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Paula Selli
"O museu como espaço público é aberto a todos, inclusive às crianças menores"

Foi a partir do nascimento do primeiro filho, em 2012, que a educadora Paula Hilst Selli, 36 anos, resolveu conjugar a experiência com a visitação de crianças ao Museu Lasar Segall, onde trabalha, com sua pesquisa acadêmica sobre o tema. Da união surgiu o projeto Bebês no Museu, cujo objetivo é levar para o espaço expositivo crianças de zero a 3 anos, ao lado de suas respectivas famílias.


Em 2014, o projeto foi reconhecido internacionalmente como uma das cinco melhores práticas educativas e culturais pelo Comitê para Educação e Ação Cultural do Conselho Internacional de Museus (Icom).

O prêmio agracia ações consideradas de referência para museus do mundo todo. “O bebê, como todo cidadão, tem o direito de estar no museu”, defende a autora da dissertação de mestrado Crianças, Museus e Formação de Público em São Paulo, submetida à Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em 2011.

Como o Lasar Segall está fechado para reforma desde dezembro de 2013, a equipe passou a utilizar outros espaços culturais para suas atividades, como a Casa das Rosas, onde foi realizado o seminário Bebês no Museu. Coidealizadora do projeto, Paula conversou com Carta Educação sobre as experiências e os desafios de se trazerem crianças pequenas e suas mães a espaços públicos de arte.

Carta Fundamental: Por que levar bebês ou crianças bem pequenas para museus ou galerias de arte? 

Paula Selli: O museu, como espaço público, é um lugar aberto a todos, e dentro disso estão também as crianças, inclusive as menores. Quando uma criança visita o museu com sua família, o que está em jogo não é só o acervo, mas também a relação do grupo familiar com esse espaço público.

CF: Como você começou a estudar o tema?

PS: Eu pesquisava em meu mestrado a relação das crianças com espaços museológicos antes de trabalhar no Lasar Segall, onde já havia estudos sobre o tema, projetos com crianças da Educação Infantil e ações para as famílias. Em 2012, nasceu meu filho, Iuri, e tirei de licença-maternidade sete meses. Isso mudou tudo, porque sempre gostei de trabalhar com educação e crianças, mas nunca tinha pensado sobre bebês. Durante a licença, não queria ficar em casa, então punha meu filho no sling (peça de pano para carregar bebês) e o levava para os lugares, frequentava grupos de amamentação, de mães, ia para o cinema. Existia essa vontade de pertencer a esses coletivos e de sair com o bebê pequeno.

CF: Você chegou a levá-lo a museus? 

PS: A primeira vez que saí sozinha, ele tinha 18 dias. Não lembro agora se cheguei a levá-lo a um museu, mas tinha isso de querer sair e, ao mesmo tempo, o receio de saber se haveria um ambiente legal, em que eu me sentiria à vontade com ele. Quando voltei a trabalhar, foi natural querer juntar a pesquisa que já acontecia no museu, meu trabalho pessoal e essa coisa nova que era o bebê e as mães. Interessava também a questão do acolhimento para essa mulher que está insegura, começando a sair de casa, mas que deseja sair do ambiente privado.

CF: A presença das mães e dos bebês choca o público? 

PS: São cidadãos invisíveis, tanto as mães quanto os recém-nascidos. As pessoas se chocam mesmo. Certa vez, fui a um grupo quando meu filho tinha 2 meses. Quando saímos do evento, resolvemos comer um lanche na padaria. Eram dez mães com bebês bem pequenos, a maioria tinha só 1 mês. Lembro até hoje de como as pessoas olhavam. Não era um olhar ruim, mas de surpresa, pois não estão acostumadas mesmo. Pensando nisso e em todas as outras coisas, por que não trazê-los para o museu? A cada ação que fazíamos vinha um número maior de visitantes e, na última, recebemos 80 pessoas.

CF: Como o Museu Lasar Segall começou a desenvolver ações especificamente com bebês?

PS: Trabalhamos há bastante tempo com crianças e famílias, mas ainda não havia um programa específico para bebês até o ano passado. Nessas ocasiões, percebíamos a demanda por ações para crianças menores de 3 anos, que muitas vezes vinham no colo ou com os irmãos. Existia uma vontade de visitar e também já havia essa discussão do museu para todos, que vem da política cultural envolvida na criação do Lasar Segall, pensado como um polo cultural da Vila Mariana. Então, se é para todos, é para os bebês e as suas mães também.

Bebê pintando com as mãos
Aspectos práticos, como infraestrutura para as mães, são necessários

CF: Que tipo de ação um museu pode fazer para acolher esse público? 

