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Maurício Maia

Sobral, no interior do Ceará, tornou-se nacionalmente conhecida pelos resultados extraordinários em educação na última década. Com problemas comuns à maioria dos municípios, a cidade saltou de Índice de Educação Básica (Ideb) 4, em 2005, para 7,8, em 2013, e cada uma das 30 escolas da rede já está, com folga, acima da meta 6 prevista para o Brasil em 2021.


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Um programa implantado lá no início do milênio para que todas as crianças fossem alfabetizadas nos primeiros dois anos de ensino ficou famoso ao ser adotado por todo o estado em 2007 e depois inspirar o Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), implantado em todo o Brasil em 2012.

O pedagogo Maurício Holanda Maia, atual secretário de Educação do Ceará, também foi secretário de Sobral em 2003 e 2004 e hoje usa as experiências para tentar diminuir dicotomias comuns em gestão educacional. Entre mais formação de professores ou mais estrutura nas escolas, ele diz que “são as duas coisas e nenhuma”.

Entre priorizar a formação de professores ou mudanças no currículo, afirma que ambas são “problemas reais, mas não principais”. Em sua prática, aponta o problema no “contrato frouxo” que se faz com os educadores e diz que resultados dependem das pessoas, mas estas só fazem o melhor a partir de um ambiente em que se sintam cobradas e amparadas.

Maia conta que ele próprio é fruto de uma aposta da mãe que caberia em sua definição de “contrato exigente”. Original de Varjota, mudou-se para Fortaleza no fim da infância por estratégia imposta pela matriarca, que viu no estudo dos filhos a única forma de sobreviverem depois da morte do pai. Deu certo: aos 92 anos, ela e os irmãos vivem sob a tutela do caçula, doutor em Educação e professor universitário. “As pessoas podem render muito mais do que elas se acham capazes”, diz.

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Carta Educação: Como o senhor se tornou educador?

Maurício Maia: Fiquei sem pai aos 7 anos, éramos pobres e ficamos mais. Nessa época morávamos em Morada Nova, interior do Ceará. Ficamos três anos mais e minha mãe disse: não dá mais para viver aqui. A única chance que vocês têm é o estudo, e isso só tem em Fortaleza. Vim como um matuto, um sertanejo com muito medo da cidade grande. Meus irmãos lentamente tiveram de parar de estudar para trabalhar e, como eu era o mais novo, fui sendo poupado. Escolhi fazer Pedagogia para sempre ter emprego. Acertei, aprendi um pouco de tudo e tive a base para continuar estudando.

CE: Como chegou à gestão de Sobral?
MM: Estive em Sobral pela primeira vez como professor da Universidade Estadual do Vale do Acaraú, em 1994. Durante esse tempo tomei contato com a rede. Acabei recebendo um convite para trabalhar na Secretaria de Educação do Estado, o que foi muito bom para mim, uma grande experiência de humildade. Eu era muito pretensioso e muito crítico, e achava que os governos não faziam as coisas direito porque não queriam ou porque eram incompetentes. Fui vendo gente comprometida, competente, e entendi que nada faziam por causa do contexto. Depois passei em um concurso e fui trabalhar no Ministério do Planejamento e no Instituto Nacional de Estados e Pesquisas Educacionais (Inep). Era uma espécie de conselheiro quando Sobral começou o Programa de Alfabetização na Idade Certa e assumi quando o secretário (Ivo Gomes) se afastou para ser candidato a deputado.

CE: Qual é o segredo de Sobral?
MM: O contrato de trabalho. Lá os professores não são mais bem remunerados nem têm formação mais elevada do que no restante do País, mas eles têm um ambiente de trabalho em que se sabe que se espera o melhor deles. E também sabem que a secretaria e a direção da escola estão empenhadas em dar as melhores condições para que possam trabalhar. Vou dar um exemplo: um começo de ano, chamei um diretor para questionar por que ele tinha colocado uma pessoa em uma turma de alfabetização se, no ano anterior, ela só tinha alfabetizado 20% da sua turma. A resposta dele foi: me responsabilizo. Ele já havia analisado e feito um trato com ela. Ele sabia que ia ser cobrado e cobrou também. Sabendo de tudo isso, ela se esforçou mais, foi mais apoiada por ele e, no fim do ano, tinha alfabetizado 100% dos alunos. Era a mesma professora, com as mesmas limitações e potencial, mas respondendo a um ambiente de trabalho completamente diverso, em que as pessoas confiam, mas também dizem o que precisa ser feito.

CE: O que o senhor acha da análise de que a formação do professor é falha no Brasil?
MM: Acho que, às vezes, nas discussões sobre a educação brasileira, estamos colocando muita energia e focando problemas que são reais, mas não são os principais. Existem problemas anteriores a esses. São os casos de currículo e formação de professor: as duas questões não se resolvem por si mesmas. Precisa antes mudar o status da escola no imaginário da população, dos alunos, dos pais e dos professores. Isso só acontece quando a gente consegue mudar a natureza das relações de trabalho.

CE: Como mudar?
MM: O melhor profissional do mundo, em um contrato de trabalho frouxo, ou com baixas expectativas, certamente não renderá tudo que pode. Pelo contrário, a tendência é que se adapte ao ambiente. A resposta psicológica racional é se acomodar. Agora, quando se tem um ambiente em que se espera muito de você, tanto no imaginário quanto nas regras, em que acreditam na capacidade dos alunos de aprenderem, na responsabilidade dos professores e quando há mecanismos para incentivar comportamentos virtuosos, as pessoas podem render muito mais do que até mesmo elas se achavam capazes. Em suma, o desempenho profissional não é resultado do indivíduo, mas do ambiente de trabalho. Alguns grandes heróis nunca se acomodam e vão sempre fazer diferença, mas a gente não pode melhorar só por conta destes. Tem de melhorar como conjunto.

