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“O Pedrão é nosso!”, exclamou um dos funcionários do Monumento à Independência, em São Paulo, ao ter certeza de que o sarcófago de dom Pedro I não estava vazio. Havia realmente algo lá dentro com o qual as pessoas que vivenciam o espaço pudessem se identificar.


Ao contrário das exumações ocorridas quando da deposição dos restos mortais dos imperadores – dona Leopoldina em 1954, dom Pedro em 1972 e dona Amélia em 1982 –, todo o trabalho da arqueó­loga Valdirene do Carmo Ambiel foi devidamente documentado e, um ano após seu início, revelado ao grande público.

Havia a suspeita por parte da população sobre se havia realmente algo nos sarcófagos. Um fotógrafo da equipe foi inquirido por um taxista: “O que você vai fazer lá? Não tem nada lá dentro”.

Muito além das medalhas de dom Pedro I, dos restos de tecido e brincos de dona Leopoldina e da múmia artificialmente preservada de dona Amélia, o trabalho de Valdirene Ambiel mostrou ao Brasil que os personagens de nossa história estavam lá, sim, e foram, algum dia, de carne e osso. A identificação do funcionário da cripta com o que está efetivamente guardava deixou-o mais perto de dom Pedro do que ele jamais estivera. O mito, o “herói” da Independência, transformou-se no “Pedrão”.

O trabalho de pesquisa não visava a grandes descobertas que tornariam os livros de História obsoletos. Seu objetivo, além do ­estudo dos remanescentes humanos, era também a sua preservação. Não havia notícias, por exemplo, do estado dos restos mortais dos imperadores. Se isso foi facilmente descoberto ao erguer-se a tampa de granito das sepulturas de dom Pedro e dona Leopoldina, o mesmo não ocorreu com dona Amélia. Até as pesquisas da arqueóloga, o único vestígio da neta da imperatriz Josefina dentro da cripta era uma ­pedra com seu nome gravado.

Os trabalhos para se descobrir o paradeiro de dona Amélia arrastaram-se por dois meses. Nem os técnicos do Departamento de Patrimônio Histórico, responsável pelo local, tinham conhecimento de onde o ataúde havia sido colocado quando chegou, em 1982.

Se dom Pedro I tem alguma relação com a cidade de São Paulo, por ela ser o cenário de seu rompimento com Portugal e do início de seu relacionamento com Domitila de Castro Canto e Melo, a futura Marquesa de Santos, dona Leopoldina e dona Amélia são completamente alienígenas ao solo de seu descanso final. O Monumento à Independência, por fora, tem mais relação com os personagens do processo histórico que culminou com nossa separação de Portugal, como Gonçalves Ledo e José Bonifácio, do que com os “símbolos” enterrados dentro da cripta, ­manipulados por governos a seu bel-prazer. Dona Leopoldina, por exemplo, foi levada do Rio de Janeiro para São Paulo em 1954 para a comemoração do IV Centenário desta cidade; dom Pedro I retornou para o Brasil por acordo entre a ditadura brasileira e a portuguesa; e, por fim, dona Amélia, dez anos depois do marido.

Mitos por terra

A vida é cheia de ironias, e com a morte não é diferente. Dom Pedro I foi colocado no local como o grande libertador do Brasil, mas descobriu-se que, além de estar enterrado como um general português, não tinha qualquer lembrança do país tropical onde passou a maior parte da vida. As medalhas que portava ligavam-no diretamente a Portugal e, no caso da Ordem do Tosão de Ouro, à posição de chefe de sua dinastia. Até mesmo a terra encontrada dentro da última urna onde os seus ossos revolvidos estavam depositados seria, segundo estudos preliminares, a da região do Porto, onde seu exército sofreu um grande cerco das forças absolutistas lideradas por seu irmão, dom Miguel.

Num primeiro momento parece que o “grande vulto pátrio” não seria tão grande assim hoje em dia: media entre 1,66 e 1,73 metro. A altura média da população varia com o passar do tempo. Diversos fatores influenciam, clima, alimentação, exercícios físicos. Se na época ele seria considerado alto, hoje, em Portugal, também, pois a altura média dos portugueses varia de 1,62 a 1,73 metro.

Outro mito destruído com a exumação é que dom Pedro não foi cremado, como informa dentro da própria cripta o painel de uma antiga exposição. Aparentemente um dos motivos para tal informação foi a impressão que diplomatas e testemunhas da exumação do imperador, em 1972, tiveram no momento em que seu caixão foi aberto em Portugal: a terra do Porto havia se transformado em pó, e os ossos estavam soterrados por baixo.

Dom Pedro, sempre um aventureiro, adorava velocidade. Pegava seus cavalos e dava o máximo com eles em loucas corridas pelos arredores do Rio de Janeiro, levando-o a alguns acidentes. Uma das quedas, sofrida em 1823, está devidamente registrada nos boletins médicos da época e nos ossos remanescentes. Assim como um desastre sofrido em 1829, quando a carruagem que conduzia (ele também adorava dirigir o próprio carro) ao retornar da Fazenda de Santa Cruz, tombou na Rua do Lavradio, no centro do Rio. O imperador foi atirado do assento para o meio da rua. Além dele, estavam também dona Amélia, o irmão dela, Augusto, a filha, dona Maria da Glória, e uma escrava que morreu.

Dona Leopoldina, que veio ao Brasil para se casar com o herdeiro do império português, voltar à Europa e se tornar rainha de Portugal, acabou transformando-se na primeira imperatriz brasileira e permaneceu aqui junto ao marido até a morte, em 1826. Se uma mentira dita mil vezes torna-se verdade, dona Leopoldina morreu mil vezes pelas histórias a respeito de um pontapé que dom Pedro teria lhe desferido e que teria provocado um aborto e sua morte. Muito antes da Lei Maria da Penha, a mulher, segundo o Direito e o costume, era praticamente um objeto nas mãos do marido. Este poderia repreendê-la, inclusive com castigos físicos, e ainda poderia se safar da prisão se a matasse e provasse que ela o havia traído. Mas dom ­Pedro, em suas alterações com dona Leopoldina, geralmente por causa de dinheiro ou da amante, a Marquesa de Santos, nunca chegou às vias de fato. As análises demonstram que a ossada de dona Leopoldina estava intacta, sem sinal de fratura. Para abortar um feto de poucas semanas por impacto, só se d. Pedro houvesse fraturado a bacia da esposa, o que não ocorreu.

Enterrada com a mesma roupa de sua coroação, como única joia utilizava um brinco de ouro 18 quilates com uma pedra de resina. Isso já começa a gerar alguma especulação a respeito do abandono em que ela se encontrava. Essa pode ser uma explicação, sim, mas não a única. O brinco de dona­ ­Leopoldina pode ser uma joia trazida de sua Áustria natal. Nos países germânicos, é costume, até hoje, dar à criança, assim que os dentes nascem, um anel, brinco, pulseira ou colar com âmbar, uma resina fóssil usada em ornamentos. Segundo a tradição, essa pedra teria o poder de proteger a ­criança de algum alimento sólido mal preparado ou estragado que comesse. As joias de dona Leopoldina que não eram de Estado, ou seja, não pertenciam à Coroa Brasileira e não deveriam passar de uma imperatriz para a outra, foram transferidas como herança aos seus filhos.

leopoldina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dom Pedro e suas duas mulheres

Outra descoberta é que os ossos de dona Leopoldina não eram os de uma pessoa alta e corpulenta, como geralmente ela aparece retratada em pinturas e gravuras após a sua chegada no Brasil. Analistas mais superficiais até mesmo apontavam sua aparência como um dos motivos de dom Pedro sempre estar envolvido com amantes. Durante nove anos no Brasil, dona Leopoldina ficou grávida oito vezes. Quando não estava inchada da gravidez, ainda não havia se recuperado do parto. O clima do Brasil também não ajudou muito a conservar sua pele clara.