PS: Acreditamos que os espaços do museu e as exposições são para todos. Quando pensamos nas ações, pensamos na nossa equipe como facilitadores, em criar oportunidades e potencializar experiências. Assim, vamos usar o que o museu já tem no seu acervo artístico, nos seus espaços, na sua condição arquitetônica e trazer elementos extras, materiais, de acordo com o público que vamos trabalhar. Por exemplo, com os bebês, nós não queríamos trabalhar só no ateliê, mas também na sala expositiva, que era um desafio para nós. Só que o bebê, como qualquer cidadão, tem o direito de estar ali também. Como deixar a criança explorar o espaço livremente e ao mesmo tempo equilibrar com a conduta de segurança das obras? Buscamos materiais e propostas de interação que potencializassem essa relação com o espaço e com a obra e também que eles pudessem tocar. Por exemplo, trabalhamos com molduras com celofane dentro, que deixam a criança brincar com a visão e com a obra de arte.

CF: No Brasil, a prática de levar os pequenos para visitar museus é recente?

PS: Experiências com crianças menores já acontecem em vários museus há mais tempo. No entanto, a classe de educadores de museus ainda tem grande dificuldade com as crianças da Educação Infantil em comparação com as do Ensino Fundamental. Mas, apesar da dificuldade, já existem vários programas. Para os bebês, não. Quando começamos a fazer, percebemos que não havia notícia de outras experiências em São Paulo. Recentemente, a Casa das Rosas e o Museu de Arte Moderna (MAM) começaram a fazer. No Rio também existem exemplos, mas as ações para bebês nos espaços museológicos ainda são pontuais no País.

CF: De que maneira a inserção de bebês e crianças no espaço do museu pode contribuir para a formação do público? 

PS: Muitas pesquisas falam disso e acredito que as relações que se estabelecem na infância, a partir da família, valorizam a relação com o espaço. É logico que não vai acontecer tudo isso na cabeça de um bebê de 6 meses durante a visita a um museu, mas, talvez, se essa família se sentir acolhida, ela volte várias vezes. E o bebê vai crescendo, um dia terá 6, 10 anos, e se a família continuar voltando ao museu, esperamos que essa criança reconheça aquele como um espaço público em que ela possa agir.

CF: Quem eram os bebês e as famílias recebidos pelo museu? 

PS: Não é um grupo muito variado. Embora seja aberto ao público em geral, sabemos que quem traz sua criança é quem já frequenta ou gosta de museus. Nós gostaríamos muito de chegar a um espectro mais amplo de pessoas, mas sabemos que esse é um trabalho paulatino.

CF: Para o museu, qual é o maior desafio ao receber esse público?

PS: Para quem atua direto com a família e com as crianças, acredito que o maior desafio seja manter esse estado de estudo constante, não só de leitura de pesquisas sobre o assunto, mas também a partir da observação da criança. Outro desafio é ter essa calma para observar. A visita ao museu é um sucesso quando as pessoas se apropriam do espaço e dos elementos que ali estão de uma forma tão gostosa que, às vezes, o educador torna-se quase desnecessário. Para o museu, ainda há questões de infraestrutura: a existência de um fraldário, de uma rampa ou elevador para quem vem com carrinho de bebê e um treinamento para os funcionários, para que eles também possam ser acolhedores com esse público. A exposição sempre é um desafio, por causa das questões de segurança das obras, mas, ao mesmo tempo, é uma parte super-rica da experiência.

CF: O público de creche também pode participar da visitação, além dos bebês trazidos pela família?

PS: Por enquanto pensamos, para essa faixa etária, no público com a família, embora muita gente faça essa pergunta. Acreditamos muito nessa potência da relação da criança pequena com o museu a partir das relações familiares. Quando se trabalha com um grupo grande de crianças pequenas, para haver alguma segurança acaba existindo menos liberdade. Com a família, temos todos esses cuidadores com a gente. Para que haja a liberdade do bebê engatinhar na exposição para onde quiser, precisamos desses cuidadores.

CF: Qual dica você daria a um educador que trabalhe em museu e que gostaria de trazer bebês e mães? O que é essencial?

PS: Estar aberto para receber e olhar para essa criança quando ela vier ao museu. E também pesquisar a parte de infraestrutura. Por exemplo, uma coisa que não pode faltar durante as visitas de mães e bebês é água. Porque as mães que amamentam sentem muita sede. É uma coisa simples, mas que pode fazer falta. Os tempos também mudam. Não é uma visita em que todos andarão juntos. É preciso um respeito ao tempo desse conjunto bebê-adulto, que é diferente do nosso.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental