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Os quatro anos seguidos da Finlândia à frente do Programa Internacional de Avaliação de Alunos fazem a chefia do Ministério da Educação local parecer o melhor emprego do mundo. Afinal, o ensino no país é gratuito (e os 2% particulares são subsidiados pelo governo) até no Ensino Superior, os professores possuem mestrado e recebem salário superior a 3 mil euros (cerca de 9 mil reais) e as diferenças de desempenho entre as escolas locais são as menores do mundo.


Porém, o dicionário de Krista Kiuru aparentemente ignora o vocábulo “tranquilidade”. Titular do Ministério da Educação da Finlândia desde maio deste ano, ela conta, com ironia, que, “no dia seguinte (ao da publicação dos resultados do Pisa), em vez de dar os parabéns ao governo, todos os jornais caíram em cima de nossas cabeças, perguntando como e quando seriam resolvidos os desafios que ainda restam”.

Em visita ao Brasil para discursar no Congresso de Educação Bett Latin America 2013, Krista falou sobre as características do modelo finlandês, as razões de seu sucesso, o Plano Nacional de Digitalização, que vai disponibilizar aos alunos todo o conhecimento finlandês em tempo real, e os desafios que ainda restam para a maior potência mundial no ensino.

Carta Fundamental: A senhora mencionou que a opinião pública finlandesa não focou os excelentes resultados no Pisa, mas sim os obstáculos ainda a superar. Quais são eles?

Krista Kiuru: Muitos pensam que tudo na Finlândia é perfeito, mas temos nossas dificuldades. Uma delas é a segregação, um problema crescente. Apesar de não recebermos grandes contingentes estrangeiros, há migrações de zonas rurais para as grandes cidades. E as pessoas ainda têm restrições. Assim, aspectos que envolvem a dinâmica de migração, como desemprego e violência, afetam também a vida escolar. Para termos certeza de que o sistema está funcionando, ou seja, de que todas as crianças estão aprendendo nas mesmas intensidade e qualidade, precisamos combater a discriminação e dar suporte ainda maior a essas pessoas.

CF: Qual a importância da igualdade nesse processo?

KK: É a base de nosso sistema e também o nosso maior desafio. Acreditamos que sociedades igualitárias, nas quais todos são altamente educados, se dão melhor. A isonomia baseia todas as nossas conquistas recentes e motiva um eterno autoquestionamento. Para nós é muito valioso priorizar a educação no mesmo nível para cada criança, não importando quais as suas dificuldades, e garantir que todas as escolas, mesmo aquelas nas áreas mais remotas, tenham o mesmo nível de qualidade.

CF: E como é possível dar tal atenção isonômica e individualizada?

KK: O mais importante é acabar com os “becos sem saída” no sistema. Isso significa que os alunos mais fracos devem ser o foco da atuação e do esforço dos professores e de outros profissionais envolvidos. Eles não podem de forma alguma ser frustrados a ponto de abandonar os estudos. Outra demanda é não permitir que as salas de aula fiquem excessivamente cheias. São, em média, de 15 a 25 alunos por sala e, em tempos de crise, a tentação é, em vez de criar novas escolas, colocar mais um naquela sala, depois mais um, depois outro…

Se o professor tiver muitos alunos sob sua guarda, não poderá garantir esse suporte equânime e individualizado. Também precisamos pensar nas crianças com deficiências ou carências intelectuais. Na Finlândia, quase todas acompanham as aulas junto dos colegas “normais”. Hoje há muitas questões referentes às ADDs (desordens de déficit de atenção ou de hiperatividade). São temas importantes sob o ponto de vista de que a isonomia é a regra.

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CF: Qual a influência de recessões econômicas sobre o sistema?

KK: É sempre preciso defender com unhas e dentes os investimentos em educação e, em tempos de crise, há muitas conversas sobre redução de gastos. Sim, precisamos fazer alguns cortes, mas não há muito para onde correr. Em educação, não há margem para cortar gastos sem que isso resulte em perda de qualidade. Está mais que provado o quanto 1 milhão de euros a mais ou a menos faz diferença nas salas de aula.

CF: Tempos de crise influenciam de alguma forma as demandas educacionais?

KK: Recessões são, individualmente, muito duras de enfrentar porque geram desemprego, o que, por sua vez, demanda reciclagem profissional. Eis mais um motivo para investir em vez de reduzir gastos. Tivemos mudanças estruturais muito significativas na indústria finlandesa desde 2008. Após essa reforma, as demandas por trabalhadores qualificados cresceram e mudaram.

