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Albury
Para britânico, formação docente no Brasil carece de experiência prática

Como transformar sistemas educacionais de modo a ensinar aos alunos as capacidades e habilidades realmente indispensáveis para o século XXI?


Mais: como fazer isso em um país que passa por uma crise econômica e política e, há anos, convive com a escassez de professores bem formados?

Para o britânico David Albury, diretor da Innovation Unit e especialista em desenvolvimento e implementação de estratégias de transformação em educação e serviços públicos, a resposta dependerá de como os governos estão lidando hoje com o estímulo à inovação radical e sua difusão.

Neste cenário, diz, o Brasil pode estar melhor do que imaginamos. Durante os últimos três anos, Albury liderou o apoio da organização internacional Global Education Leaders’ Partnership (GELP) ao Brasil, auxiliando a implementação de estratégias educacionais em fundações, estados e municípios a fim de reverter o baixo rendimento dos estudantes e, segundo ele, há muitas iniciativas interessantes acontecendo por aqui.

“É preciso apontar que o Brasil tem resultados significativamente melhores com custos significativamente menores. O País tem mais inovação educacional do que qualquer outro da América Latina”, diz.

Em visita a São Paulo, onde participou do seminário “Liderança e Inovação na Educação”, promovido pela Fundação Santillana, o especialista falou sobre os desafios para a implementação de uma educação de qualidade alinhada aos novos paradigmas tecnológicos e sociais.

Carta Educação: Uma das coisas que o senhor aponta como um desafio para a educação no Brasil é o fato de ainda termos poucos professores qualificados em sala de aula. Qual é o caminho para mudar esse cenário? Valorização salarial?

David Albury: Eu acredito que muitos problemas que temos hoje venham da questão do salário, da remuneração dos professores. Mas eu também acho que há algo que precisa mudar fundamentalmente na formação dos docentes. Pela minha experiência, vejo que o treinamento e o desenvolvimento dos professores na maior parte do Brasil é muito acadêmico, ideológico e teórico. Não foca suficientemente na pedagogia, na prática da sala de aula. Então, os professores aqui saem da universidade sabendo muito sobre as teorias da educação, mas não muito sobre a prática. Parte do que precisamos fazer para mudar esse quadro é reorientar não só a formação inicial dos professores como também a formação continuada para que estas deem conta desse aspecto pragmático. Acho que esse seria um bom pontapé inicial.

CE: O senhor também colocou que precisamos dar mais voz para os alunos. Os professores não costumam ser resistentes a isso?

DA: Tenho consciência que estas são mudanças difíceis de se fazer, por isso, precisamos apoiar os professores para que eles se sintam confortáveis em permitir que os alunos tenham mais voz, tenham mais o que dizer sobre o direcionamento da sua aprendizagem. Precisamos ajudar os professores a mudar de papel, sua identidade em sala de aula, de maneira confortável. Eu sei que isso é difícil, mas para mim educação é sobre as necessidades das crianças, então nós temos que possibilitar que elas expressem suas necessidades se queremos criar um ensino e uma aprendizagem realmente poderosos. Não é que nós queremos nos livrar dos professores, de maneira alguma. É sobre criar uma relação diferente entre alunos e professores, uma espécie de parceria. Os bons exemplos de escolas que eu dou em minhas palestras geralmente são de instituições onde os professores sentem que estão aprendendo com as crianças tanto quanto estão ensinando. Todos somos aprendizes e todos devemos aprender nesse processo.

CE: E qual é o novo papel do professor dentro da educação do século XXI?

DA: Acho que o professor tem que ser capaz de trabalhar com a criança de modo a “alongá-la” o máximo possível. Tem que ser capaz de continuar desenvolvendo seus talentos e potenciais a fim de expandir nessa criança suas habilidades e conhecimentos. Mas tudo isso começa nas necessidades, interesses e motivações dos estudantes, começa a partir de onde esses estudantes estão. Não se trata de dizer “faça essa disciplina e daqui 10 anos você será um grande jornalista”. Trata-se de pensar quais são os problemas e dificuldades que estou enfrentando agora na minha vida e como eu posso superá-los. Estudantes realmente se engajam quando estão diante de algo que os deixam entusiasmados. Eles só vão aprender um monte de matemática, línguas, entre outras coisas, se estão realmente engajados. O professor tem o papel de ajudá-los a entender e acessar esse conhecimento e essas experiências e também de fazer estas informações ganharem sentido para eles. É um papel fantástico e rico que o professor assume dentro dessa educação para o século XXI.

CE: Nas escolas públicas brasileiras, temos muitos alunos por sala. Como este modelo de ensino personalizado funcionaria diante dessa realidade?

DA: O que eu vejo pela minha experiência ao redor do mundo é que algumas crianças aprendem muito rápido e outras levam um pouco mais de tempo. Então, as crianças que aprendem muito rápido podem ser professoras daquelas crianças que não aprendem tão rápido assim. Do mesmo modo que eu disse antes que todos são aprendizes, todos podem ser também professores. Entre outras coisas, podemos criar esses pares de aprendizagem de alunos-alunos.

CE: Outro desafio importante é como usar a tecnologia na escola de modo a transformar de fato a dinâmica das aulas. É comum vermos redes, escolas comprando tablets e computadores, mas utilizando-os como apoio para o mesmo modelo tradicional. Como fazer essa mudança?

DA: Eu sou um grande fã de trazer várias tecnologias para a educação. Fico muito apreensivo quando escuto pessoas falando que é preciso criar uma “política” para o uso de tecnologia na escola. Porque o que você precisa é de uma política de como encorajar a penetração da tecnologia na educação. Como você cria inovação a partir da tecnologia? Não é esperando que a tecnologia chegue com a solução para seu problema. É trabalhando ao seu lado para pensar um propósito efetivo para seu uso.

CE: O que acontecerá com o Brasil se não fizermos essa transição tecnológica?

DA: Primeiro, o País afundará ainda mais no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes]. Mas o mais importante: eu acho que vocês terão cada vez mais jovens raivosos, pois eles se sentirão cada vez mais desengajados de sua sociedade e economia e o Brasil, provavelmente, não conseguirá se tornar uma grande economia mundial.