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Cinderela
Lily James e Richard Marden no novo filme da Disney

Cuidadosas abordagens de contos de fadas e de personagens da cultura popular infantojuvenil ajudaram a fazer do Grupo Disney um dos principais gigantes de entretenimento do planeta. Os produtos que nascem dessas adaptações são “imortais” e, quando se detecta que alguma história pode ser reapresentada ao público, para renovar seus espectadores, aciona-se o acervo e promove-se a reciclagem. É o caso da superprodução Cinderela, que estreou em março nos cinemas brasileiros.


Superprodução? Em termos. Ainda que o filme tenha custado 95 milhões de dólares, quantia inimaginável para um filme realizado em qualquer outro país que não os Estados Unidos, saiu “barato”, se comparado ao orçamento de congêneres recentes como Malévola (180 milhões de dólares), Oz – Mágico e Poderoso (215 milhões) e Branca de Neve e o Caçador (170 milhões). Registre-se que seus lançamentos consumiram um montante adicional, cerca de 50% do custo de produção. Não há dúvida de que a nova Cinderela foi um bom negócio para a Disney: apenas no primeiro fim de semana de exibição, antes mesmo de estrear em diversos países (como o Brasil), o filme já arrecadou 145 milhões de dólares.

O acervo da Disney entrou nesse projeto com a animação Cinderela (1950), grande sucesso de bilheteria (e também de venda de produtos associados) que ajudou a fortalecer o grupo. Coube ao diretor inglês Kennneth Branagh (de Henrique V e Voltar a Morrer) usar o desenho clássico como espécie de matriz, mantendo as linhas mestras da história. Para usar atores de carne e osso, foram escolhidos a dedo, com base em padrões internacionais de beleza vigentes hoje, os intérpretes da órfã maltratada pela madrasta (Lily James, do seriado Downton Abbey) e do príncipe com quem ela se casará (Richard Madden, do seriado Game of Thrones).

Para os espectadores adultos, um bônus vem do elenco secundário, recheado de atores experientes, como Cate Blanchett (vencedora de dois Oscar, como coadjuvante por O Aviador e como atriz principal por Blue Jasmine) no papel da madrasta, Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei) como a fada madrinha, Stellan Skarsgard (Melancolia) como o grão-duque e Derek Jacobi (Henrique V) como o rei. Mas a opção mais importante talvez tenha sido a de reforçar os traços de drama romântico da história, de olho no público feminino.

Deu certo, a julgar pelas estatísticas do primeiro fim de semana: 66% do público de Cinderela nos EUA era de mulheres. É razoável supor que os homens da plateia tenham sido arrastados por elas, na condição de pais, maridos e namorados. Eis um tema interessante para discutir com crianças e jovens: o gênero interfere no gosto de alguém por cinema e literatura? A Disney, ao menos, acredita que sim.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema, doutor em Educação Audiovisual pela USP e professor universitário