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Teresa Perez

Quando uma visita chega à escola e pede para usar o banheiro, prontamente todos recomendam que ela vá àquele reservado aos funcionários. A razão, invariavelmente, é a mesma: os sanitários utilizados pelos estudantes costumam estar em más condições.


Quem observa é Tereza Perez, diretora-superintendente da Comunidade Educativa Cedac, que participou de uma produção coletiva em que mais de 500 diretores, de cem municípios, compartilham experiências que deram certo em suas escolas.

O estado do banheiro, da quadra, dos corredores e o que o espaço pode dizer sobre a escola é o tema do livro O que Revela o Espaço Escolar? Um livro para diretores de escolas, lançado pela Cedac em parceria com a Editora Moderna.

Ao longo da última década, a instituição trabalhou com gestores de todo o Brasil para reunir dicas, reflexões e saberes práticos sobre como o espaço físico se relaciona com a aprendizagem de valores e com as tomadas de decisão. O resultado é um guia para o gestor, com sugestões de ações, questionários e cronogramas para transformar e conservar a escola.

O livro será distribuído em 40 mil escolas públicas e sua versão digital, disponibilizada para download gratuito.

CARTA FUNDAMENTAL: O Livro do Diretor: Espaços e pessoas foi lançado em 2002. Quais são as principais diferenças entre a antiga edição e O que revela o espaço escolar?
Tereza Perez: É um novo livro. Ao longo dos últimos dez anos, trabalhamos muito com o antigo. Agora, tudo foi atualizado. Temos os apoios oficiais do MEC. Com relação às questões de espaço e de acessibilidade, há mais trabalho de campo, de como conservar e diagnosticar os problemas. Inserimos também um cronograma do que fazer para o gestor. Revisitamos o livro e o renovamos.

CF: Um espaço escolar acolhedor e organizado também é uma questão pedagógica?
TP: Sim. O espaço é um lugar privilegiado de formação das crianças e dos jovens. Nós precisamos ver que lugar é esse, quais são os cuidados necessários para que haja respeito, dignidade, igualdade, para que esses valores sejam aprendidos no cotidiano. Precisamos ver o que queremos da vida escolar. Não é uma questão de luxo com o espaço.

A biblioteca, por exemplo, pode ser um canto com um caixote ou uma sala com poltronas e ar condicionado – o que faz dela uma biblioteca é a organização e o acolhimento dos alunos, ela está lá para que os livros sejam lidos. Outro exemplo: um banheiro com papel higiênico e com espelho traz essa ideia de dignidade para os alunos.

Prédio EscolarCF: Quais são os pontos mais importantes que um gestor deve levar em conta para transformar e conservar o espaço escolar como um ambiente agradável e educativo?
TP: O primeiro passo é o gestor saber que pode se arriscar a não trabalhar sozinho. Temos uma cultura muito individualista, em que o responsável tem de fazer tudo sozinho. A ideia é envolver a comunidade, os professores, os alunos e os funcionários na reflexão sobre o espaço. Esse é o primeiro passo que o gestor pode dar.

No próprio livro temos uma orientação de como eu posso envolver essas pessoas, fazendo um diagnóstico. Falando um pouco sobre a estrutura do livro, em todo capítulo temos uma crônica, com a intenção de sensibilizar o leitor para o espaço trabalhado, a questão dele se sentir dentro do espaço. Depois, há uma introdução que coloca o foco no conteúdo do trabalho que será feito. Há também o trabalho de campo, como o gestor pode observar isso. Depois, tem o que pensa a comunidade escolar, tem um questionário que eu posso dar para alunos, pais e funcionários e, a partir disso, eu posso fazer um diagnóstico e construir um plano de trabalho. Aí vem a sugestão de projeto a ser feito.

A cada capítulo temos esse projeto institucional. Outra etapa é o acompanhamento e a manutenção do que já foi obtido. Isso é muito difícil de ser feito, a manutenção do grande acontecimento é sempre complicada. Colocamos o enfoque disso: manter o que foi conseguido é absolutamente fundamental. Por fim, no final do livro temos um cronograma anual, estipulando o que é interessante fazer em cada mês do ano.

CF: Como esses saberes práticos foram colhidos e sistematizados?
TP: No início procuramos bibliografia sobre o assunto e só encontrávamos livros teóricos sobre gestão participativa. Coisas muito boas, mas que não iam ao ponto que os diretores queriam. Outra questão é que os diretores precisavam fazer transformações visíveis, até para acreditar no potencial de mudança. Por isso, focamos na organização dos espaços.

