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Música indígena

No início só havia o som do estrondar das cachoeiras, segundo a interpretação de Gabriel Gentil acerca do mito Tukano de criação do mundo. Nele repousava o deus que animou todas as coisas vivas. Além do mito, em relatos científicos sobre essa região, referências ao poder musical e encantatório das cachoeiras não são difíceis de encontrar.

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Koch-Grünberg, por exemplo, em expedição científica em 1911 registrou a prática ritualista dos yekuana de pingar colírios de diferentes tipos de pimentas ao se depararem com cachoeiras específicas. Após a purificação por meio da pimenta, o iniciado passaria a enxergar o que antes não via, e de alguma maneira se comunicar com o deus da cachoeira.

Leia atividade didática de Artes inspirada neste texto

Ano do ciclo: 4º ao 9º ano
Área envolvida: Música
Possibilidade interdisciplinar: História e Geografia
Tempo de duração: 10 aulas
Objetivos de aprendizagem: Apreciar músicas e canções pertencentes a povos indígenas; Valorizar as músicas e canções apreciadas, conhecendo aspectos da cultura dos povos indígenas; Discutir os conceitos de música popular e tradicional.

1) Visite o site www.musicadascachoeiras.com.br para que seus alunos conheçam o projeto que refez a expedição do etnógrafo alemão Koch-Grünberg em 1911. Assista com a turma a alguns dos vídeos disponíveis.

2) Localize em um mapa a Amazônia Ocidental, constituída pela área abrangida pelos estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima; e a Amazônia Oriental, que integra o Pará, Maranhão, Amapá, Tocantins e Mato Grosso.

3) A partir das informações contidas no texto “Na cadência da Amazônia”, organize uma lista com os diferentes povos indígenas no Brasil cujas canções foram selecionadas para o CD A Música das Cachoeiras. Apresente a eles o site http://pib.socioambiental.org/pt, em cuja página de abertura, leem-se nomes de diferentes povos que habitam o País. É possível, então, clicar sobre um deles e conhecer um pouco a respeito da etnia em questão. Divida a turma em pequenos grupos e proponha que, tomando o site como ponto de partida, cada um realize uma breve pesquisa a respeito de um povo diferente. Programe a apresentação.

4)
Discuta os conceitos de música popular e tradicional, a partir da classificação das faixas do CD A Música das Cachoeiras, disponível aqui.

Pudemos conferir de perto como vivem hoje os povos cujos costumes foram registrados por Koch-Grünberg, o etnógrafo alemão que primeiro gravou os cantos e danças dos indígenas da região do Alto Rio Negro e do Monte Roraima. Eu e a equipe do projeto A Música das Cachoeiras visitamos a Maloca do Conhecimento, em Itacoatiara-mirim, comunidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Lá, nos recepcionou a família de Laureano Baníwa. Mestre Laureano, como é chamado em referência ao seu vasto conhecimento, apresentou-nos um canto em língua aruak, em que se descreve o percurso dos ancestrais baníwa e dos deuses por entre o emaranhado de cachoeiras e igarapés das terras que atualmente habitam. No percurso da expedição, a relação entre mito e cachoeiras pôde ser percebida em última potência pela presença de Makunaima no Monte Roraima.

Foram 20 dias de viagem, divididos em duas etapas: a exploração do Alto Rio Negro e do Monte Roraima. São Gabriel da Cachoeira e Boa Vista, respectivamente, serviram de base para a empreitada. A partir dessas cidades, nos deslocávamos para as comunidades do interior com o intuito de registrar em áudio e vídeo digitais as manifestações musicais mais espontâneas. Viajamos com um estúdio móvel de gravação e produção musical, câmeras digitais para cinema e pessoal especializado em pesquisa e documentação etnográfica.

O resultado é um acervo de quatro horas de música e dez vídeos que mostram a diversidade musical dos indígenas da Amazônia Ocidental. Toda essa variedade pode ser ouvida e vista na página do projeto (www.musicadascachoeiras.com.br). Não conte, porém, com encontrar apenas canções com instrumentos rústicos. Este é só um tipo de produção musical indígena, o mais tradicional. Conforme o projeto mostra, a bandas indígenas da Amazônia também usam instrumentos como a guitarra e fazem sons ecléticos que incluem o reggae e o hip-hop cantados em línguas nativas.


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Entre todos os resultados do projeto, o mais importante não foi, porém, a quantidade de horas de músicas gravadas. Na realidade, o maior aprendizado foi o testemunho de como a cultura se transforma no decorrer das mudanças das sociedades. O popular e o tradicional se fundem, na tentativa de se fortalecerem e se propagarem às novas gerações. A seguir, divido com os leitores as aventuras da expedição, segundo o roteiro que fizemos.

1ª parada: Alto Rio Negro
Após um voo de quatro horas e meia, saindo de Manaus, chegamos a São Gabriel da Cachoeira, onde conhecemos o Grupo Marupiara. A banda era formada por zabumba, pandeiro, triângulo, baixo, guitarras, violão, gaita e vocais. O compositor e criador da banda, Ademar Garrido, contou que é descendente de espanhol e havia nascido em São Felipe, povoado a duas horas de subida do Rio Negro.

Segundo a obra Dois Anos entre os Indígenas, em toda a estada de Koch-Grünberg, no Alto Rio Negro, ele esteve sobre a proteção do espanhol dom Germano Garrido e Otero, caucheiro mais rico da região à época. Seu Ademarzinho, como foi chamado pelos integrantes do Marupiara, seria descendente do anfitrião do primeiro europeu a fazer registro audiovisual dos costumes dos povos da Amazônia Ocidental.

