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sergio rizzo

Entre todos os realizadores de animação em atividade hoje no mundo, ninguém desperta mais respeito e admiração do que o japonês Hayao Miyazaki, 73 anos. Alguns de seus principais filmes, como A Viagem de Chihiro (2001) e O Castelo Animado (2004), costumam figurar em listas de melhores longas do gênero na história, inclusive nos EUA, onde o primeiro recebeu o Oscar na categoria e o segundo foi indicado ao prêmio.


Em uma aliança que talvez pareça curiosa para muita gente, mas que ajuda a atestar o prestígio internacional de Miyazaki, o grupo Disney contribuiu decisivamente para difundir a obra do cineasta japonês, distribuindo diversos de seus filmes nos EUA, no Canadá e em outros países. Que o império criado por Walt Disney (1901-1966) reconheça nele não apenas um artista de primeira grandeza, mas também um diretor capaz de alcançar o grande público, é uma deferência que fala por si.

Seu mais recente longa, Vidas ao Vento, reúne sozinho características capazes de explicar a importância de Miyazaki a alguém que ainda não conheça a sua obra. Infelizmente, talvez seja também o seu derradeiro filme: ele anunciou a intenção de se aposentar. Tudo indica que seu filho, Goro Miyazaki, manterá a tradição da família – embora a sombra do pai e a fuga das inevitáveis comparações o tenham afastado voluntariamente da animação por muito tempo, ele estreou na direção de longas em Contos de Terramar (2006).

Miyazaki

Em Vidas ao Vento, que disputou também o mais recente Oscar de longa de animação (vencido por Frozen, da Disney), revela-se em primeiro lugar a exuberância do traço de Miyazaki, adepto fiel das técnicas tradicionais da animação e do estilo japonês de caracterizar os rostos dos personagens. Mas na escolha e no desenvolvimento da trama outras marcas do cineasta reaparecem. O protagonista da história é inspirado em Jiro Horikoshi (1903-1982), lenda da aviação japonesa.

Horikoshi participou da construção de aviões de combate usados pelo seu país na Segunda Guerra Mundial. Um trabalho muito diferente do que ele imaginava na infância, quando já sonhava com máquinas voadoras. Jiro, o menino sonhador, interessa mais a Miyazaki do que ao senhor Horikoshi, o projetista de armas de guerra. Da infância à vida adulta, acompanhamos seus ritos de passagem e as marcas dolorosas que o tempo imprime a essa figura doce e romântica. No tratamento frontal da morte, o filme demonstra por que Miyazaki é considerado um mestre: não há assunto que ele não consiga abordar, mesmo os mais difíceis para um filme de animação, e não há assunto que ele não trate com intensa poesia.

*Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema, doutor em Educação Audiovisual pela USP e professor universitário

*Publicado originalmente em Carta Fundamental