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Houve um episódio da Primeira Guerra Mundial que talvez seja o cartão de visitas do futebol para o século XX. Conta-se que uma pausa no campo de batalha foi combinada entre britânicos e alemães para comemorar o Natal.


Entre as trincheiras, na zona neutra, soldados de ambos os lados se encontraram para se saudar, trocar cigarros e desejar feliz Natal uns aos outros. De repente, uma bola foi jogada na zona neutra e teve início uma espécie de jogo de futebol nos quais britânicos e alemães se misturaram. Sem placar, sem juiz, sem animosidades. Horas depois, tudo voltou ao normal. E o fato entrou para a história.

Esse é um de vários grandes momentos envolvendo o esporte inventado pelos ingleses e a política que fazem parte de Vencer ou Morrer: Futebol, geopolítica e identidade nacional, (Faperj/Mauad, 2002), do historiador Gilberto Agostino, da UFRJ, precocemente morto aos 38 anos em 2005.

Agostino debruçou-se sobre a ascensão do futebol como esporte de massas e em sua utilização como interação governo-povo, em estados democráticos e ditatoriais.

Ainda durante a Primeira Guerra, vendo o apelo popular do futebol, o governo britânico formou uma equipe de militares que percorria o país a fazer exibições. O objetivo era atrair jovens para o front no continente. E não demorou muito para o futebol e a política andarem de mãos dadas pelo restante da Europa. A modalidade foi ao encontro dos anseios fascistas de Hitler e Mussolini.

Especialmente este último soube aproveitar a recém-criada Copa do Mundo como propaganda de seu regime a proclamar uma suposta superioridade do homem italiano.

A Itália foi a sede da Copa do Mundo de 1934 e usou de todos os meios extracampo para fazer campeão o time da casa. Quatro anos depois, na Copa da França, às vésperas da Guerra, Mussolini destacou um avião para levar o escrete italiano entre os locais dos jogos, luxo imensurável à época – as outras equipes só viajavam de trem.

A torcida francesa lotava as arquibancadas para torcer contra a Itália e gritar cânticos antifascistas. Na véspera da final entre Itália e Hungria, Mussolini mandou a mensagem aos seus atletas: “Vencer ou morrer”. Venceram por 4 a 2 e voltaram com honras de Estado. O mesmo não ocorreu com a Alemanha de Hitler. Derrotados de virada pela Suíça nas oitavas de final, voltaram ao seu país sofrendo perseguições. Conta-se que Hitler, raivoso, quebrou o rádio que transmitia a derrota nazista em campo.

Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo socialista também captou a relevância popular do esporte – e, claro, o futebol. A seleção soviética venceu alguns amistosos contra os ingleses durante os anos 1950, o que foi suficiente para criar uma aura de “superseleção” para a Copa de 1958.

Como os russos supostamente investiam em segredo no rendimento físico de seus atletas, a União Soviética entrou para a Copa com status de favorita. Mas o chamado “futebol científico” acabou derrotado para a mestiça e improvisada Seleção Brasileira de Didi, Pelé e Garrincha. Caía um mito, outro tinha início.

A obra de Gilberto Agostino tem o mérito de uma pesquisa memorável. Foram 115 livros e estudos nacionais e internacionais sobre a absorção do futebol pela política. O meio acadêmico do Brasil sempre tratou o futebol com certo desdém. Vencer ou Morrer é um marco na correção desta rota.

Os fãs da modalidade dizem que o futebol é microcosmo da vida e dentro do campo tudo o que ocorre fora dele também pode ocorrer. Mais do que isso, Agostino mostrou que o futebol é parte importante dela como um todo.

* O livro Vencer ou  Morrer, de Gilberto Agostino, Editora  UFRJ/Maud, está esgotado.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental