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Artur Avila
O matemático Artur Ávila, primeiro latino-americano a conquistar a Medalha Fields, prêmio considerado o Nobel da Matemática

O primeiro vencedor de uma medalha Fields a atuar no Hemisfério Sul, o brasileiro Artur Avila, de 35 anos, voltou ao trabalho no Instituto Nacional de Matemática Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, em agosto de 2014.


A premiação, comparável ao Nobel, reconhece, a cada quatro anos, os matemáticos de até 40 anos cujas contribuições tenham sido significativas para a matemática. Falando do Rio de Janeiro ,por telefone, ele ressaltou a importância do Impa para seu feito.

O instituto é responsável pela Olimpíada Brasileira de Matemática, campeonato que o atraiu para a área quando tinha 13 anos. Também é o único centro brasileiro em que jovens podem fazer pós-graduação antes da faculdade.

Avila terminou o doutorado com 22 anos. Depois, passou a ter dois cargos de pesquisador: um no próprio Impa e outro em Paris, no Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França.

Focado em seu trabalho, ele demonstra manter distância de temas que possam distraí-lo, mas está disposto a colaborar com quem planeja o uso de sua premiação para engajar mais pessoas com a matemática. Só não concorda que a Fields passe a ser uma meta para o País:

“Os objetivos são muito duros de dizer, são mais estruturais”. Segundo o pesquisador, o objetivo agora é avançar em outros centros de pesquisa e melhorar a educação em outros níveis: “A gente produz matemática de qualidade em certas áreas, mas não temos todas”.

Carta Educação: Em que medida a pesquisa brasileira em matemática contribuiu com sua medalha?

Artur Avila: Toda a minha formação básica foi no Brasil. A minha primeira formação nesse sentido foi feita no Impa, onde estudei até concluir o doutorado. Isso foi possível pelo trabalho continuado e bem-sucedido do instituto. É algo que já vem dando resultados desde os anos 90, quande eu comecei aqui, e mesmo antes. Um resultado de 50 anos de história da instituição. Depois de algumas décadas de dedicação de grandes matemáticos, chegou-se a produzir em um nível elevado, atraindo pesquisadores de fora de maneira que eu, tendo sido formado aqui, não me senti abaixo de ninguém formado em nenhuma instituição do exterior.

CE: Sua pesquisa no Impa envolve outros pesquisadores? Há estudantes que você orienta ou que agora poderão ter contato com seu trabalho?

AA: Trabalho muito em colaboração, é o mais comum. A maior parte das minhas publicações foi feita em conjunto e o mais comum é iniciar projetos em grupos de até quatro pessoas. Oriento em nível de doutorado no Impa. Meus alunos, às vezes, participam e meu trabalho pode ser uma parte da pesquisa deles. Ao mesmo tempo, tento levá-los a trabalhar por conta própria, não seria desejável que ficassem só em pequenas partes de um projeto já em andamento.

CE: Você já declarou ter interesse por outras áreas quando estudante e pensou em fazer Jornalismo. Qual o papel do professor para que os alunos descubram a área em que podem se realizar e contribuir mais?

AA: Eu tinha outros interesses, pensava no que valeira a pena investir e cheguei a pensar em jornalismo como uma maneira de participação na sociedade mais diretamente. Mas isso foi bem cedo, antes de realmente exercer matemática. As olímpiadas (Brasileiras de Matemática) foram decisivas, quando percebi que tinha uma inclinação muito forte. O professor tem de fazer o aluno saber das possiblidades existentes. Ele não pode identificar como o aluno vai ter mais sucesso, mas pode falar, por exemplo, que a matemática tem muitas áreas e também envolve criatividade.

CE: Você tem expectativas ou projetos relacionados à Educação Básica?

AA: Sou um pesquisador, é nisso que sou competente e vou continuar fazendo. Por outro lado, a impressão que tenho é de que a contribuição simbólica da medalha Fields pode ter consequências positivas para o Brasil. Também para a França, mas mais ainda para o Brasil, sede do Congresso Internacional de Matemática em 2018. Tem pessoas que pensam em como utilizar isso, eu creio que isso tem um efeito e estou disposto a participar, sem assumir um papel de pensar qual é a solução, mas ajudando com o que me pedirem.

CE: Como você vê o resultado do Programa de Avaliação Internacional de Alunos (Pisa), que coloca o Brasil entre os últimos em aprendizagem de matemática?

AA: Não sei exatamente como essas classificações são feitas e não tenho capacidade de falar do significado delas. Mas creio que seja notório que no Brasil existem muitos lugares onde os professores não são qualificados e os alunos não têm esperança de ensino.

CE: Quais as chances de termos outros brasileiros medalha Fields?

AA: Isso é uma coisa que não deve ser o foco de um país. Não comecei minha carreira com esse objetivo. Só passei a saber que a medalha existia depois. Um país tem de ter expectativas realistas. A Alemanha tem uma única medalha Fields. Tem país que não tem nenhuma, por exemplo, países do Leste Europeu, como a Romênia, com vários matemáticos muito bons. Tem de ter discernimento, ter noção de quão raro este evento é. Produzimos matemática de qualidade, isso nos coloca como pesquisadores em potencial, então a medalha não é uma coisa impensável. É algo que até não surpreende diante do que o Brasil vinha fazendo. Mas não creio que ter uma expectativa sobre uma medalha que é dada a cada quatro anos ajuda ninguém. Tem EUA, França e todo mundo para ganhar.

CE: E qual seria uma meta para se ter?

AA: Seria continuar produzindo matemática de qualidade, estender para mais áreas. A gente produz matemática de qualidade em certas áreas, mas não em todas. Isso foi uma decisão inteligente tomada lá atrás, não se podia começar com tudo. Alguns ramos são bem representados e agora precisam aumentar o intercâmbio e chegar a uma representação mais completa de matemática. Seria essa uma meta. Além disso, melhorar outros centros, ter mais centros de alto nível. É muito fácil chegar a um objetivo simbólico como a medalha Fields, mas isso não deve ser a motivação original para ninguém. Os objetivos mesmo são muito duros de dizer, são mais estruturais. Vai em melhorar a educação em vários níveis. Para você chegar a uma situação comparada a outros países mais avançados, tem de melhorar a graduação.