Ademarzinho empunhava um violão de aço e uma gaita de boca. Sua aparência remetia aos cantores de folk americanos, sobretudo quando ele colocava o chapéu e os óculos escuros. Por outro lado, o ritmo das músicas que gravou com o grupo era brasileiríssimo: foram basicamente variações do forró e do calipso. As letras eram em português e nheengatu, língua geral falada em diversas comunidades do Alto Rio Negro. Quase todas as músicas tinham duas versões, uma em português e outra em nheengatu.

As vocalistas Deusita e Miriam davam às músicas de seu Ademarzinho a alegria característica do lugar. Cantavam perfeitamente em português e nheengatu. Inclusive, Deusita era professora do Ensino Fundamental e radialista, sendo uma importante agente de difusão de sua cultura. São Gabriel da Cachoeira, logo no início nos surpreendeu com sua musicalidade e simpatia. Apesar de nosso foco ser a música, não podemos nos furtar de salientar a beleza natural do lugar: praias de areias brancas, cachoeiras de águas negras e montanhas ao fundo. Um paraíso da Amazônia.

Por outro lado, lá no Alto Rio Negro também encontramos a música tradicional, carregada de teor mítico da cultura dos baníwa. Flautas japurutu, crânios de caça, flautas de Pã, cariço e maracá foram alguns dos instrumentos que Mestre Laureano Baníwa nos apresentou. A nomenclatura utilizada por Laureano e as categorias de classificação que ele utilizou ao nos apresentar os instrumentos remetem às mesmas categorias que estão na obra de Koch-Grünberg. De alguma maneira, toda apresentação de seu Laureano parece atender à demanda de visitantes interessados em cultura.

No decorrer de nosso encontro, Mestre Laureano levanta uma importante questão que nos chamou atenção. Desde o início de nossa conversa, ele nos adverte de sua dificuldade de falar português. Moisés, seu filho, era nosso intérprete. Seu Laureano reclamava da dificuldade de falar com os filhos de Moisés, seus netos. Ele estava indignado com a situação de os netos serem alfabetizados somente em português, deixando de falar a língua baníwa. Repetia a sua indignação para as câmeras e gravadores. Para seu Laureano, estava claro que toda a história dos seus antepassados estava se transformando.

No Alto Rio Negro, visitamos a comunidade de Boa Vista, na foz do Rio Içana. A escola da comunidade era reduto da banda Taína Rukena, que tocava suas próprias composições, mesclando elementos de sua tradição Karianã com guitarra e sintetizadores. Trata-se da única banda da redondeza que não toca música evangélica.

No decorrer da primeira imersão, encontramos, tocando violão e gaita, os netos do senhor Garrido y Otero, personagens registrados por Koch-Grünberg. Além disso, por meio da música, pudemos confirmar em inúmeros locais visitados a evangelização e as consequências atuais das missões religiosas de outrora.

2ª parada: Monte Roraima
Na segunda etapa da expedição, além dos cantos tradicionais das etnias macuxi, taurepangue e wapichana, pudemos conferir a formação multicultural do estado de Roraima. Reggae e música regional foram os destaques.  Mais de nove grupos e intérpretes foram registrados. Assim como Koch-Grünberg, em 1911, gravamos o canto parixara, tukuí e areruia dos taurepangue, macuxi e wapichana. Ou seja, mesmo com o violento processo transformador nessas comunidades, parixara, tukuí e areruia sobrevivem a mais de 110 anos, sendo os temas musicais característicos dessa região. Nem sempre a forma encontrada foi a mesma, claro.  A música mantém-se viva em novos compositores e intérpretes, que, à sua maneira, vão recompondo com o passar do tempo.

Encontramos Eliakin Rufino, poeta e compositor de Roraima e crítico da difundida ideia do “índio de Cabral”. Para ele, ao se verem diante da cultura indígena, as pessoas julgam os seus valores a partir dos mesmos conceitos de 1500… Dessa maneira, a identidade dos indígenas fica estabelecida a partir da ideia de pureza ou isolamento, ao passo que os índios que estão próximos à nossa sociedade não podem mais ser considerados índios em razão de sua inserção.

O reggae em Roraima também encontrou um porto seguro. Primeiro, graças à difusão do estilo por todas as colônias inglesas caribenhas, a partir do fenômeno comercial iniciado por Bob Marley, que não deixou a região da fronteira de Roraima com a Guiana Inglesa imune ao estilo. Segundo, porque o fluxo migratório de maranhenses para Roraima foi em número considerável e, no estado, o estilo musical sempre foi muito forte.

Em Roraima, como no Alto Rio Negro, a escola assumiu o papel de difusão e ensino da tradição musical. Implantada para ensinar a epistemologia da civilização dominante, a instituição exerce o papel de difusor da tradição antes reprimida pelas missões religiosas. Nesse sentido, ela aparece como poderosa articuladora cultural nas comunidades visitadas. Todos os agentes e produtores culturais têm forte relação com a escola da comunidade a que pertenciam.

Por fim, a música carrega um valor inestimável para estudarmos o sistema cultural de seus compositores e atores. Estamos diante de um material riquíssimo, um campo privilegiado para entender os símbolos da cultura imaterial. Ao mesmo tempo é interessante notar a mudança no método científico: menos voraz que a etnografia alemã do início do século XX, que encheu os museus da Europa com peças da cultura indígena amazônica, a expedição registrou a música tradicional e popular da região, transbordando a questão antropológica.

*Agenor Vasconcelos coordenou a expedição A Música  das Cachoeiras, é filósofo e professor da UFAM