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O aquecimento global começou a ser foco da atenção mundial a partir de 1988, data de fundação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Desde então, o Painel produz relatórios científicos para melhorar o conhecimento sobre as mudanças climáticas. No quinto relatório liberado em setembro de 2013, o IPCC AR5, o diagnóstico é alarmante: o aquecimento global é uma realidade, observando-se um aumento na temperatura da ordem de 0,9 grau desde 1850 (veja pág. 32). O IPCC AR5 atribui o aquecimento global observado nos últimos 50 anos majoritariamente às atividades humanas, com uma certeza de 95%.


Alguns dos resultados do IPCC AR5 afirmam ser muito provável que a temperatura suba em toda a América do Sul, com o maior aquecimento projetado para o sul da Amazônia. A previsão é de um aumento da temperatura média do Brasil de 0,5 grau (Centro-Sul) a 1,5 grau (Norte, Nordeste e Centro-Oeste) até o fim do século, no cenário mais otimista, e de 3 graus (Sul e litoral do Nordeste) a 7 graus (Amazônia), no pior cenário. Em relação às chuvas, porém, há incertezas, com diferentes estudos mostrando várias tendências. Mas existe grande confiabilidade para algumas regiões, como o Sul do Brasil e a Bacia do Prata, onde as chuvas vão aumentar.

A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre é a maior em pelo menos 800 mil anos, sendo 40% maior quando comparada à da era pré-industrial, por causa da queima de combustíveis fósseis. O aquecimento global é um processo natural intensificado pelo homem. Ou seja, há fatores antrópicos e há também fatores naturais.

Na escala nacional, e seguindo os moldes do IPCC, foi criado em 2009 o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (­PBMC) como um organismo científico composto por 345 pesquisadores, para reunir, sintetizar e avaliar informações científicas sobre os impactos relevantes das mudanças climáticas no Brasil.

Os resultados do primeiro Relatório de Avaliação Nacional do PBMC, publicado em 2013, reforçam as projeções de aumento de temperatura e de frequência de eventos extremos. O PBMC reúne os mais recentes resultados de pesquisas na área e sintetiza as principais tendências climáticas que, de acordo com os modelos, deverão ser observadas nas próximas décadas.

Os cenários sugeridos pelo relatório do PBMC assemelham-se aos indicados pelos relatórios do IPCC, incluindo o recente quinto relatório AR5. Para a Amazônia, fala-se de um aumento da ordem de 5 a 6 graus. Para o Nordeste, estima-se redução das chuvas em 20%, enquanto para o Sul e Sudeste poderemos observar aumento de extremos de precipitação – o que pode ser associado ao aumento da frequência de desastres naturais: chuvas intensas, deslizamentos, enchentes. De fato, essas oscilações de extremos são coincidentes com as mudanças climáticas.

Para o Sul, espera-se um aumento de temperatura relativamente inferior ao da Amazônia – pode chegar a 3 graus. As chuvas poderão se concentrar em poucos dias ou meses do ano. Rios do leste do Amazonas e do Nordeste brasileiro podem sofrer uma redução de vazão de 20%. Os da Bacia do Tocantins, de até 30%. Já os da Bacia do Prata, na Região Sul, poderão ter aumento de 10% a 40%. O Nordeste é a região mais vulnerável aos extremos da variabilidade e da mudança de clima. Outro impacto poderá ser observado sobre os ecossistemas oceânicos. Nos próximos 40 anos, eles poderão sofrer redução de 6% do potencial máximo de pesca.

No Brasil, ao analisar o histórico de ocorrência de eventos climáticos extremos, observou-se que nos últimos 30 anos é maior a frequência de chuvas fortes (com mais de 60 milímetros de chuva) no inverno do Sul e do Sudeste, onde a estação é seca. Isso não ocorria antes dos anos 1970.  Outros exemplos são as ­grandes ­secas ­históricas experimentadas pela Amazônia, em 2005 e 2010, e as enchentes de 2009 e 2012, na mesma região. No Nordeste, temos uma seca severa que começou em 2012 e permanece em 2013.

Segundo o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, as catástrofes naturais afetaram 96,2 milhões de brasileiros no período entre 1991 e 2012. Muitas dessas tragédias são deflagradas por extremos de clima. Episódios como inundações e estiagens mataram 2.475 pessoas nesse mesmo período.

Considerando as projeções de clima , estima-se que, nos próximos anos, as tragédias devam ser intensificadas por causa das inexoráveis mudanças climáticas. Infelizmente, os municípios ainda não estão preparados para responder a desastres, como o deslizamento de encostas na região serrana do Rio em 2011. A estiagem, por exemplo, costuma ser associada apenas ao Nordeste, como a atual seca, e da Amazônia, em 2005 e 2010, mas também atinge o noroeste do Rio Grande do Sul e o oeste catarinense em 2013.  Ou seja, todo o País é vulnerável a secas.

Os relatórios do PBMC e do IPCC mencionam a influência antrópica sobre o sistema climático, porém, é muito difícil dizer qual a porcentagem da variação é natural e qual é condicionada pela ação humana.

O IPCC e o PBMC fornecem conhecimentos científicos que podem ser usados por governantes para definir políticas ambientais e ajudar a enfrentar o problema de mudanças de clima e os seus impactos. O diálogo entre cientistas e gestores públicos nunca foi fácil, mas tem melhorado nos últimos tempos. É clássica a falta de comunicação – ou, melhor, a dificuldade de comunicação.

Traduzir o linguajar científico para a linguagem dos tomadores de decisão e para a população em geral ainda é um desafio. A população é vítima da falta de diálogo entre as esferas de governo e da inércia das autoridades locais. Falta coordenação. Os tomadores de decisão questionam a existência das mudanças climáticas. As autoridades estão cercadas por céticos e cientistas. Na dúvida, optam pela inércia, e esta falta de posicionamento culmina em um desastre com mortos.

No presente, mudanças políticas e econômicas têm sido adotadas para minimizar as emissões de gases de efeito estufa. As discussões nesse sentido foram iniciadas em 1992 com a Cúpula da Terra, conhecida como Rio-92. Nesse ano, foi estabelecida a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), embasada pelas avaliações do IPCC e que tinha como objetivo procurar soluções para problemas relacionados ao aquecimento global. É necessário um acordo para limitar as emissões dos gases de efeito estufa, o que poderia ter impactos econômicos, pois diminuiria o ritmo de crescimento das economias.

A principal medida adotada pelo ­UNFCCC foi o Protocolo de Kyoto, elaborado em dezembro de 1997 e que entrou em vigor em fevereiro de 2005. A demora de quase oito anos para a aprovação deu-se pela não ratificação dos Estados Unidos, à época o maior emissor de gases de efeito estufa. O objetivo do Protocolo de Kyoto foi controlar as emissões de seis tipos de gases de efeito estufa.

No entanto, um problema importante foi apresentado em sua concepção: os países em desenvolvimento não tinham metas de redução de emissões dos gases, o que caracterizava um comportamento de carona, usufruindo eventuais ganhos sem nenhum tipo de custo. Suas metas vigoraram entre 2008 e 2012, e atualmente há negociação entre países para que um novo protocolo seja consenso e entre em vigor o mais rápido possível. Além do Protocolo de Kyoto, outras ações foram tomadas visando ao combate das mudanças climáticas, como é a redução do desmatamento na Amazônia e o favorecimento do uso de energias renováveis, como a solar e eólica.