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Por José Ruy Lozano*

Chamar alguém de senhor ou senhora tem implicações políticas? Para os líderes da Revolução Francesa, sem dúvida. Monsieur e madame denotavam subserviência, traziam o ranço servil do feudalismo que pretendiam erradicar. Majestades, Altezas e Eminências, é claro, também tiveram seu uso proibido em território francês. Todos, a partir de então, seriam simplesmente cidadãos, a começar do rei, um dia Luís XVI, dali por diante Cidadão Luís Capeto, até o encontro fatal com a guilhotina.

Na guerra contra estamentos historicamente estabelecidos, a burguesia varria os símbolos de dominação do passado. Passaria a valer o talento dos indivíduos, da “gente que trabalha e produz”, então denominada Terceiro Estado, de variadas origens e trajetórias. E a igualdade foi lentamente se impondo no plano formal, das leis e das denominações burocráticas, como atesta a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. No que se refere à renda e à riqueza, no entanto, a desigualdade persistiu e aumentou.

É comum ouvir que política se faz com símbolos. Nada mais simbólico que João Doria, prefeito de São Paulo, venha a abolir oficialmente o uso de pronomes de tratamento comuns na linguagem administrativa. Nada de Ilustríssimo, e não me venham com Excelência. Agora, nos documentos oficiais da prefeitura de São Paulo, apenas cargo e nome: vereador Fulano de Tal, prefeito João Doria, e pronto. Deixemos de lado os rapapés do Brasil oficial, esse é o Brasil da livre iniciativa. O Terceiro Estado dos comerciantes quer eliminar os costumes aristocráticos do topo do serviço público.

Um novo Brasil de “empreendedores” revolta-se contra o Estado. Percebe-o como inimigo. A disposição de muitos, depois de anos de escândalos e de constantes descobertas sobre as relações promíscuas entre servidores públicos e grandes empresas, seria a de reeditar a guilhotina: abandonar o simbólico e ir às vias de fato.

Recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo, instituto de formação política do Partido dos Trabalhadores, constatou os indícios da rebelião embrionária nas periferias de São Paulo. Por lá, o governo surge como vilão da “narrativa” predominante. Cobra impostos, impõe regras, dita normas, extorque propinas, pune, mata, mas devolve pouco em termos de serviços públicos essenciais. Aos olhos dos mais pobres, o Estado abandona seu papel provedor e fica parecido com a corte de Versalhes. É nesse contexto que o discurso liberal ganha força, na França do século XVIII como no Brasil do século XXI.

Eliminar pronomes de tratamento vai ao encontro da rejeição popular aos costumes da elite política brasileira, tão ciosa de seus privilégios, de suas remunerações astronômicas, de seus carros oficiais e passaportes diplomáticos. É notável que a medida se assemelhe àquela adotada pela grande revolução liberal da modernidade. Só nos falta a revolução. Burguesa, que seja, mas revolução.

E é aqui que a nova direita se distancia de Robespierre e Marat. Não há tal desejo revolucionário nos horizontes do capitalismo brasileiro. Por aqui, abolimos os pronomes, mas deixamos os privilégios, conluios e apadrinhamentos intactos. A luta pela igualdade fica literalmente no papel. Por trás do simbolismo pronominal, esconde-se a defesa de uma reforma da previdência que pune os mais vulneráveis e de uma política de juros que beneficia os mais ricos.

Um dia essas contradições podem acabar resultando num grito de “Às armas, cidadãos”.

A erosão da esfera pública costuma ter resultados violentos.

* José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do CIPI (Conselho Independente de Proteção à Infância) e coordenador pedagógico geral da Rede Alix – Colégio Nossa Senhora do Morumbi.