Assim, esse livro é a produção coletiva de mais de 500 diretores, mais de cem municípios e tem muito a palavra deles, do que foi dando certo, do que fazia sentido para os diretores. Isso de fato implantava uma cultura diferente, que tinha a ver com a ética e a estética, coisas indissociáveis a meu v

CF: O livro tem um lado prático muito forte. O que levou a abordar os problemas físicos da escola por um lado mais prático e menos teórico?
TP: Nossa preocupação foi que tudo o que é feito na escola precisa chegar aos alunos. Esse livro tem uma marca muito forte: como as mudanças vão impactar para o aluno? Como, se a gente quer que ele aprenda aquelas belezuras todas que aparecem nos projetos políticos pedagógicos, formar um cidadão crítico, respeitoso, solidário? Há todo um jargão que aparece nos PPPs, mas que na prática eles não são traduzidos em ações.

A gente vê que o espaço traduz isso, porque ele mostra a vida do aluno dentro da escola. Se estiver arrumada, mas asséptica, você não vê o aluno, tem uma série de funcionários que deixam tudo em ordem, mas o aluno não está lá. No plano oposto, temos uma escola detonada, que é pública, então não tem dono e o aluno também não está lá. O que procuramos mostrar é que não importa se temos um superprédio ou um prédio com condições que podem ser melhoradas. Uma escola rural com duas salas e uma pequena cozinha, eles podem ser muito mais acolhedores do que uma escola grande e sem a presença.

CF: Como envolver os demais personagens da escola, como os alunos, por exemplo?
TP: É muito bonito esse processo. Quando você os convida a participar, eles participam. Eles se dispõem a fazer coisas, a trazer mudas para a escola, a organizar o lixo da escola, a fazer murais e colocar suas produções. Na verdade, basta convidar as pessoas a participar que elas vêm para a participação. A intenção é mudar a cultura de trabalho individualizado.

CF: Em alguns casos, a infraestrutura é ainda mais problemática. Um levantamento feito a partir de dados do Censo Escolar 2010 revelou que 8,8 mil unidades de ensino não têm nenhum sanitário, 11 mil não contam com rede de esgoto e mais de 12 mil dependem de geradores de energia para funcionar. O que um diretor pode fazer diante de desafios estruturais tão grandes?
TP: A intenção com os questionários é também que o gestor, de posse de uma série de observações e informações, possa negociar de maneira mais efetiva com as esferas administrativas. Com números, opiniões e dados, ele pode, dentro da esfera municipal, chegar ao secretário, discutir e fazer suas solicitações. O diretor passa a ter recursos para poder negociar. Também colocamos todos os programas a que ele pode recorrer.

CF: É comum o gestor desconhecer programas ou políticas públicas a que ele pode recorrer para melhorar o espaço escolar?
TP: Muitas vezes o gestor conhece os programas públicos, mas não acredita que seja possível fazer solicitações. Quando trabalhamos o livro e a formação dos gestores em conjunto, queremos que ele se sinta cada vez mais potente para conseguir fazer as alterações e mudanças. Esse tipo de conduta e de atuação começa a se espalhar para outras áreas também. Essa libertação do isolamento.

CF: Qual é a importância do gestor escolar olhar para o que já existe na escola?
TP: Uma das estratégias é pedir para que eles fotografem a escola. Ao fotografar e olhar as fotos, salta aos olhos o que se tem de fato. Esse olhar tanto para o bem quanto para as coisas ruins, um monte de lixo, cadeira quebrada, se ele coloca o olhar ele vê que pode mudar. Vê que aquilo é passível de transformação. É fundamental que  o gestor olhe mesmo qual é o potencial que a escola pode ter. Quando vemos a sequência de foto de antes e depois, é impressionante o que conseguem fazer. Pegar um pátio com cadeiras quebradas e transformar isso num jardim é rápido, não é algo que tenha um custo alto.

CF: E a participação dos alunos nesse processo?
TP: Se você for sozinha e pintar a escola inteira, e em geral é isso o que acontece, dois dias depois está tudo sujo de novo. Se você prega na parede coisas que não têm a ver com a vida dos alunos, eles vão rasgar tudo. A importância de envolver é uma mudança de cultura, que está cada vez mais presente.

CF: Para terminar: o que, afinal, revela o espaço escolar?
TP: Podemos sintetizar que ele revela o que a gente quer da educação escolar. Ele revela qual é a nossa intenção na educação. Porque se eu quero fazer uma escola que está abandonada e depredada, isso diz muito sobre o que eu quero da educação. Não adianta falar bonito porque isso não vai fazer com que as crianças aprendam. Precisamos desnaturalizar essa escola detonada, depredada.

Não podemos achar normal que a escola esteja com as suas paredes pichadas, com os banheiros sem papel e sem espelho, isso não é razoável. Muitas não têm água, em outras o banheiro dos professores está arrumado, mas o dos alunos não. Um dos sintomas é justamente este: você chegar a uma escola e eles indicarem o banheiro da diretora ou dos professores, porque o dos alunos não está em condições. Temos de desnaturalizar isso. A escola tem de ser dos alunos e para os alunos e para a comunidade escolar, tem de ser reflexo dessa comunidade de aprendizagem.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental