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“A ficção científica deixou de ser literatura de nicho”

À frente da Editora Aleph, Adriano Fromer Piazzi comemora crescimento e valorização do gênero literário no Brasil

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Adriano Piazzi
Adriano Fromer Piazzi, editor da Aleph

Hoje à frente da Editora Aleph, responsável por editar clássicos da ficção científica no Brasil, Adriano Fromer Piazzi confessa que, até os 15 anos, tinha lido pouquíssimos livros, todos por obrigação. “Sou o típico exemplo de o quanto as escolas estragam uma criança e do quanto um pai inteligente salva uma criança”, brinca o editor, hoje com 38. A interferência do pai, o educador e fundador da Aleph, Pierluigi Piazzi, falecido em março deste ano, foi decisiva. “Ele deixou O Hobbit na minha cabeceira, eu li e gostei”. A partir daí, tornou-se um leitor ávido.


Em tempos de retração no mercado editorial brasileiro, a Aleph chega aos 30 anos em pleno crescimento, publicando um gênero que, até então, era considerado maldito. A fórmula mágica está na aposta nos títulos clássicos e um trabalho editorial cuidadoso. Adriano recebeu a reportagem de Carta na Escola na sede da editora, na zona oeste de São Paulo. Lá, entre prateleiras coalhadas de livros como Eu, Robô e Jurassic Park, conversou sobre o mercado de ficção científica e sobre formação de leitores.

Carta Educação: Hoje o carro-chefe da Aleph são os livros de ficção científica. No entanto, por um bom tempo houve o estigma de que o gênero não vendia. Como vocês entraram nesse mercado e passaram a vender tanto?

Adriano Fromer: Na verdade, durante os anos 1990 já havíamos publicado algo de ficção científica, Star Trek e Neuromancer, mas não vingou comercialmente. Em 2003, graças ao filme Matrix, começou uma pressão maior por parte do público e do mercado para que Neuromancer fosse reeditado. Foi aí que um consultor me recomendou que retomássemos a ficção científica, que naquele momento existia muito pouco no mercado. Eu próprio, que era desde aquela época um leitor do gênero, percebia poucos títulos no mercado editorial. Assim, reeditamos Neuromancer e publicamos Laranja Mecânica, livros do Isaac Asimov e outros. Tudo isso com uma estratégia clara de fazer com que não-leitores de ficção científica passassem a ser leitores desse gênero.

CE: O público era muito restrito?

AF: Na época, o mercado de fãs era bastante restrito. O leitor de ficção científica, além de ser um público muito restrito, nunca tinha sido bem trabalhado pelas editoras, na minha opinião. Isso acabava gerando o mantra de que não vendia. A partir daí surgiu a ideia de expandir, pois os livros eram bons, tinham qualidade, independente de serem ficção científica.

CE: Isso porque existe qualidade literária, não?

AF: Às vezes nem tanto. O Isaac Asimov, por exemplo, não tem tanto esse valor, mas tem valor de diversão. Ele entretém, cativa, diverte. E foi partindo daí que começamos a trabalhar com esse gênero. Começamos fazendo capas que não remetessem tanto à ficção científica, com um design mais apurado, conteúdo extra, isto é, começamos a publicar ficção científica de um modo que nunca ninguém antes tinha feito. Isso começou a trazer resultados significativos e começamos a virar uma editora de nicho. Foi por volta de 2011, passamos a investir mais pesado em design de produtos e edições inéditas, como, por exemplo, a edição de 50 anos do Laranja Mecânica, que ninguém fez no mundo inteiro, só nós e a edição do 2001 – Uma odisseia no espaço, com a capa do livro imitando o monólito. No fim das contas, a gente inverteu o processo: de inicio escondíamos que era uma editora de ficção científica, e, a partir de 2011 mostramos que somos a maior editora deste gênero no Brasil. A ficção científica deixou de ser uma literatura de nicho para virar uma literatura de mainstream. A tendência é o publico leitor de ficção científica ter crescido muito nos últimos cinco anos.

CE: No Brasil?

