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Lima Barreto

A literatura brasileira do fim do século XIX e início do XX é imediatamente associada ao nome de Machado de Assis, cuja presença costuma ter tanta força que acaba excluindo outros nomes que marcaram época. Um deles é Lima Barreto. Nascido no Rio de Janeiro (1881-1922), sua escrita impressiona pela lucidez e percepção sofisticada da complexidade do Brasil.


O livro Lima Barreto: Uma autobiografia literária, organizado por Antonio Arnoni Prado, é excelente maneira de aproximar-se da obra e da vida do escritor, de compreender como uma e outra se mesclam e mostram uma vontade de intervir na sociedade. É surpreendente dar-se conta de que muitos deles poderiam certamente ter sido escritos nos dias de hoje: as críticas de Barreto eram tão profundas que continuam tendo validade e nos fazendo refletir.

Em vez de escrever um trabalho crítico ou uma biografia tradicional, como aquelas que estamos acostumados a ler, o historiador da literatura Arnoni Prado reconheceu a força da voz de Lima Barreto e deu a ele a chance de narrar sua vida. Através de fragmentos de diversos escritos do autor, desde diários íntimos, passando por ensaios, críticas, conferências, até as obras literárias, foi composta assim uma autobiografia que, de certa forma, já estava contida no extenso material que Barreto deixou, e só precisava ser descoberta.

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Cada um dos nove capítulos dá lugar a uma perspectiva . Ao mesmo tempo,  percebemos constantemente como para Lima Barreto todas essas perspectivas eram complementares. Isso faz sentido se atentarmos para o que José Veríssimo considerava um “defeito” do escritor: o fato de faltar-lhe “a arte de esconder (a vida) quando talvez a arte o exija”. Mas é justamente essa intersecção entre vida e arte, e o reconhecimento de uma na outra, que particulariza  a obra de Barreto e traz tanto interesse para a autobiografia.

Para aqueles que não conhecem o autor, a leitura desse livro é uma entrada ao seu universo e um estímulo para procurar outros livros: tanto o mais conhecido, Triste Fim de Policarpo Quaresma, quanto alguns outros de que pouco se fala, mas de que facilmente se reconhece a qualidade, como Recordações do Escrivão Isaías Caminha, ou alguns de seus contos e crônicas, como O Homem Que Sabia Javanês ou Poesia e Poetas.

Nesta última, aliás, Barreto nos explica a sua intenção profunda de escrever para intervir na sociedade: “A poesia, a arte, é uma instituição social; ela surge da sociedade para a sociedade. O poeta, seja rico, seja pobre, feliz ou infeliz, o seu primeiro dever é comunicar-se com os outros e dizer-lhes a que vem e para o que vem; e não é possível fazer tal coisa sem publicar-se e não é possível imprimir-se sem transigir”.

*Publicado originalmente em Carta na Escola