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Alê Abreu

O conceito de sustentabilidade pode ser explicado e ilustrado de diversas maneiras. Chegar a uma formulação que seja compreendida simultaneamente por pessoas de todas as idades e formações corresponde, no entanto, a um desafio complicado.


Pois a animação brasileira O Menino e o Mundo conseguiu essa façanha, mesmo sem ter perseguido o objetivo, ao usar uma ideia simples e poética – é preciso plantar na infância a árvore que nos fará sombra na velhice – para coroar a trajetória de seu personagem principal. E sem o uso de palavras, apenas por meio de imagens.

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Cinema de arte

Todo o filme, aliás, se alimenta da linguagem não verbal. Diretor de Garoto Cósmico (2007), Alê Abreu teve a coragem de enfrentar um tabu da indústria cinematográfica e também da tevê, que têm pouca tolerância (quase nenhuma, na tevê) a situações mais intimistas em que o espectador precisa acompanhar uma obra sem que as palavras expliquem o que acontece e, portanto, o orientem no percurso de apreciação.

Filmes como O Menino e o Mundo nos transformam em uma espécie de coautores; sem a nossa participação ativa para fazer interpretações e conexões, a experiência estética não se concretiza.

O menino do título sente, como tantas crianças, a ausência do pai. E, para buscá-lo, decide partir em direção ao “mundo” – ou seja, abandonar o lar e a região onde cresceu, e cair na estrada. Seu olhar ainda ingênuo volta-se, então, para um universo de exploração do trabalho e de cultura do consumo desenfreado, em que o homem explora o homem enquanto contribui também para destruir os recursos do planeta e torná-lo menos humano e mais brutalizado.

Com essa estratégia, o filme convida o público a “limpar” os olhos e a contemplar o cotidiano sem o condicionamento que, no dia a dia, nos impede de verdadeiramente enxergá-lo.

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Ao longo da jornada percorrida pelo protagonista, vemos também imagens de outros filmes, como Iracema, uma Transa Amazônica (1974), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, e Ecologia (1973) e ABC da Greve (1979/1990), ambos de Leon Hirszman. Abreu dispensou os diálogos, mas não a trilha sonora, que representa um dos pontos altos do filme.

Cabe à música parte da tarefa que normalmente seria dos diálogos ou de uma eventual narração, ao “comentar” a ação de uma forma pulsante e envolvente. A música-tema foi composta e interpretada pelo rapper Emicida, enquanto Naná Vasconcelos e os grupos Barbatuques e GEM (Grupo Experimental de Música) executam a trilha composta por Ruben Feffer e Gustavo Kurlat.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema, doutor em Educação Audiovisual pela USP e professor universitário