CE: O senhor disse que se tornou mais compreensível em relação às dificuldades de implantação de políticas públicas, mas ao mesmo tempo proclama a necessidade delas. Por onde começar?
MM: Uma coisa importante é mudar o olhar. Ver o que acontece na vida real de pessoas reais. Quem frequenta todos os setores sabe que não consegue implantar lá na ponta coisas que imagina nas salas de reunião. Só ter essa consciência, de que o nosso pensamento não se realiza, já nos torna mais alertas e mais humildes. É ver a corrente, como as coisas se transformam na cadeia de transmissão desde a tomada de decisão, passando pelas medidas institucionais, até a realização na experiência concreta do professor e do aluno e ouvir quem está no dia a dia.

CE: Como se dá a formação dos professores em Sobral e no Ceará?
MM: A formação inicial dos professores cresceu imensamente no Brasil, no entanto, a performance dos meninos na escola pública, não. A gente precisa deixar de se iludir e ver o que são problemas formais e abstratos e o que são problemas concretos. Em Sobral e aqui em Fortaleza, nossa proposta é a formação em serviço e entre pares. O melhor formador de um professor é outro bom professor. Isso não é um discurso obscurantista de que teoria não importa. Importa muito, mas só tem validade quando dialoga com resultados relevantes.

CE: Como estimular os professores para que, de fato, se engajem em formação?
MM: É difícil imaginar mesmo como um professor pode estar estimulado a trabalhar se chega em uma escola onde predomina a anomia, o desrespeito, a agressividade, uma situação que vai da falta de consideração às ameaças físicas e verbais. Você imagina o que é trabalhar assim tendo feito graduação, especialização e sabendo que você ganha menos do que o resto das pessoas com a mesma formação? Por um lado, a Constituição brasileira e suas leis derivadas preveem a situação de você dispensar por desempenho insuficiente e, por outro, a acomodação dos professores deve-se ao ambiente. A gente também encontra professores concursados que chegam com todo gás e encontram um ambiente desestimulante e condições insatisfatórias para fazer o que eles querem.

CE: Então, seria necessário, primeiro, dar estrutura para que o professor trabalhe?
MM: É uma equação muito mais fina. Não dá para dizer: o problema da educação está nos professores, como tende a ser um certo discurso gerencial, nem dá para dizer que está nos governos, porque pagam mal e não dão as condições. Não é uma coisa nem outra, e são as duas coisas. A única forma de quebrar esse círculo de apontar o dedo para o outro é a gente fazer tratos mais responsáveis. Precisamos refazer o pacto com os professores de maneira que a gente reconheça as dificuldades e se comprometa a incrementar melhores condições de trabalho de forma gradativa. É complicado, mas as experiências de Sobral e do Ceará mostram que é possível. Ter uma escola pública ruim não interessa aos professores. Temos de quebrar esse círculo vicioso.

CE: O que o senhor acha da base curricular comum que se discute para o País?
MM: Em geral, na cultura brasileira, os agentes públicos pensam logo em fazer uma lei para depois buscarem as condições e as capacidades para cumpri-la. Não acho problema. Mas o que se faz é colocar muito esforço em temas que produzem estratégias pouco efetivas. Já tivemos muitas diretrizes. E parece que estão discutindo isso como se fosse a salvação do planeta. Tem de se levar em conta que existe uma cultura pedagógica historicamente construída no Brasil, que bebe na fonte da estrutura jesuítica de ensino com um verniz de tecnologia da década de 1970 e que os professores aprenderam assim, ensinam assim e os próprios alunos já têm essa cultura. Vamos olhar para as salas de aula e ver quais são os incrementos e os enxugamentos efetivamente necessários.

CE: Como o senhor vê outra dicotomia, entre mais dinheiro ou melhor gestão?
MM: A gestão pública brasileira precisa e merece ter mais recursos. Agora, qualquer que seja esse montante, deve ser mais eficiente. Temos a obrigação de pensar como é que a gente funciona melhor com o recurso dado, o que sempre é possível. Não gosto de dar receita, porque cada rede tem suas prioridades, deve-se olhar para os problemas e as soluções locais de cada estado e município, assim como de cada escola.

CE: Quais são as prioridades educacionais para Sobral e o Ceará?
MM: No caso de Sobral, o que temos conversado é que a meta de um município que já conseguiu Ideb de 7,8 no 5º ano e que todas as escolas têm Ideb maior que 6 não pode ser chegar a 10. Está na hora de incrementar, de trazer outras medidas. Precisamos abrir a pauta de Ciência, do currículo de formação do cidadão e da possibilidade de se experimentar cultura nas escolas. Agora, faz muita diferença realizar isso depois que se cumpriu a primeira tarefa, ou fazer isso de forma difusa, sem sequer ter-se dado conta do primeiro passo. No Ceará, ainda estamos caminhando no Fundamental, mas também quero dar espaço para o protagonismo do jovem no Ensino Médio, etapa em que focamos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

CE: O senhor concorda com as recentes propostas para reformular o Ensino Médio?
MM: Acho que a gente já tem o Enem como norteador. Não precisa mudar o nome das coisas, que estão aí há 50 anos. Os especialistas são todos de acordo com a ideia de que o currículo precisa ser mais enxuto, desde que diminuam as aulas dos outros e aumentem as deles. Cai na mesma questão que coloquei antes sobre a tomada de decisão e a vida real. Vamos tornar isso uma discussão mais racional e comprometida com a realidade que acontece todos os dias na sala de aula?

*Publicado originalmente em Carta Fundamental