ou prova, o esportista se concentra com o corpo, se prepara por meio de uma massagem de relaxamento, um alongamento e outras sequências que garantem sua performance. O mesmo deveria valer com as crianças em sala de aula.

CE: De que maneira?

AT: No espaço da sala de aula, o aluno precisa assumir uma atitude física condizente. Precisamos ensinar a criança como se senta, por exemplo, mas isso é só uma parte do aprendizado e que, muitas vezes, só acontece como correção. A educação do corpo é muito mais ampla. O problema é que as aulas estão muito engessadas. Espera-se que a criança passe quatro, cinco horas consecutivas sentada em uma carteira e consiga manter seu estado de atenção. Isso em uma fase de crescimento, ou seja, que precisa do gesto, do movimento para desenvolver seu lado motor. E qual é a resposta da criança para tanta contenção? Primeiro, há um deslocamento para a desatenção, para o mundo da imaginação. Outra resposta é a agitação, então, aquela coisa da criança não conseguir aquietar-se na carteira, naquele espaço. E, claro, também começam a falar sem parar.

movimento

CE: Então podemos dizer que, em parte, a questão da indisciplina se relaciona com essa contenção do corpo?

AT: Em parte sim. Se na Educação Infantil vemos ainda a presença do movimento, a partir do Ensino Fundamental, no entanto, é como se ninguém mais lembrasse que o corpo existe, que precisa ser reconhecido, habitado, vivido. Nessas quatro horas que o aluno está na escola, ele precisa de intervalos de regeneração. Os espaços dos recreios são fundamentais, mas são muito curtos. Então a cada duas horas é perfeitamente possível convidar os alunos a ficar de pé ao lado da carteira, fazer um exercício de respiração, de movimento, se espreguiçar de forma coletiva. Porque se o aluno faz o gesto individualmente soa como um desrespeito. O corpo é um grande instrumento para o educador, mas observamos que eles não têm essa formação, esse conhecimento. Agora, é importante dizer que o corpo da criança e adolescente é patrimônio da criança e adolescente. Isto quer dizer que podemos convidar, propor atitudes, mas se um adolescente quiser sentar errado, por exemplo, é um direito dele. Ninguém é dono do corpo do outro.

CE: O senhor poderia dar exemplos de atividades que estimulam o corpo e que podem ser desenvolvidas em sala de aula?

AT: Um exemplo importante e muito simples é a automassagem. Nós não ensinamos as crianças a se tocar. E não é nada que requer muito esforço. Basta pedir para todos os alunos sentarem, pegarem na perna, torcê-la para dentro e depois para fora. Os alunos estão com os braços cansados? Então o professor pode sugerir que, com a mão direita, o alunos faça uma massagem no braço esquerdo e vice-versa. Há também os exercícios de respiração e uma das propostas presentes no livro é, por exemplo, simplesmente sentar na ponta da cadeira e pressionar os pés no chão. Isso ativa a circulação dos membros, volta a atenção da criança para seu corpo e traz um momento revigorante. Fora isso, também não é difícil, de tempos em tempos, afastar as carteiras e propor atividades de movimento em grupos que perpassem jogos, caminhada, contato entre eles. Enfim, são muitas as propostas contidas no livro e todas são ilustradas também por mim. Como o movimento é muitas vezes difícil de descrever, a imagem transmite muita informação.

CE: O conhecimento do corpo sempre foi negligenciado ou é algo mais recente, consequência do sedentarismo da vida moderna ?

AT: O que a gente observa é que existe uma relação entre o brincar livre e o aprender sobre o corpo. Como o brincar livre perdeu espaço por conta de uma série de motivos, entre eles a falta de segurança dos espaços públicos e a ocupação do mundo virtual com a internet e os jogos eletrônicos, aquela criatividade com o corpo se perdeu também. Aquilo que outras gerações experimentaram brincando na rua ou fazendo dos galhos uma espada e assim por diante ficou de lado.