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Uma viagem extraordinária

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Uma viagem extraordinária, de Jean-Pierre Jeunet
Personagem de Kyle Catlet demonstra talento e fragilide.
Desde Os Incompreendidos (1959), o célebre longa-metragem de estreia do diretor francês François Truffaut, tornou-se relativamente comum alçar crianças ao papel de protagonistas no cinema. Muitas delas correspondem na tela ao estereótipo do “geniozinho”, como em Mentes Que Brilham (1991), dirigido e estrelado pela atriz americana Jodie Foster, e Lances Inocentes (1993), dirigido pelo roteirista americano Steve Zaillian (que escreveu A Lista de Schindler e a versão hollywoodiana de Os Homens Que Odiavam as Mulheres).
Dirigido e coescrito pelo francês Jean-Pierre Jeunet (Ladrão de Sonhos, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), com base em livro do americano Reif Larsen, Uma Viagem Extraordinária pertence também a essa família, em que crianças com uma precoce e avançada capacidade de processar um determinado tipo de informações sofrem porque, apesar disso, não deixaram de ser crianças. Incapazes de lidar com jogos e emoções do mundo adulto, elas são muitas vezes manipuladas, inclusive por seus pais, e transformadas em uma espécie de atração de circo.
O talento de T. S. Spivet (interpretado por Kyle Catlett) está voltado para as ciências, com uma extraordinária capacidade de observar fenômenos da natureza e mecânicos, de fazer cálculos e de imaginar soluções para problemas concretos. No livro, ele tem 12 anos. No filme, ficou dois anos mais jovem, o que amplia a imagem de fragilidade que ele projeta, sobretudo quando passamos a entender melhor a dinâmica de sua família, que vive em uma ampla e isolada fazenda no estado de Montana (EUA).
O pai (Callum Keith Rennie) é um protótipo do vaqueiro americano, muito ligado à terra, mas uma figura ensimesmada que pouco se comunica. A mãe (Helena Bonham Carter) é uma entomologista que trabalha em casa, pesquisando de maneira obsessiva o comportamento de insetos, e às vezes mais atenta a eles do que aos filhos. A família de T. S. se completa com uma irmã adolescente (Niamh Wilson), que sonha sair da fazenda para estudar em uma grande cidade e virar atriz, e um irmão gêmeo (Jakob Davies) que nasceu com problemas.
Uma tragédia altera decisivamente o cotidiano de todos, e T. S. responde a ela como poderia responder uma criança de 10 anos. Um pouco para fugir do que pensa ser responsabilidade sua, empreende a tal jornada do título, que é mesmo extraordinária. Quando o faz, tem início um filme de estrada que se alimenta do contraste entre a sabedoria científica do pequeno protagonista e sua ingenuidade para lidar com os aspectos mais básicos da existência.


>Desde Os Incompreendidos (1959), o célebre longa-metragem de estreia do diretor francês François Truffaut, tornou-se relativamente comum alçar crianças ao papel de protagonistas no cinema. Muitas delas correspondem na tela ao estereótipo do “geniozinho”, como em Mentes Que Brilham (1991), dirigido e estrelado pela atriz americana Jodie Foster, e Lances Inocentes (1993), dirigido pelo roteirista americano Steve Zaillian (que escreveu A Lista de Schindler e a versão hollywoodiana de Os Homens Que Odiavam as Mulheres).
Dirigido e coescrito pelo francês Jean-Pierre Jeunet (Ladrão de Sonhos, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), com base em livro do americano Reif Larsen, Uma Viagem Extraordinária pertence também a essa família, em que crianças com uma precoce e avançada capacidade de processar um determinado tipo de informações sofrem porque, apesar disso, não deixaram de ser crianças. Incapazes de lidar com jogos e emoções do mundo adulto, elas são muitas vezes manipuladas, inclusive por seus pais, e transformadas em uma espécie de atração de circo.
O talento de T. S. Spivet (interpretado por Kyle Catlett) está voltado para as ciências, com uma extraordinária capacidade de observar fenômenos da natureza e mecânicos, de fazer cálculos e de imaginar soluções para problemas concretos. No livro, ele tem 12 anos. No filme, ficou dois anos mais jovem, o que amplia a imagem de fragilidade que ele projeta, sobretudo quando passamos a entender melhor a dinâmica de sua família, que vive em uma ampla e isolada fazenda no estado de Montana (EUA).
O pai (Callum Keith Rennie) é um protótipo do vaqueiro americano, muito ligado à terra, mas uma figura ensimesmada que pouco se comunica. A mãe (Helena Bonham Carter) é uma entomologista que trabalha em casa, pesquisando de maneira obsessiva o comportamento de insetos, e às vezes mais atenta a eles do que aos filhos. A família de T. S. se completa com uma irmã adolescente (Niamh Wilson), que sonha sair da fazenda para estudar em uma grande cidade e virar atriz, e um irmão gêmeo (Jakob Davies) que nasceu com problemas.
Uma tragédia altera decisivamente o cotidiano de todos, e T. S. responde a ela como poderia responder uma criança de 10 anos. Um pouco para fugir do que pensa ser responsabilidade sua, empreende a tal jornada do título, que é mesmo extraordinária. Quando o faz, tem início um filme de estrada que se alimenta do contraste entre a sabedoria científica do pequeno protagonista e sua ingenuidade para lidar com os aspectos mais básicos da existência.