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Desenhar pode ser um ato cotidiano. Não é apenas exercício que necessita de prática, é também uma maneira de apreender o mundo e de dar forma às imagens mentais. Dentro do âmbito da educação, o desenho está bastante presente nos primeiros anos do ensino, entretanto, na medida em que a escrita e os conteúdos programáticos entram no currículo, as artes visuais e as outras linguagens artísticas perdem espaço e tempo nas escolas.


Talvez, caiba-nos, entre outras ações, pensar em ferramentas e estratégias que permitam, desde cedo, a construção de uma prática criativa autônoma – nesse caso, de desenho – para que o aluno consiga estabelecer a importância de tal atividade para a sua própria vida e possa perpetuá-la, apesar das situações de ensino que lhe serão oferecidas.

O caderno de desenho, ferramenta conhecida do universo escolar, é também recurso importante para os artistas de diversas épocas. Espécie de ateliê portátil, ele reúne esboços, projetos, estudos, desenhos do dia a dia. Possibilita ao seu portador uma prática contínua, que pode acontecer em lugares variados.

Dentro do contexto escolar, talvez ele se situe entre o diário pessoal e a lição. Misto de espaço privado e público, nele o aluno pode desenvolver seus próprios desenhos livremente, promovendo uma autointerlocução, um registro mnemônico do tempo. Contudo, como o objeto ainda permanece sob a tutela do professor e da instituição, é ainda um lugar no qual as regras comuns ainda imperam. Para as crianças menores, talvez esse fato não seja considerado no momento da criação, mas para os adolescentes e jovens essa diferença entre um objeto pessoal, que é de uso escolar, e o diário privado, ao qual apenas eles têm acesso, é significativa na escolha de como se relacionar com o caderno.

Assim sendo, um desafio perdura: como utilizar essa ferramenta de ensino de modo a transformar uma prática assistida pela escola em uma ferramenta autônoma? A proposta
aqui não é fazer com que o caderno de desenho seja usado pelos alunos apenas fora da escola, mas, sim, promover exercícios e atividades que possibilitem a compreensão de que esse instrumento pode existir em diferentes contextos. Para tal, uma aproximação com os livros de artistas, bem como seus cadernos de desenho, nos ajudará a abrir novas perspectivas para um material já explorado.

Presentes nas artes plásticas há muito tempo, não podemos afirmar que a função dos cadernos e o modo de usá-los foram sempre os mesmos. No século XX, muitos artistas, brasileiros ou não, fizeram uso dele para registrar seus desenhos e pensamentos cotidianos: levaram-no em suas viagens, registraram com linhas, formas, manchas e até palavras suas ideias e observações.

Em 1926, por exemplo, Tarsila do Amaral, registrou em um bloco de anotações sua viagem ao Oriente (desenhos publicados no livro Tarsila do Amaral, Ed. da Unicamp e Imprensa Oficial, 2008). Com poucas linhas, a artista elege o que lhe interessa das paisagens que observa: desenha as montanhas de Jericó, o Mar Morto, o Rio Jordão e os templos gregos. São desenhos rápidos, sintéticos, que exprimem as linhas principais da composição e, por vezes, apresentam anotações de cores para cada uma das áreas delimitadas.

Já Marcello Grassmann realizou um caderno de viagem entre os anos de 1954 e 1955 (fac-símile do caderno foi publicado pela Edusp, 2013). Em cada folha do caderno, vemos a anotação do ano e lugar (Viena, Roma ou Paris), contudo, diferentemente do bloco de anotações de Tarsila, não há paisagens ou cenas que representam os locais percorridos, nos deparamos com os seres de Grassmann povoando as páginas. O caderno já não é depositório de observações do real, é espaço para desenvolver imagens que brotam da mente e que compõem o repertório do artista, às vezes, utilizados posteriormente em outras composições ou meios, como a gravura. Os autores do ensaio que acompanha o fac-símile pontuam a importância desse caderno para a compreensão da obra do artista como um todo. O caderno de desenho pode, assim, possuir funções múltiplas para os artistas que dele fazem uso, por isso a ideia de ateliê portátil pode ser tão interessante.

Nas atividades a seguir, propomos que os alunos façam seus cadernos de desenho. Para que eles possam criar uma relação afetiva com esse suporte, mais de um tipo de encadernação pode ser usado.

Por que indivíduos diferentes devem expressar-se com materiais iguais? Padronizados? É possível que cada aluno construa seu próprio caderno, já pensando no tipo de trabalho que deseja realizar. Ao permitir que as crianças ou os adolescentes construam seus próprios objetos, que tenham consciência das escolhas que estão envolvidas nesse processo, possibilita-se que tenham o domínio do meio de produção, que o uso do caderno não seja uma tarefa alienada ao processo que o produz.

A observação de reproduções de livros de artista e cadernos de desenho pode auxiliar na tomada de consciência do potencial desse material. Já o estudo da encadernação, desde suas formas mais simples até as mais complexas, gera autonomia e a personalização desse objeto. Talvez, assim, seja possível estimular essa ferramenta pessoal, esse companheiro cotidiano, tanto na escola quanto fora dela.

Livros

Dentro dessa perspectiva, podemos nos aproximar dos livros de artistas que, a partir da segunda metade do século XX, fizeram-se presentes na arte contemporânea. Cabe ressaltar que, diferentemente do caderno, objeto único e pessoal, o livro tem como pressuposto uma tiragem, mesmo que pequena, e sua circulação. Sendo assim, a ideia de um único original se perde, o artista trabalha vislumbrando a multiplicação.

Segundo Ulises Cárrion (1941-1989), em The New Art of Making Books, 1975 (A nova arte de se fazer livros), um livro é uma sequência de tempo-espaço, cada página (ou seja, cada espaço) é percebida em um momento diferente. Assim sendo, o autor entende que um livro é mais do que um objeto que contém um texto, ele é uma estrutura com características próprias que deve ser explorado e evidenciado em todo o seu potencial. Por isso, um escritor não deve apenas pensar na sintaxe e composição de seu texto, é preciso considerar também as páginas, sua sequência, apresentação, ritmo. Uma página não necessita (em sua forma, aparência e composição) ser igual à outra.

O artista e designer Bruno Munari, na década de 1950, começou a pensar esses objetos como detentores de significados que 
ultrapassam as palavras nele inseridas. Os materiais que compõe o livro – o tipo, a cor e o formato do papel, por exemplo – também carregam em si significados e podem contar uma história, uma narrativa que pode ser criada pelo leitor a partir de sua experiência. Os Livros Ilegíveis não são formados por textos, mas por páginas de cores e tipos de papéis distintos, com corte, formas e intervenções que constroem uma narrativa por meio dessa sequência de espaços. Os Pré-Livros, pequenas publicações feitas para crianças ainda não alfabetizadas, também exploravam a potência dos materiais e ofereciam a seus pequenos leitores a possibilidade de se deleitar com o objeto, para criar, assim, o apreço pelo livro e pelo hábito da leitura.

Artistas brasileiros contemporâneos, como Lygia Pape, Paulo Bruscky, Edith Derdyk e Amélia Toledo, exploraram o potencial do livro como objeto em sua obra. Toledo produziu livros como Gênesis, 1959, no qual utiliza papel de seda e papel de arroz tingido e recortado com as mãos para compor formas sequenciais que criam a narrativa; além de Divino e Maravilhoso para Caetano Veloso, no qual cria o livro a partir do formato das capas de discos de vinil.

As possibilidades do livro foram exploradas por diversos criadores e, em uma busca rápida na internet ou em bibliotecas, nos deparamos com muitos modos de usar esse suporte. O que nos interessa nessa aproximação é pensar que o caderno de desenho, assim como um livro, é um objeto com características próprias que não precisa ser massificado ou comprado.

Com a ideia de sequência de espaço-tempo de Carrión, pode-se  considerar o caderno como um meio ou suporte experimental, aberto a diversas possibilidades. Discute-se tanto seu conteúdo (que tipos de imagens ele recebe, como ele é usado pelo aluno, que tipo de relação se estabelece com ele), quanto sua forma. Cada página dele pode ser considerada um espaço com propriedades específicas – um certo tamanho e formato, feita de um determinado material, com uma cor própria – que cria sentidos e significados que estão atrelados às interferências e desenhos realizados pelo aluno, ou seja, não é necessário ignorar o meio sobre o qual se age.

*Helenira Paulino é graduada em Artes Visuais pela Unicamp e trabalha na Escola Miguilim