AF: No Brasil. No exterior, nos EUA, a ficção científica sempre foi muito forte. O Wiliam Gibson, autor do Neuromancer, sempre que lança livro novo vai parar na lista (dos mais vendidos) do New York Times. Aqui isso não acontece. O livro Duna, do Frank Herbert, um dos mais vendidos no mundo, aqui no Brasil até chegou a ser mais bem vendido pela Editora Record, mas logo depois acabou totalmente esquecido. Fomos nós que retomamos. Esse fenômeno de aumento de interesse literário na ficção científica é bem perceptível aqui no Brasil. Não que ele não exista no exterior, ao contrário, há muitos filmes de qualidade sendo feitos, mas no Brasil esse aumento de interesse é notável. Foi um processo que acompanhamos em escala pequena, por exemplo, na feira do livro da USP, um lugar de contato com o leitor. Tenho um exemplo de um rapaz, na época com 17 anos, que desconhecia ficção científica, e eu conversei com ele, que acabou comprando quatro livros. Hoje, toda vez que ele passa por lá me xinga, dizendo que vou levar ele a falência (risos), que ele não conseguiu mais parar de ler. É um exemplo pequeno, mas que ocorre também com seguidores do Facebook. Você começa a criar um publico leitor desse gênero porque tem qualidade, e você cria uma confiança na editora também. A Aleph teve um papel fundamental nisso, nesse mercado, pois ele só cresce quando alguém produz. Muitos livros, como Planeta dos macacos, Eu robô e Jurassic Park até tinham sido publicados por outras , mas com um tratamento claramente secundário. Na Aleph, a prioridade é total.

CE: Você afirmou que sempre foi um leitor de ficção científica. Conte um pouco mais sobre isso. Como você entrou nesse universo? Quais os seus autores favoritos?

AF: Eu sou o típico exemplo de o quanto as escolas estragam uma criança e do quanto um pai inteligente salva uma criança. Eu odiava ler até os 15 anos, até então só tinha lido três livros na vida, por obrigação. Eu era aquele cara que lia o resumo do livro e colava na hora da prova. O meu pai (o educador e fundador da Aleph, Pierluigi Piazzi), era um homem inteligentíssimo, um leitor ávido, começou usando a estratégia do História sem Fim comigo. Ele acabou deixando O Hobbit na cabeceira, que eu li e gostei. Depois li O Senhor dos Anéis e, a partir daí, comecei a ler de vez ficção científica. Hoje, acredito que as escolas estejam mais abertas a esse tipo de literatura, especialmente a de fantasia. Meu pai dizia sobre a importância de ler por prazer. Foi uma sacada importante e simples: enquanto eu lia forçado e sem dialogar comigo, eu odiava. A partir do momento que eu li algo que eu gostava, fosse literário ou não, passei a gostar da leitura, passei a ler Asimov, Clark, e fui evoluindo até ler Machado de Assis, que antes eu odiava. Esse processo é extremamente importante na formação do leitor. Não importa o que ele leia, se ele gostar do que lê, em algum momento da vida evoluirá para alguma leitura mais avançada. A própria lista da FUVEST, que até tem livros bons, é inadequada para jovens de 17 ou 18 anos.

CE: Quais seus autores favoritos?

AF: Gosto muito do William Gibson, ele consegue captar a Gestalt do tempo dele, seja na viagem para o futuro, seja no próprio presente, ele capta bem, escreve bem. Tem o Philip K. Dick, que eu gosto por causa do misticismo dele, que ele transporta para o livro. Ele passa as experiências dele, não explicáveis pela ciência, para o livro, experiências de expansão de consciência. Gosto também do Arthur C. Clark, Fim da infância foi um dos livros que me fez gostar de ficção científica, A mão esquerda da escuridão, é um dos melhores livros que li na minha vida.

CE: Quem são os leitores de Ficção científica hoje?

A: São variados. A faixa maior é dos 19 aos 35, embora tenham leitores de 17 e de 60 anos. É bem equilibrado em termos de sexos. Eu percebo uma diversificação muito grande, mesmo dentro do nosso publico, há desde pessoas interessadas apenas em literatura de entretenimento, até pessoas mais próximas de clássicos. Sem contar os que leem de tudo.

CE: A produção de ficção científica cresceu muito, inclusive na produção de audiovisual. Como você vê esse movimento? Está havendo uma reinvenção?

A: Está. Você olha nas bilheterias, nove filmes são de ficção científica e fantasia. Está havendo um investimento e uma criação de produtos de qualidade. Durante muito tempo, Hollywood estragou a ficção científica, produzindo uma imagem bastante estereotipada, ruim mesmo, e as pessoas acabaram associando um pouco. Hoje em dia, tem-se cada vez mais filmes bons, profundos e várias séries e filmes estão sendo criados. Tomando como exemplo os games, grandes sucessos comerciais são jogos de ficção científica. O principal não é a quantidade, é a qualidade, e tem havido produtos de qualidade desse gênero, tanto para quem não lia como para quem lia…

CE: Na sua opinião, a ficção científica tem entrada nas escolas?

