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Uma maneira de aprender mais sobre o mar é conhecer as obras de artistas que se inspiram em paisagens marítimas para realizar suas pinturas, gravuras, colagens e até interferências no oceano. De diversas maneiras, eles nos mostram outras formas de ver, sentir e conhecer os seres marinhos, as pessoas que moram perto das praias e as que trabalham no mar, como os pescadores e os marinheiros.


No Brasil, temos dois artistas muito importantes que representaram o mar em suas obras: Oswaldo Goeldi e José Pancetti. Além de pintar ou produzir gravuras, eles viveram a vida no mar ou à beira-mar, observando e registrando o universo ao seu redor.

Oswaldo Goeldi é um dos principais gravadores do Brasil. Filho de um naturalista suíço, ele nasceu no Brasil, em 1895, e mudou-se para a Suíça com a família quando tinha 6 anos. Mais tarde, estudou engenharia, como queria seu pai, mas não se adaptou à vida no novo país e tampouco desejava ser engenheiro. Com a morte do pai, em 1917, abandonou essa escola, em Zurique, e iniciou estudos na Escola de Belas Artes e Ofícios de Genebra. Dois anos mais tarde, voltou ao Brasil e se estabeleceu no Rio de Janeiro.

Durante as madrugadas, Goeldi transitava pelas ruas da cidade e nada escapava à sua observação. Ele desenhava as casas, os bêbados, os urubus, os cães, seres noturnos que encontrava em seus passeios solitários.

Os desenhos eram transformados em xilogravuras. Nessa técnica, o artista grava as imagens em um pedaço de madeira – a matriz – usando uma espécie de faca, chamada goiva. As linhas do desenho são cavadas na madeira. Depois de pronta, a matriz é coberta de tinta e a imagem é impressa em papéis, podendo ser reproduzida em várias cópias.

Goeldi produziu inúmeras gravuras em preto e branco e, em algumas delas, introduziu a cor. A produção de xilogravuras coloridas é bastante significativa, pois nos mostra a continuidade de suas pesquisas técnicas.

Entre as obras encontra-se um tema especial – o mar. Sua paixão pelo mar e a vida em torno dele está registrada em retratos dos peixes, do mercado, da chegada dos barcos na praia com suas redes repletas de peixes e, especialmente, dos pescadores, que compõem o universo do artista que vivia à beira-mar.

Outro olhar sobre o mar pode ser observado na obra de José Pancetti – o pintor marinheiro. Filho de imigrantes italianos, ele nasceu em Campinas, em 1902, mas, diante das dificuldades financeiras da família, foi mandado com a irmã para a Itália e, aos 17 anos, ingressou na Marinha Mercante.

Entre suas idas e vindas pelo mar, em navios que cruzavam os oceanos, ele voltou ao Brasil. Em fevereiro de 1920, desembarcou em Santos, onde trabalhou como garçom, operário têxtil e faxineiro até se mudar para São Paulo e ser empregado como pintor de paredes e cartazista, passando pouco depois a ajudante do pintor Adolfo Fonzari.

Dois anos depois, entrou para a Marinha de Guerra. Nas viagens, Pancetti pintou esboços de navios em caixas de charutos, pequenos cartões-postais que eram trocados por cigarros com os colegas. Em 1926, ingressou no quadro de pintores da Companhia de Praticantes Especialistas de Convés e teve seu nome ligado ao tom de verde que pintava os cascos de navios – o verde Pancetti.

O ir e vir nos mares impediu-o de um estudo regular da pintura, mas em 1933 ele passou a servir no Quartel do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro, e teve, finalmente, a chance de frequentar o Núcleo Bernardelli. O lugar, fundado em 1931, funcionava como um ateliê livre, onde não havia professores, mas orientadores. Seus integrantes queriam a renovação do ensino artístico na Escola Nacional de Belas Artes  (RJ). A permanência foi curta, mas teve grande importância em sua vida de pintor.

O amor pelo mar foi o tema principal de sua obra. Os diferentes tons da água, as cores da areia e os reflexos do céu sempre estão presentes em suas pinturas com grandes áreas de cores puras e brilhantes, que vão além do verde Pancetti dos cascos de navio.  Mar e pincel se encontraram na obra desse artista que também pintou paisagens, naturezas-mortas, retratos e autorretratos, onde se representou como marinheiro, almirante, pintor, pescador e outras personalidades.

Além dos mares daqui, estrangeiros nos mostram trabalhos distintos sobre o oceano. O francês Henry Matisse usou tesoura e papéis coloridos para recortar algas, plantas do fundo do mar, peixes e gaivotas que parecem estar em movimento em sua obra.

Matisse recortava as figuras sem desenhá-las antes. Ele viveu em Nice, cidade praiana no Sul da França, onde fez grande parte de seu trabalho. O artista desenvolveu essa técnica quando estava doente e tinha de ficar em cadeira de rodas. Sem poder pintar em pé, passou a recortar suas figuras em papéis de cores puras e fortes. Essas figuras eram montadas em grandes painéis por seus assistentes, que seguiam sua orientação.

Matisse fez várias obras com essa técnica, chamada pelos franceses de papiers découpés 
(“papéis recortados”). Além da invenção, o artista provocou mudanças na pintura. Ele não acreditava na representação das coisas exatamente como eram. O que importava em sua obra era a maneira de representá-las com formas e cores alegres, como seu próprio temperamento. “Com os meus olhos exageradamente abertos, absorvo tudo, como uma esponja absorve um líquido”, dizia.

Matisse estudou Direito para atender à vontade do pai. Mas, aos 20 anos, mudou essa rota. Em recuperação de cirurgia no apêndice, a mãe o presenteou com um estojo de tintas, com o qual fez seu primeiro quadro. A partir daí, o jovem abandonou a carreira de advogado e dedicou sua vida à pintura.

Para finalizar esse mar de informações, vale conhecer um artista que tem um trabalho bastante diferenciado. Christo nasceu na Bulgária, em 1935. Nem pintor nem gravador, iniciou carreira artística em Paris, em 1951. Ele embrulhava objetos variados para provocar as pessoas a pensarem sobre a indústria. Disso, ele passou a empacotar pontes e a cercar montanhas e até ilhas.

Em parceria com a esposa, Jeane-Claude, Christo já embrulhou a famosa ponte de Paris, a Pont Neuf, e construiu uma cortina entre as montanhas do Colorado, nos Estados Unidos. Entre 1980 e 1983, eles cercaram três ilhas em Biscayne Bay, nos EUA, com plástico cor-de-rosa, dando a impressão de uma grande pintura no oceano. A intenção da dupla é mostrar uma relação harmoniosa entre natureza e arte. Os locais das muitas  instalações ambientais são estudados e toda a intervenção é planejada com muito cuidado. Para realizar os projetos, eles pesquisam materiais que não causem danos à natureza e não perturbem a vida animal e vegetal.

As obras levam até dois anos para ser rea
lizadas, mas ficam por período curto no local. Passada a intervenção, o lugar retoma seu estado original e os materiais se reciclam. Todos os trabalhos são fotografados e filmados para que permaneçam na história da arte, e um aspecto importante da obra da dupla é a capacidade de convencer as autoridades a permitir as intervenções e conseguir financiamento. Algumas foram financiadas pela venda de colagens e esboços preparatórios.

Como o horizonte, são infinitas as técnicas, ideias e proposições dos artistas que nos surpreendem e nos ensinam a olhar o mar.

Renata Sant’Anna é autora de livros de arte para crianças e professores e educadora no Museu de Arte Contemporânea da USP