Se a sua loja, por exemplo, fechou por causa da recessão, será necessário aprender a fazer outra coisa. Essa também é uma grande preocupação nossa. Além disso, concordo quando dizem que os trabalhadores do pós-crise deverão se preocupar não só em ter bons empregos, mas em criar bons empregos. Isso também guarda relações com a demografia.

CF: Dar autonomia ao professor parece um princípio muito importante no sistema finlandês. Na prática, como isso se manifesta?

KK: Nós confiamos em nossos professores. São profissionais que têm mestrado, precisam de muita qualificação, cinco ou seis anos de estudo para, afinal, gerenciar uma sala de aula. Por confiar em seu profissionalismo é que não os avaliamos, nem sequer os testamos regularmente. Acreditamos que suas qualificações são suficientes, confiamos em suas habilidades e temos certeza de que serão bem-sucedidos na missão de educar alunos e cidadãos. Por isso, evitamos pressioná-los. Trata-se de um valor caro à nossa sociedade. Em vez de focar em uma contabilidade baseada em notas, apostamos numa relação de confiança e responsabilidade.

Também confiamos que o nosso currículo nacional é suficiente. Por isso, priorizamos deixar os docentes livres para irem além do básico. Acredito que inovação e criatividade são os elementos que levam alunos e professores mais longe. Por isso criamos instrumentos para que cada um desenvolva suas melhores habilidades e estimulamos a autonomia dos nossos professores para ensinarem o que quer que lhes pareça interessante fora da jornada básica. Eles são encorajados a desenvolver habilidades diversas em sua formação, para depois serem capazes de contemplar a individualidade dos alunos.

CF: E como é medida a qualidade do ensino?

KK: Não precisamos aferir o aprendizado dos nossos estudantes a cada minuto, a cada mês, nem mesmo a cada ano. Não temos avaliações nacionais massivas e não estimulamos a competição entre os alunos, mas sim a colaboração. Cada pessoa tem seu próprio talento e todos podem ganhar muito com a escola se ela contemplar a variedade de habilidades humanas. Isso nos permite usar todo o potencial dos nossos jovens.

CF: O Brasil discute neste momento a viabilidade da jornada integral desde os níveis básicos. Qual a sua opinião sobre a importância do período integral na educação?

KK: Não temos evidências factuais, e só posso falar sobre o nosso contexto, pois o que funciona melhor na Finlândia não necessariamente vai funcionar em outros lugares. Por isso evitamos dar conselhos ou fazer comparações.

Mas acreditamos que menos é melhor. Não temos escolas em tempo integral, pelo contrário, a jornada é curta, de quatro a sete horas, os alunos não têm muita lição de casa e até mesmo a quantidade de dias letivos é menor do que em outros países. O jeito finlandês é focar no conteúdo. Podemos ter os mesmos resultados com menos horas (de estudo). Creio que o foco dos governos deveria ser sempre o conteúdo do ensino, e não sua duração.

CF: E como o país lida com o emprego de tecnologia em sala de aula?

KK: Essa é uma questão central. Como extrair mais do mundo digital em benefício da escola? Vivemos em uma sociedade que se beneficia todos os dias das possibilidades da tecnologia em casa, no trabalho e na vida pessoal, mas as escolas não reagem tão rapidamente a esse tipo de evolução. Precisamos fazer com que as nossas crianças apreciem a escola e, para isso, a tecnologia é indispensável. Por exemplo, permitindo a visualização de objetos em três dimensões ou oferecendo jogos educativos. Essas ferramentas não são apenas de entretenimento.

Eu adoraria que os nossos professores pudessem se beneficiar mais efetivamente dessas possibilidades. Para fazer isso, porém, precisamos de uma nuvem compartilhada entre professores, estudantes, pais e especialistas. Estamos agora mesmo desenvolvendo um Plano Nacional de Digitalização para reunir todo o material que tivermos, desde acervos de bibliotecas até pesquisas, jogos, redes de contatos. Enfim, tudo. Seremos um dos primeiros países a terem uma plataforma dessa natureza. Eu tenho convicção de que esse é o trabalho no qual mais vale a pena investir, pois tem tudo a ver com a adequação do papel do professor ao século XXI. Mas é essencial que esse acesso seja equânime para todos os estudantes do país.

CF: Se tivesse de escolher uma única razão para justificar o sucesso finlandês, qual seria ela?

KK: Só temos sido bem-sucedidos porque acreditamos piamente que a educação é a chave para o crescimento de que a sociedade precisa. Em especial para a produtividade econômica. Além disso, que melhor herança podemos deixar para as próximas gerações? Acho que todos na Finlândia concordam que é a educação. O futuro da nação está agora mesmo em nossos bancos escolares. Devemos sempre fazer com que a próxima geração seja melhor do que a nossa.