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As aventuras de Tibicuera

Com frequência, leitores perguntam qual livro marcou minha vida. A resposta nunca varia. Meu primeiro grande livro se chama As Aventuras de Tibicuera, de Erico Verissimo.


Li-o com 9 anos e nele encontrei tudo o que uma criança espera: aventura, imaginação, sonho. Reli-o com 30 e tantos. Era a 37ª edição, ainda pela editora Globo, ainda com ilustrações de Oswaldo Storni. Muitas vezes reler é se decepcionar. Ou porque já não somos os mesmos ou porque a maturidade nos roubou parte da inocência – essencial para determinadas narrativas funcionarem.

A nova leitura teve o efeito singular de reforçar as impressões do pequeno leitor. De novo vi a lua através da floresta, ouvi a respiração obscura de Anhangá e de Curupira e tornei a sentir cheiro de pólvora e sangue.

Lançado em 1937 e dedicado aos filhos do autor, Clarissa e Luiz Fernando, As Aventuras de Tibicuera narra em primeira pessoa a saga de um índio tupinambá que acompanha mais de 400 anos de história do Brasil.

No texto descobrimos de cara como o personagem (magro e feio) decepciona o pai e como alimenta a troça do pajé da tribo (“Examinou-me, da cabeça aos pés, sorriu e disse: Tibicuera”).

Tibicuera na língua tupinambá quer dizer cemitério.

Apesar da descrença generalizada, o jovem índio, logo em sua primeira batalha, se faz respeitar e fabrica uma flauta com o fêmur do chefe inimigo. Pouco depois, Tibicuera presencia a chegada da frota portuguesa a Pindorama, território que ficou conhecido como Brasil. A partir de então a vida do personagem se confunde com a evolução do País, repleta de momentos e de figuras que passaram à História.

As Aventuras de Tibicuera me transformou. Compreendi a magia que um livro pode nos transmitir sem cobrar nada em troca. Fez-me dar razão aos meus pais quando me incentivavam a ler. Deixou gravadas na lembrança muitas passagens. A mais forte? O momento em que o narrador abandona suas memórias e corre até a praia. Lá um homem vestindo negro rabisca na areia. Será seu velho amigo José de Anchieta?

*Publicado originalmente em Carta Fundamental