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Cinema na escola
A lei determina exibição de duas horas mensais de conteúdo audiovisual nacional nas escolas

Uma alteração na Lei nº 9.394 passa a obrigar as escolas de todo o País a exibir ao menos duas horas por mês de produção cinematográfica nacional. O objetivo é que o cinema brasileiro passe a ser um componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica das escolas. Maria Dora Mourão, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP e presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca, falou a Carta Educação sobre os possíveis impactos da medida.


Carta Educação: Que efeitos essa norma trará para a prática pedagógica? Como o cinema pode adentrar a sala de aula?

Maria Dora Mourão: A intenção da lei é boa, mas a simples obrigatoriedade não é suficiente para que a proposta chegue ao resultado desejado. A questão fundamental é como a lei será aplicada. Há muitos anos vem sendo discutida a importância de oferecer ao jovem a possibilidade de refletir de maneira crítica sobre a produção audiovisual, principalmente a brasileira. Alguns projetos foram desenvolvidos, mas todos de maneira pontual, ou seja, não há uma política pública que trabalhe a questão de maneira mais contundente. Esta ação pode-se dar de algumas maneiras, por exemplo, inserindo uma disciplina de linguagem audiovisual na estrutura curricular das escolas, que poderia abranger tanto a realização propriamente dita quanto o visionamento de obras com o objetivo de desvendar a linguagem e ter uma postura crítica. Ou ainda através do uso de filmes e programas televisivos como instrumento de apoio ao ensino das disciplinas consideradas tradicionais.

CE: Essa exibição obrigatória poderá incentivar a produção cinematográfica nacional?

MDM: Sem dúvida a obrigatoriedade abrirá novas janelas de exibição para o filme brasileiro, mas para além do escoamento da produção, o que me parece importante é a possibilidade de criar no jovem o hábito de ver e, em consequência, de fruir e exercitar o pensamento de maneira qualificada. Ao mesmo tempo, estará adquirindo cultura e uma compreensão do mundo no qual está inserido.

CE: Que cuidados o educador deve ter na hora de selecionar os filmes?

MDM: Antes de tudo, o professor deve conhecer os filmes e a propriedade deles para os temas que serão abordados. Os filmes devem estar acompanhados de material informativo e reflexivo que auxilie o professor do ponto de vista pedagógico. Mas o ideal é que os professores possam ser orientados, através de cursos de formação no melhor uso dessa ferramenta. Deve-se entender que a exibição de filmes na escola não pode ser uma ação de mero entretenimento.

CE: A escola pode contribuir para o hábito de ver filmes nacionais?

MDM: Dou o exemplo da França, onde tradicionalmente o cinema e o teatro estão presentes nos ensinos Médio e Fundamental. Um dos resultados é despertar o jovem para essas artes e, em consequência, formar público para o cinema e o teatro de maneira geral, e para o francês em particular. A França é um dos que ainda conseguem ter por volta de 40% de espectadores para o filme desse país, apesar da pressão do cinema americano por ocupar a maioria das salas de exibição. Não acredito que haja uma fórmula possível de ser aplicada e que nos leve à maneira correta de criar hábito de ver cinema brasileiro. Obviamente, a sensibilidade e a postura do professor terão papel fundamental. Mas sabemos que o ambiente da escola não é suficiente, de alguma maneira a família tem de acompanhar essa ação.