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Alguma vez você já pensou como seria viver dentro de um pêssego? Ou ser carregado por um gigante e viajar em seu bolso? Roald Dahl já pensou nessas e muitas outras coisas divertidas. Contador de histórias magistral, dono de uma imaginação surreal e espontânea, o britânico Dahl, autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate, criou histórias emocionantes que têm mantido crianças de todas as idades entretidas com a leitura desde 1960.


A rica e variada escrita e a capacidade de ver o mundo como as crianças tornaram Roald Dahl um autor que desfruta de uma incrível popularidade nos países de língua inglesa e nos lugares onde sua obra foi traduzida. Muitas das suas obras infantojuvenil são conhecidas pelas adaptações para o cinema e teatro, mas ele também escreveu poesia, contos e uma autobiografia.

Caracterizada pela imaginação, narrativa veloz e sensibilidade no uso da linguagem, a obra de Roald apresenta enredos objetivos, reduzidos ao essencial, personagens grandiosos e poderosas descrições. Em vários dos seus livros, esse talento para contar história é complementado pelas exuberantes ilustrações do desenhista Quentin Blake, com quem Dahl manteve um trabalho de colaboração e parceria por muitos anos.

Um dos principais motivos para ler Roald Dahl é ver como ele lida com a linguagem de uma maneira extraordinária e inventiva. Em suas mãos ela assume vida própria e se faz aberta a inúmeras possibilidades. Rima e ritmo são aspectos quase tão importantes quanto o conteúdo. O humor permeia toda a obra de Dahl e assume diferentes formas, a exemplo dos trocadilhos e jogos de palavras que chamam a atenção para os sons e os padrões da linguagem. A graça e o prazer do texto estão muitas vezes na fusão de imagens diferentes e inesperadas. Outras maneiras pelas quais Dahl cativa seu público jovem é apelando para o exagero, o absurdo e o grotesco.

A perspectiva na delimitação do que é certo e errado é inequívoca e, nesse sentido, suas histórias podem ser consideradas contos de fadas, uma mistura entre realidade e fantasia, com personagens bons e maus e uma moral. A polarização entre os personagens é reforçada por detalhes descritivos, atributos físicos ou comportamentais, que evocam a simpatia ou a antipatia instantânea do leitor. Entretanto, o ponto de vista não é fixo. Dahl frequentemente quebra a terceira pessoa narrativa com uma voz anônima, cuja função é atrapalhar o bom desenrolar dos acontecimentos e fazer com que o leitor veja as coisas de outra maneira. O narrador anônimo apresenta crenças, opiniões e gostos que colorem a nossa visão da história e afetam a forma como vemos os personagens. Isso movimenta a narrativa e o desenvolvimento da trama de um modo que não acontece em contos de fadas tradicionais.

Outro bom motivo para ler as histórias de Dahl é observar a estruturação de seus enredos e as oportunidades que proporcionam para explorar ingredientes essenciais da narrativa. O conflito, os incidentes centrais e a resolução podem ser apontados de maneira simples para jovens leitores.

Seus personagens principais geralmente são órfãos, como em James e o Pêssego Gigante (1961), ou crianças de famílias monoparentais, como em Danny, the Champion of the World (1975), ou filhos de pais ausentes e desinteressados, como Sophie em O Bom Gigante Amigo (1983). É possível ainda pensar nas narrativas de Dahl como um tipo de ‘rito de passagem’, em que a -inocência e a bondade infantil são confrontadas com o mal, a brutalidade, a estupidez ou simplesmente a incompetência do mundo adulto.

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A infância e a vida familiar de Roald Dahl não podem ser dissociadas da sua obra e carreira. Muitas das alegrias e dos dissabores em suas histórias são ideias e inspirações que ele tirou de suas experiências pessoais e da sua própria personalidade forte e individualista, tornando-se uma parte integrante de todos os seus personagens principais.

Roald Dahl nasceu em Llandaff, no País de Gales, em 1916. Seus pais eram noruegueses e viviam na Grã-Bretanha. Aos 13 anos, foi estudar na Repton School, uma famosa escola pública em Derbyshire, Inglaterra. A escola ficava perto da fábrica de chocolate Cadbury’s, que, às vezes, convidava os estudantes para testar as novas variedades de doces. Roald se destacou mais nos esportes do que em línguas. Ele não se interessou pela universidade, queria viajar. Aos 18 anos foi trabalhar para a petrolífera anglo-holandesa Shell.

Aos 23 anos, a Segunda Guerra Mundial estourou e Roald decidiu se alistar na Royal Air Force, onde aprendeu a pilotar aviões. Foi enviado para ação 
no Cairo e no deserto da Líbia, onde foi abatido. Após a convalescença, foi mandado para casa como ‘inválido’ e, depois de passar um breve 
período na Inglaterra, foi enviado a Washington como funcionário da Embaixada Britânica.

Lá, conheceu o autor C.S. Forester, que pediu a Roald que descrevesse sua versão da guerra, pois ele pretendia publicar na revista The  Saturday Evening Post. Ao receber o relato, Forester teria dito: “Sabes que és escritor? Não mudei uma palavra”. O texto apareceu anonimamente na revista, em agosto de 1942, sob o título Shot Down Over Libya (Abatido na Líbia).

Forester foi uma figura decisiva na publicação da sua primeira narrativa ficcional: Os Gremlins, conto sobre pequenos monstros que fazem aviões se acidentarem. A história atraiu a atenção de Walt Disney, que convidou Dahl para escrever a versão cinematográfica. O projeto não se realizou, mas, em vez disso, Disney mudou de ideia e transformou a história em um livro ilustrado, publicado em 1943.

No entanto, a carreira de Roald como autor de livros infantis só deslancha a partir dos anos 1960, após ele ter se casado com a atriz Patricia Neal e se tornado pai de cinco filhos. A família volta para a Inglaterra, onde Dalh viveu o resto de sua vida, escrevendo a maioria de suas histórias em uma pequena cabana no fundo do jardim. Foi assim que surgiu A Fantástica Fábrica de Chocolate (1964), The Enormous Crocodile (1978), The Witches (1982) e Matilda (1989), obra vencedora do Prêmio do Livro Infantil ou Children’s Book Award. Nada mal para um escritor que não sabia datilografar e sempre usou o lápis! Entre 1960 e 1965, uma série de infortúnios atinge a família Dahl: o filho mais novo sofre dano cerebral após um acidente de trânsito, a filha Olivia morre de sarampo e a esposa sofre um acidente vascular cerebral. No fim de 1970, Dahl conhece o ilustrador Quentin Blake com quem estabelece uma parceria de muitos anos. Em 1983 é novamente premiado pelo livro O Bom Gigante Amigo. Nesse mesmo ano, ele se divorcia de Patricia e se casa com Felicity D’Abreu, com quem permaneceu até o fim da vida. Roald Dahl morreu em 23 de novembro de 1990, aos 74 anos.