Ao contrário de dona Leopoldina, que voltaria para a Europa, o destino de dona Amélia foi exatamente o oposto. Vinda para se casar com dom Pedro em 1829 e ser mãe dos filhos órfãos da primeira imperatriz, dona Amélia passou menos de dois anos no Brasil antes da renúncia do imperador e o retorno para o Velho Continente, onde dom Pedro faria guerra contra o irmão para empossar a filha, dona Maria da Glória, no trono. Figura apagada de nossa história por causa do breve tempo em que ficou no Brasil, depois de morta tomou-se a “grande vedete” do trio.

Piadas como: “Quer dizer então que desde 1873 (data da morte de dona Amélia) a segunda esposa é sempre mais conservada que a primeira?” circularam na internet e garantiram definitivamente a presença da segunda imperatriz no nosso imaginário popular.

Dona Amélia veio bem jovem para o Brasil. Casou-se com dom Pedro aos 16 anos e enviuvou aos 22. A ex-imperatriz passou o restante de sua vida em luto pelo marido e posteriormente pela filha que teve com ele, dona Maria Amélia, que faleceu, tal como o pai, de tuberculose. Isso explica o vestido negro com o qual foi enterrada.

Não faltaram os crédulos, durante a exumação de dona Amélia, que viam no fato de ela estar preservada um milagre. Milagre, sim, mas da ciência. Ela está artificialmente preservada: foi embalsamada e encontra-se em excelente estado de conservação, com unhas, cílios, pele, olhos, cérebro, pulmão, útero, tudo intacto. Outra das ironias: a ex-imperatriz não queria ser preservada, como deixou explícito entre suas últimas vontades em seu testamento, que só foi aberto após o processo de conservação.

Em 1982, um grupo restrito de políticos e pessoas envolvidas com história do Brasil viram a primeira exumação de dona Amélia. Surgem novas dúvidas: Do que morreu dona Leopoldina? Quais os métodos e produtos do embalsamento? A presença de dom Pedro e suas mulheres nas manchetes por mais alguns anos está garantida.

O que os túmulos guardavam

DOM PEDRO I
• Foi enterrado com honrarias e medalhas 
voltadas aos generais portugueses
• Sinais de fratura em quatro costelas confirmam as histórias que contam de acidentes de cavalo que dom Pedro I sofreu: a primeira por volta de 1823, caindo em uma ladeira, e outra em 1829, quando conduzia uma carruagem
• Com as costelas quebradas, o pulmão esquerdo ficou comprometido 
e a tuberculose acabou matando-o
• Media entre 1,66 e 1,73 metro
• O corpo não foi cremado, como dizia uma placa no Monumento à Independência
• Com os ossos do crânio e da face vai ser feita uma reconstituição de seu rosto

DONA LEOPOLDINA
• Foi sepultada com brincos de ouro, mas com resina, e não pedras preciosas
• Pela espinha nasal e a ossatura, os pesquisadores sugerem que ela era uma mulher esguia e de traços delicados, ao contrário das imagens que sempre a retrataram como gorda
• Seu fêmur não tinha sinal de fratura, o que mostra que, ao contrário do que dizem os livros de História, ela não foi empurrada por dom Pedro de uma escada, o que teria causado o aborto que a matou
• Foi enterrada com a roupa bordada com fios de outro e prata com que foi coroada imperatriz em 1822

DONA AMÉLIA
• O estado de preservação de seu corpo 
surpreendeu a todos: cabelos, unhas, cílios, pele e órgãos estão preservados
• Foi enterrada de preto, já que ficou de luto por várias décadas após a morte de dom Pedro I
• Morreu com apenas cinco dentes na boca
• Substâncias aromáticas, como cânfora e mirra, foram injetadas em sua jugular, o que levou à mumificação
• Sofria de escoliose, o que provavelmente prejudicava seu caminhar