COMPARTILHE
Sebastião Salgado
Filme O Sal da Terra percorre vida e obra do fotógrafo

Mais conhecido por longas-metragens de ficção como O Amigo Americano (1977), Paris, Texas (1984) e Asas do Desejo (1987), o diretor alemão Wim Wenders tem se aventurado também, ao longo de toda a carreira, pelo terreno do documentário. Fez homenagens a cineastas que o influenciaram, como o americano Nicholas Ray (Um Filme para Nick, 1980) e o japonês Yasujiro Ozu (Tokyo-ga, 1985), apresentou ao mundo um grupo de extraordinários e esquecidos músicos cubanos (Buena Vista Social Club, 1999) e dedicou à memória da coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009) um ousado projeto em 3D que celebrou a sua importância para a dança moderna (Pina, 2011).


Wenders tornou-se o que muitos chamam de “grife”, conquistando para esses filmes um interesse maior do que a procura habitual por documentários – relegados, em geral, a um espaço diminuto do mercado cinematográfico. Em O Sal da Terra, que disputou o Oscar da categoria, essa “grife” de prestígio internacional junta-se à outra de idêntica relevância, mas em outro campo: a do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, cuja trajetória é reconstituída por Wenders com o olhar confesso de um admirador. Olhar e também voz: a narração do diretor nos conduz ao trabalho de Salgado com base em um recorte que valoriza elementos estéticos, sociais e políticos.

Desta vez, Wenders foi convidado a ingressar em um trabalho que já era desenvolvido por um dos filhos do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado. Durante os últimos anos, Juliano acompanhou o pai e registrou em imagens a sua rotina de trabalho. O convite a Wenders teve o objetivo de levar ao documentário um olhar “exterior”, equidistante, que evitasse o tom de “filme familiar” e, ao mesmo tempo, trouxesse uma abordagem de Salgado por outro profissional da imagem – muito atento, portanto, à contribuição do fotógrafo para a representação do mundo em que vivemos.

Ao optar por esse modelo de codireção, O Sal da Terra passou a ter diversos apelos. O mais evidente deles é apresentar a carreira de Salgado com uma riqueza de detalhes que cobre desde suas origens familiares até o modelo bem-sucedido de projetos fotográficos desenvolvido por ele e por sua mulher – jornadas de trabalho que duram anos, sempre em torno de temas preestabelecidos, e que depois dão origem a livros e exposições. Outro apelo, de especial interesse para todos os que estudam a imagem, inclusive na escola, diz respeito à exibição e análise de dezenas de fotografias de Salgado, apresentadas e examinadas por Wenders com o zelo afetivo de um professor apaixonado pelo seu tema.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema, doutor em Educação Audiovisual pela USP e professor universitário