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Renata Meirelles
Filme é dirigido pela educadora Renata Meirelles e David Reeks

Há duas maneiras, ambas igualmente ricas, de explorar o documentário Território do Brincar – filme escolhido para abrir a segunda edição da mostra Ciranda de Filmes, realizada em maio, em São Paulo, e cuja programação reuniu curtas e longas-metragens, brasileiros e estrangeiros, que estimulam a reflexão sobre “infância, aprendizagem e transformação”. Educadores, psicólogos e outros profissionais que trabalham com crianças ou se interessam especialmente por elas ganham, com o filme, material de referência valioso. Mas é possível também entender um pouco melhor as possibilidades do próprio documentário como um modelo de cinema ao discutir as opções de linguagem audiovisual feitas aqui pelos realizadores.


Território do Brincar funciona como extensão cinematográfica de um amplo projeto de pesquisa desenvolvido ao longo de anos pela educadora Renata Meirelles e por seu marido, o codiretor David Reeks, sobre a cultura infantil de comunidades espalhadas por diversas regiões do Brasil. Na escolha do tema, ele guarda semelhanças com outro documentário brasileiro recente, Tarja Branca (2014), dirigido por Cacau Rhoden, que faz uma defesa eloquente da brincadeira – lúdica, descompromissada, inventiva –, não apenas na infância, mas também na vida adulta.

No filme de Rhoden, os músicos Antonio Nóbrega e Wandi Doratiotto, e os escritores Bráulio Tavares, colunista de Carta Fundamental, e Marcelino Freire são alguns dos muitos entrevistados que lembram o que a vida cotidiana perde quando os adultos esquecem o que sabiam muito bem quando eram crianças. A abordagem de Território do Brincar, no entanto, é diferente. Não há pontos de vista sobre o significado do brincar e a sua presença (ou ausência) na vida contemporânea, nem mesmo recursos informativos (como narração ou letreiros) que “expliquem” as imagens ou de onde elas procedem. A montagem organiza – às vezes em ritmo intenso, como o movimento das crianças na tela – cenas de brincadeiras recolhidas por Meirelles e Reeks, principalmente em comunidades ribeirinhas (algumas, indígenas) da Região Norte.

Para o diretor Eduardo Coutinho (1933-2014), todo documentário é “um filme sobre uma equipe de filmagem que realiza um documentário”. Essa definição sugere que é preciso haver transparência entre realizadores e seu público sobre os métodos de realização, em especial sobre como se deu a aproximação entre equipe e personagens. Ao optar por não expor na tela como os documentaristas se relacionaram com o seu objeto, os diretores de Território do Brincar o transformam apenas em ilustração de sua pesquisa, quando havia ali potencial para um documentário que fosse, ele também, de pesquisa, mas de linguagem.