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Músicas da república

Chamamos de Primeira República o período de 1889 até o Golpe de 1930. Nessa temporada, o marechal Deodoro da Fonseca proclamou e virou presidente; surge um “novo” Hino Nacional; um caixeiro-viajante dá o pontapé inicial nas gravações de discos e o presidente Epitácio Pessoa – com “dó de peito” – inaugura a transmissão radiofônica no Brasil.


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E não parou por aí. Chiquinha Gonzaga “corta jaca” e mostra o proibido violão no Palácio do Catete; surgem as primeiras escolas de samba; o marechal Hermes da Fonseca vira o general da banda; Washington Luís samba na maior prontidão aos pés de Noel Rosa; Sinhô e Mauro de Almeida provam para São Brás que santo de casa faz milagre até “Pelo Telefone”; o ritmo do maxixe dá ao samba a sua primeira “certidão de nascimento” e a marchinha zoa com o plantão dos presidentes. Assim é o tom da Primeira República.

Dá-me a honra desta dança?


Leia atividade didática de História inspirada neste texto
Anos do Ciclo: 8° ao 9°
Objetivos de aprendizagem: Como nossa arte mais reconhecida e pelo seu maior poder de alcance entre os consumidores, a música popular passa a ser um instrumento privilegiado de entendimento da sociedade brasileira: no universo político, nos costumes e no cotidiano das pessoas.
Tempo de duração: 5 aulas
Possibilidade interdisciplinar: Artes, português e geografia.

Mostrar como a República no Brasil precisou construir novos símbolos para legitimar-se perante a sociedade. Pegar o exemplo da bandeira e do hino nacional. Um artigo leve e ótimo de utilizar sobre o assunto é esse da Lilia Schwarcz

1- Fazer um quadro comparativo, com imagem do fonógrafo, gramofone, toca-discos e CDs. Mostrar ao aluno a evolução nos meios de divulgação da música até chegar ao mp3. Pedir que os grupos tragam LPs e expliquem a história do cantor (a) e qual o gênero de música ligado ao artista.

2- Colocar o samba Pelo Telefone na gravação original e utilizar uma gravação atual para os alunos sentirem a diferença sonora. É importante sempre salientar que música é uma questão de gosto, por isso, não devemos ter preconceitos com as escolhas deles, mas, antes de tudo, mostrar o diferente. Uma sugestão de pergunta para os alunos: quem gosta de funk ou hip-hop? Sabia que muitos dos compositores desses estilos gostam de samba? Citar o exemplo de Marcelo D2.

3- Pegar as revoltas da Chibata, de Canudos e da Vacina e pedir que os alunos, em grupo, ilustrem com músicas e imagens.

Prefiro o velho!

Em 1889, a República do Brasil não tinha uma bandeira ou hino. A bandeira seguiu a cartilha e as bases positivistas: Ordem e Progresso. Prato feito para os compositores Noel Rosa e Orestes Barbosa escreverem a letra da música Positivismo, brincando com o lema da bandeira e o amor de uma mulher:

O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezastes esta lei de Augusto Comte
E fostes ser feliz longe de mim

Dois meses depois da Proclamação da República, acontecia um concurso para escolher o novo Hino Nacional. Para alguns, o velho hino do maestro Francisco Manuel era uma afronta à República. Mas o presidente Deodoro, em um brado retumbante, proclamou: “Prefiro o velho”. E assim ficou. No começo do século XX, o hino tomou sua forma definitiva, ao receber letra do poeta Joaquim Osório Duque Estrada:

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante
E o Sol da liberdade, em raios fúlgidos…

E o concurso? Bem, o hino de Medeiros e Albuquerque e Leopoldo Augusto Miguez, venceu o certame. Como não levou, foi declarado hino da Proclamação da República:

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas, na tempestade,
Dá que ouçamos tua voz!

Surgem as gravações em “disco”

Em 1891, ano da promulgação da primeira Constituição republicana, chegava ao Brasil o caixeiro-viajante Frederico Figner, trazendo na mala a novidade do fonógrafo. E não é que na primeira gravação feita pelo empresário havia justamente um discurso contra a República? Ainda bem que os republicanos não ouviram o discurso. Assim, Figner pôde abrir a Casa Edison, na Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, em 1900, ano em que também chegaram os primeiros gramofones ao País. Logo passou a gravar e comercializar registros.

Em 1913, a Odeon inaugurou a primeira fábrica de discos. Em algumas décadas o Brasil seria um dos principais mercados fonográficos do mundo. No início as gravações eram mecânicas. Era necessário imprimir potência na voz – o famoso dó de peito – e na execução dos instrumentos para registrar o som. Com a chegada do microfone elétrico em 1927, até os “sussurros” passaram a ser captados.

Foi com o surgimento do mercado de “discos” na cidade do Rio que muitos maxixes, sambas e marchinhas que falavam de política, de costumes, da vida do brasileiro, puderam ser gravados.

República do maxixe doido

Na Primeira República ocorreram inúmeros conflitos domésticos: Revolta da Armada, Revolta da Chibata, Guerra de Canudos, Revolta da Vacina e a célebre Coluna Prestes.

Por volta de 1906, quando era ministro da Guerra, o marechal Hermes da Fonseca fez sua revolta contra o “subversivo” maxixe – primeira dança urbana do Rio de Janeiro, que fazia os pares dançarem bem coladinhos, praticamente namorando, deixando muitos vovôs e titias de olhos arregalados. Fora do compasso, o marechal baixou uma portaria proibindo as bandas militares de tocar o “saliente” ritmo.