AF: Muito pouca, além de ainda ser muito negligenciada, depende muito do professor gostar ou não, mas há cada vez mais abertura. Na própria Academia há cada vez mais teses focadas em literaturas de ficção científica, em comparação com cinco anos atrás

CE: Vocês investiram muito em clássicos e em obras de referência da ficção científica, mas há algum espaço para autores jovens ou mesmo nacionais? Muitos enviam seus originais?

AF: Nós estamos começando com autores inéditos estrangeiros. Temos vários projetos de lançamento, de inéditos e mais contemporâneos. A idéia é, primeiro, recolocar os grandes clássicos, em seguida trazendo autores mais contemporâneos e com maior apelo de cultura pop, como Jurassic Park, Star Wars e Alien. Quantos aos autores nacionais, até existem planos, mas com a ressalva de ser muito bom. Na verdade, a nacionalidade pouco importa, o que pesa de fato é a qualidade.

CE: Recentemente houve uma editora na Inglaterra que se propôs a lançar durante um ano apenas livros escritos por mulheres. Vocês pretendem dar uma abertura maior para essas mulheres?

A: Existem coisas muito boas, como A mão esquerda da escuridão, de Ursula Le Guin, embora nunca tenhamos priorizado um gênero ou outro. Publicamos a Ursula porque ela é uma grande escritora, não porque é mulher. A qualidade literária independe do gênero. No entanto, reconheço que de fato tem sido dado pouco espaço as mulheres nessa parte da literatura e tem sido uma preocupação nossa aumentar esse espaço.

CE: Quais os maiores desafios que vocês enfrentam publicando ficção científica no Brasil?

AF: Antes, dez anos atrás, a maior dificuldade era convencer os livreiros que ficção científica vende, e convencer aos leitores de que era uma leitura legal, tentar quebrar estereótipos. Hoje, esses problemas foram superados, a Aleph tem distribuição nacional e os livreiros foram convencidos de que vende, e os leitores foram convencidos de que é legal. Sempre queremos expandir, mas o momento é bom. A maior dificuldade é a concorrência, já que outras editoras começaram a editar também, pois perceberam que vende, embora isso faça parte. Barreiras existem no mercado editorial como um todo, mas são barreiras gerais, e não especificas da ficção científica.

CE: O Brasil ainda é um país de poucos leitores, apesar do avanço, ou isso é uma impressão antiga?

AF: Sem duvida, ainda mais que, proporcionalmente com a população, deveriam ser tiragens de 10.000 livros, não de 2000 ou 3000. Por ser um país populoso, deveria vender mais livros. Best sellers, porém, como Cinquenta Tons de Cinza, fazem com que pessoas sem o habito de ler acabem lendo. São pessoas que começam a ter algum contato com a leitura e passam a gostar de ler. Existe um certo exagero quanto ao fato de que o brasileiro não lê. Evidentemente não lê na mesma quantidade que um americano, um europeu, mas lê, e é papel das editoras convencer de que ler é legal. No entanto, apesar de exagerado, não se pode negar o problema.

CE: Isso esbarra na questão da escola refém da lista do vestibular?

AF: Meu próprio pai criticava muito isso, que se lia por uma questão técnica, não para se desenvolver, não se privilegiava a criatividade. Aí eu pendo para a ficção científica como a literatura mais completa. Já que falamos de vestibular, falemos de Ursula Le Guin, que tem qualidade literária e gera um poder de imaginação, de criatividade, sem paralelo na literatura. A ficção científica trabalha para um mundo que pode vir a existir, ela te ajuda a produzir reflexão sobre o futuro, sobre uma relação do homem com uma raça superior, em outro planeta. Trabalha com possibilidades, com reflexões.

CE: O mercado editorial brasileiro apoia-se bastante nas compras do MEC, que distribui livros para as escolas. Vocês já chegaram a participar desse tipo de política pública?

AF: Nunca entramos e nunca conseguimos aprovar nenhum livro, mesmo livros bons, clássicos, como Fim da Infância e Fundação.

CE: E por que isso ocorre, na sua opinião?

AF: Na minha opinião, preconceito. Quem avalia não reconhece a importância desses livros e desconhece o potencial de formação, talvez julgue aquilo como uma literatura menor. São poucos os que reconhecem a ficção científica como literatura. A própria Úrsula Le Guin afirma que todos os prêmios literários sempre foram para escritores realistas, e não de fantasia ou ficção científica. Mesmo nos Estados Unidos houve muito preconceito, tanto que esses livros são premiados dentro da própria categoria, nunca como um Nobel de Literatura…