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Quando assumiu a Presidência da República, em 1889, e logo após o seu casamento com a caricaturista Nair de Teffé, Hermes da Fonseca, em uma guinada popular, abriu os salões do Palácio do Catete para a nossa música. Principalmente para a maestrina Chiquinha Gonzaga, amicíssima de Nair, tocar o Corta Jaca no Palácio.

O episódio caiu na boca da oposição e nas graças do povo. O político baiano, e eterno candidato a presidente, Rui Barbosa reclamou do absurdo que era executar uma música tão chula em ambiente tão nobre. O episódio foi suficiente para Hermes receber o apelido de “Dudu do Corta Jaca”. A fama de azarão também seguia o presidente, como podemos ver na composição Ai, Philonema, de J. Carvalho:

“Ai, Philomena

Se o Dudu sai a cavalo
O cavalo logo empaca
Só começa a andar
Ao ouvir o Corta Jaca

Os sambas cariocas

O vice de Hermes da Fonseca, Venceslau Brás, elegeu-se presidente em 1914, com 500 mil votos a mais que seu opositor. O problema de Venceslau não era o número de votos, mas uma ferida na perna que nenhum médico dava jeito. Resolveu então buscar a ajuda dos famosos orixás da baiana Ciata – e não é que ele ficou curado?
E foi justamente na casa de Tia Ciata, na Cidade Nova, no Rio de Janeiro, que surgiu o lendário samba Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida. O samba foi gravado em 1917 e carregava a influência do maxixe. Ao ouvir o registro da época, percebemos a ausência dos instrumentos de percussão, surdo, cuíca, tamborim, característico do samba urbano carioca:

O chefe da folia
Pelo telefone manda me avisar
Que com alegria
Não se questione para se brincar

É bom lembrar que Pelo Telefone não fez sucesso no rádio por um motivo muito simples: ele ainda não existia em terras tupiniquins. A transmissão radiofônica só tem início em 1922, no discurso de abertura das comemorações do Centenário da Independência, proferido pelo presidente Epitácio Pessoa. Em breve, as emissoras de rádio virariam a maior febre, com música popular, novelas, programas humorísticos – e como ótimos porta-vozes de projetos políticos.
Quem aproveitou as “ondas” do rádio, nas vozes de cantores como Francisco Alves e Mário Reis, foi a geração que no fim dos anos 1920 fundou as primeiras escolas de samba do Rio de janeiro: Ismael Silva, da Deixa Falar, no Bairro do Estácio, Cartola, da Estação Primeira de Mangueira e Paulo da Portela, da escola de Oswaldo Cruz, Portela.
Após 1930, o samba ganha outra forma com os instrumentos de percussão. Ao ouvir a composição que é o marco dessa época, Se Você Jurar, de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, é nítida a diferença entre a música do trio e Pelo Telefone:

Se você jurar
Que me tem amor
Eu posso me regenerar

O “Rei da Fuzarca” e o adeus à Primeira República

O último presidente da Primeira República, Washington Luís, tinha um estilo diferente dos outros ocupantes do Catete: era boêmio, divertido, entoava marchinhas de carnaval e gostava de futebol. Era conhecido como o “Rei da Fuzarca”.
Mas no Carnaval de 1929, o Rei da Fuzarca não foi “atrás do Cordão do Bola Preta”, famoso bloco carnavalesco carioca. O país sofria com a quebra da Bolsa de Nova York. A dureza era geral. O efeito foi imediato: menos “roupa” para os brasileiros. Um ano depois da Grande Depressão, o compositor Noel Rosa grava seu primeiro sucesso, Com Que Roupa? Uma alusão ao momento econômico do País:

Pois esta vida não está sopa.
E eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa eu vou
Pro samba que você me convidou?

E, afinal, na última eleição da Primeira República, quem usaria a faixa presidencial? O paulista Júlio Prestes ou Getúlio Vargas, representando a Aliança Liberal (os Estados de Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul)? E você pensa que o compositor Sinhô, o principal nome da primeira geração do samba, ficou de fora dessa disputa? Antes mesmo de saírem os números oficiais confirmando a vitória de Júlio Prestes, cantava-se nas ruas a marchinha Seu Julinho, do compositor:

Eu ouço falar
Que para o nosso bem,
Jesus já designou
Que seu Julinho é que vem

Mas se a letra contava com a vitória de Júlio Prestes (e ela realmente aconteceu) o autor nunca poderia imaginar que o país viraria de cabeça para baixo. O assassinato de João Pessoa (governador da Paraíba e candidato derrotado à Vice-Presidência na chapa de Getúlio Vargas) fez o time da Aliança Liberal tratar a questão com força bruta. “O barbado foi-se”, marchinha embolada de G. Ladeira e Doutor Boato (pseudônimo criado pelo compositor Lamartine Babo), enfatizava a deposição do presidente Washington Luís. Era o adeus a Primeira República:

A Paraíba,
Terra santa, terra boa,
Finalmente está vingada,
Salve o grande João Pessoa.
Doutor Barbado
Foi-se embora,
Deu o fora,
Não volta mais!

Em breve Getúlio Vargas sentaria na cadeira Presidencial. Getúlio não, “Seu Gegê”, como gostava de chamá-lo a classe artística.

André Diniz é historiador, professor e autor de vários livros, entre eles, o Almanaque do Samba (Zahar) e Pixinguinha: o gênio e o tempo (Casa da Palavra)

Livro

A República Cantada: Do choro ao funk, a história do Brasil através da música, de André Diniz e Diogo Cunha.  Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

Músicas

Memória Musical

Instituto Moreira Salles

Depoimento de Ismael Silva sobre a diferença de Pelo Telefone e seus sambas